sábado, 5 de setembro de 2026

Quero tudo já, por Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

Sob o signo do eficientismo dos tecnocratas que conformam a sociedade, a democracia esfarela-se enquanto sistema de governo

Vivemos na época da pressa, da urgência, quando tudo deve ser prestado de imediato, sob pena de ser descartado, em demora incompatível com a instantaneidade proporcionada pelas novas conquistas da tecnologia.

Este processo avoluma-se desde o último quartel do século passado. Em matéria publicada em 31 de maio de 1976, no jornal Correio do Povo de Porto Alegre, recortada e guardada por dona Julieta Bento Hofmeister, avó materna de minha mulher, transcreve-se a última entrevista de Heidegger, então falecido na semana anterior.

Heidegger ali afirmava: “A filosofia chegou a seu fim. Seu papel foi ocupado agora pelas ciências. O lugar da filosofia foi ocupado pela cibernética”. E perquiria: “A pergunta decisiva é saber que sistema político, se é que existe algum, está à altura da época da técnica. Não tenho resposta a esta pergunta. Não estou convencido de que seja a democracia”.

Também nos anos 70 do século passado já prenunciavam Lidia Ravera e Marco Radice (Porci con le ali, 1976) a atmosfera da impaciência querendo se ter imediatamente o que se aspira. Conforme o sociólogo Giorgio Triani (Il futuro è adesso, 2013), desde então instaura-se o império do instante gerando a excitação de não se admitir espera para satisfação urgente de todos os desejos, na velocidade do afluxo das informações em quantidade colossal. A aceleração resulta na mentalidade do “voglio tutto subito”.

A inovação contínua surge de vereda, deteriora o conhecimento de ontem e reduz o tempo da estabilidade das informações (Hartmut Rosa, Alienação e aceleração). Pronta, também, há de ser a reação à informação recebida, gestada sem reflexão, impulsionada pela emoção e pelo instinto. Nada é adiado, sem perda de tempo, em fluxo rápido.

Tinha, portanto, razão Heidegger: “Tudo caminha e este funcionamento deriva em mais funcionamento”. Agora, no início do segundo quartel do novo século, com o avanço tecnológico verifica-se que efetivamente o funcionamento gerou mais funcionamento. Assim, hoje, os desejos são logo satisfeitos: a informação vem num instante e se acumula; a compra por internet traz o produto nas mãos do consumidor no mesmo dia; a reunião de negócios realiza-se logo via Zoom; o Uber chega em dois minutos; os filmes estão nas diversas plataformas; os textos são disponibilizados ao advogado, sem imprecisões de linguagem, em segundos; petição não terá erros, malgrado o causídico domine menos a língua portuguesa.

Este assustador “mundo novo” suscita a grave indagação de Heidegger: qual o sistema político que lhe é compatível? A democracia casa-se com este modo urgente da vida, como duvidava o filósofo alemão?

A democracia é o sistema de governo no qual as decisões transitam por um processo de discussão dos prós e contras, de avaliação, visando ser a escolha fruto do convencimento extraído do debate. A solução na democracia será sempre demorada, pensada, não bastando ser o caminho mais eficiente, pois não deve ferir direitos fundamentais, a serem preservados.

Martin Schulz, político alemão que presidiu o Parlamento Europeu, em entrevista de 12 de agosto passado, na Folha de S. Paulo (p. A33), após registrar que vivemos em alta aceleração, pondera: “A democracia é uma forma de governo muito lenta. Quando se quer que todos opinem e discutam um tema, é preciso tempo – tempo do qual não dispomos nessa época de aceleração”.

Em recente e agudo livro (A oligarquia dos poderes e a crise da democracia), Joaquim Falcão bem diz que na era da velocidade, com “a disponibilidade tecnológica, a democracia é decidida quase diariamente no ontem: o movimento chega antes do pensamento”.

A eficiência alcança, portanto, posto primordial. Na busca de respostas a exigências de modo rápido, a preservação de direitos fundamentais é relegada a plano inferior. O que importa é a criação de ferramentas que produzam resultados e satisfaçam demandas por vezes inventadas pela própria indústria da tecnologia.

Duas manifestações, em especial, acendem a luz amarela anunciando grave perigo à frente: o cientista político canadense de origem chinesa Dan Wang atribui o maior desenvolvimento chinês em face dos Estados Unidos por ser este um país de advogados, sendo a China um país de engenheiros. O risco está em se concluir que o respeito a direitos emperraria a execução de programas que engenheiros colocam em prática, razão pela qual poderiam ser minimizados procedimentos e controles de sua proteção em favor do avanço tecnológico.

Elon Musk, o trilionário da avançada tecnologia, em entrevista à revista The Economist, prediz: a época do Estado-nação já passou. O mundo pertence a algumas corporações, como SpaceX, Meta, Amazon, Google, etc., que devem se reunir periodicamente para decidir o destino do mundo: o que proibir ou permitir.

Assim, sob o signo do eficientismo dos tecnocratas que conformam a sociedade, a democracia esfarela-se enquanto sistema de governo no qual, primordialmente, se consagram e respeitam os direitos fundamentais frente ao poder.

Repito o que dissera em outro artigo, talvez de modo ingênuo: “Iluministas do mundo uni-vos”.

 

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