O Estado de S. Paulo
Sob o signo do eficientismo dos tecnocratas que conformam a sociedade, a democracia esfarela-se enquanto sistema de governo
Vivemos na época da pressa, da urgência,
quando tudo deve ser prestado de imediato, sob pena de ser descartado, em
demora incompatível com a instantaneidade proporcionada pelas novas conquistas
da tecnologia.
Este processo avoluma-se desde o último quartel
do século passado. Em matéria publicada em 31 de maio de 1976, no jornal
Correio do Povo de Porto Alegre, recortada e guardada por dona Julieta Bento
Hofmeister, avó materna de minha mulher, transcreve-se a última entrevista de
Heidegger, então falecido na semana anterior.
Heidegger ali afirmava: “A filosofia chegou a seu fim. Seu papel foi ocupado agora pelas ciências. O lugar da filosofia foi ocupado pela cibernética”. E perquiria: “A pergunta decisiva é saber que sistema político, se é que existe algum, está à altura da época da técnica. Não tenho resposta a esta pergunta. Não estou convencido de que seja a democracia”.
Também nos anos 70 do século passado já
prenunciavam Lidia Ravera e Marco Radice (Porci con le ali, 1976) a atmosfera
da impaciência querendo se ter imediatamente o que se aspira. Conforme o
sociólogo Giorgio Triani (Il futuro è adesso, 2013), desde então instaura-se o
império do instante gerando a excitação de não se admitir espera para
satisfação urgente de todos os desejos, na velocidade do afluxo das informações
em quantidade colossal. A aceleração resulta na mentalidade do “voglio tutto
subito”.
A inovação contínua surge de vereda,
deteriora o conhecimento de ontem e reduz o tempo da estabilidade das
informações (Hartmut Rosa, Alienação e aceleração). Pronta, também, há de ser a
reação à informação recebida, gestada sem reflexão, impulsionada pela emoção e
pelo instinto. Nada é adiado, sem perda de tempo, em fluxo rápido.
Tinha, portanto, razão Heidegger: “Tudo
caminha e este funcionamento deriva em mais funcionamento”. Agora, no início do
segundo quartel do novo século, com o avanço tecnológico verifica-se que
efetivamente o funcionamento gerou mais funcionamento. Assim, hoje, os desejos
são logo satisfeitos: a informação vem num instante e se acumula; a compra por
internet traz o produto nas mãos do consumidor no mesmo dia; a reunião de
negócios realiza-se logo via Zoom; o Uber chega em dois minutos; os filmes
estão nas diversas plataformas; os textos são disponibilizados ao advogado, sem
imprecisões de linguagem, em segundos; petição não terá erros, malgrado o
causídico domine menos a língua portuguesa.
Este assustador “mundo novo” suscita a grave
indagação de Heidegger: qual o sistema político que lhe é compatível? A
democracia casa-se com este modo urgente da vida, como duvidava o filósofo
alemão?
A democracia é o sistema de governo no qual
as decisões transitam por um processo de discussão dos prós e contras, de
avaliação, visando ser a escolha fruto do convencimento extraído do debate. A
solução na democracia será sempre demorada, pensada, não bastando ser o caminho
mais eficiente, pois não deve ferir direitos fundamentais, a serem preservados.
Martin Schulz, político alemão que presidiu o
Parlamento Europeu, em entrevista de 12 de agosto passado, na Folha de S. Paulo
(p. A33), após registrar que vivemos em alta aceleração, pondera: “A democracia
é uma forma de governo muito lenta. Quando se quer que todos opinem e discutam
um tema, é preciso tempo – tempo do qual não dispomos nessa época de
aceleração”.
Em recente e agudo livro (A oligarquia dos
poderes e a crise da democracia), Joaquim Falcão bem diz que na era da
velocidade, com “a disponibilidade tecnológica, a democracia é decidida quase
diariamente no ontem: o movimento chega antes do pensamento”.
A eficiência alcança, portanto, posto
primordial. Na busca de respostas a exigências de modo rápido, a preservação de
direitos fundamentais é relegada a plano inferior. O que importa é a criação de
ferramentas que produzam resultados e satisfaçam demandas por vezes inventadas
pela própria indústria da tecnologia.
Duas manifestações, em especial, acendem a
luz amarela anunciando grave perigo à frente: o cientista político canadense de
origem chinesa Dan Wang atribui o maior desenvolvimento chinês em face dos
Estados Unidos por ser este um país de advogados, sendo a China um país de
engenheiros. O risco está em se concluir que o respeito a direitos emperraria a
execução de programas que engenheiros colocam em prática, razão pela qual
poderiam ser minimizados procedimentos e controles de sua proteção em favor do
avanço tecnológico.
Elon Musk, o trilionário da avançada
tecnologia, em entrevista à revista The Economist, prediz: a época do
Estado-nação já passou. O mundo pertence a algumas corporações, como SpaceX,
Meta, Amazon, Google, etc., que devem se reunir periodicamente para decidir o
destino do mundo: o que proibir ou permitir.
Assim, sob o signo do eficientismo dos
tecnocratas que conformam a sociedade, a democracia esfarela-se enquanto
sistema de governo no qual, primordialmente, se consagram e respeitam os
direitos fundamentais frente ao poder.
Repito o que dissera em outro artigo, talvez
de modo ingênuo: “Iluministas do mundo uni-vos”.

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