domingo, 27 de setembro de 2026

Reativar o País sem desarrumar a economia, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Qualquer um dos candidatos parece capaz de perceber o atoleiro atual da economia nacional e a urgência de políticas para desemperrar o País

Crescimento pífio, em torno de 2%, inflação acima de 4%, muita insegurança e investimento abaixo dos padrões internacionais compõem o quadro econômico brasileiro a poucos dias das eleições. Sem projetos claros e bem estruturados, os principais candidatos, incluído o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, raramente foram além das promessas de comícios. Houve quem apostasse em debates e pronunciamentos mais esclarecedores no final das campanhas. Falta verificar se os candidatos estão interessados em debater e preparados para isso.

Qualquer debate sério deve, ou deveria, partir de alguns dados básicos da economia nacional. Crescimento sustentável só é possível com razoável taxa de investimentos em meios de produção, como equipamentos, máquinas e instalações produtivas de bens e serviços. Em outros emergentes essa taxa é raramente inferior – e com frequência superior – a 18% do Produto Interno Bruto (PIB). Isso é parte da explicação do vigor econômico, bem maior do que o brasileiro, observado em vários desses países.

No Brasil, nos dez anos entre 2016 e 2025, o investimento em meios físicos de produção igualou ou superou a marca de 18% no quarto trimestre de 2020 (18,33%), no primeiro e no terceiro de 2021 (18,40% e 18,25%) e no terceiro de 2022 (18,33%). Em 2025, a maior taxa, 17,8%, foi registrada no primeiro trimestre. Esses números ajudam a entender por que a expansão econômica brasileira tem sido medíocre há algumas décadas.

Desde o começo do século, o crescimento raramente superou a taxa anual de 3%. Pior que isso: esteve frequentemente abaixo desse padrão. A partir de 2015, houve 3% de expansão apenas em 2022. Essa marca havia sido ultrapassada em 2021 (4,8%) e seria novamente superada em 2023 (3,2%) e 2024 (3,4%).

Na maior parte deste século, a agropecuária tem sido o setor mais dinâmico, mais produtivo e mais competitivo internacionalmente. Parte da indústria, aquela mais próxima da atividade rural, participa dessa competitividade e contribui também, de forma diferenciada, para a geração da receita cambial e para a acumulação de dólares. Uma capacidade competitiva especial também é observada em alguns outros segmentos da indústria de transformação – e um destaque especialmente notável tem sido o do setor aeronáutico.

A enorme dependência em relação à agropecuária torna o Brasil especialmente vulnerável a acidentes climatológicos e ao protecionismo praticado em vários países desenvolvidos, como os da União Europeia. O combate a esse protecionismo é dificultado por fatores políticos, especialmente importantes no caso da Europa continental.

A articulação de ações do governo e do setor privado tem conferido alguma eficácia à defesa dos interesses brasileiros no comércio internacional.

Mas novos obstáculos, baseados em novos argumentos protecionistas, podem ser impostos a qualquer momento pelos grandes importadores, até em benefício de países concorrentes do Brasil e com grande peso no jogo diplomático das principais potências políticas e econômicas. Cada vez mais é necessária a articulação de visões diplomáticas e comerciais no desenho e na execução das políticas de atuação no mercado global.

Com suas dificuldades e sua enorme complexidade, o comércio global pode impor desafios importantes a qualquer governo instalado a partir de janeiro do próximo ano. Política externa e economia internacional, no entanto, têm sido assuntos ignorados, ou quase, nos pronunciamentos de candidatos à Presidência da República. Mesmo com mudança de governo, o comércio exterior continuará, naturalmente, funcionando com base na experiência e na atuação do setor empresarial, exceto se a administração recém-instalada cometer alguma tolice excepcional. Diplomacia e comércio foram assuntos menosprezados – de fato, praticamente ignorados, até agora – pelos principais candidatos.

Nada de muito estranho, é claro, quando se leva em conta o peso eleitoral quase nulo desses temas. Não há como ignorar, no entanto, sua importância para o funcionamento do País e para o bem-estar da população. Falta checar a percepção desses fatos pelos concorrentes aos mais altos postos da administração nacional. Um presidente eleito em fase recente, notável por sua ignorância de vários assuntos dependentes do governo, destacou-se também por suas estranhas nomeações para postos ligados a temas internacionais. Foi uma fase tenebrosa para a diplomacia brasileira.

Nenhum dos atuais candidatos, alguns bem-sucedidos em negócios privados e outros em atividades públicas, parece oferecer risco de algo desastroso em funções políticas. Qualquer deles, incluído o candidato à reeleição como presidente, parece capaz de perceber o atoleiro atual da economia nacional e a urgência de políticas para desemperrar o País. Desemperrar, é claro, sem recorrer a irresponsabilidades, sem causar desarranjos e sem levar a sério a tese da gastança como indispensável à prosperidade. Vários petistas, alguns bem-sucedidos em funções oficiais, mostraram haver superado essa bobagem. Não há por que ressuscitá-la.

 

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