Folha de S. Paulo
Não podemos pôr em risco o direito
fundamental de determinarmos nosso destino
Na crescente desordem mundial, o poder bruto tem se imposto às regras internacionais
O Brasil se aproxima da mais dramática
eleição do ciclo democrático iniciado em 1988.
O que está em jogo não é apenas se o Brasil
migrará para a extrema direita, como têm feito alguns países vizinhos, ou
reafirmará a opção por uma aliança entre a centro-esquerda e o centrão.
Não se trata apenas de uma eleição em que se decidirá o destino da escala 6x1, do ajuste fiscal, da modernização tecnológica, da regulação da inteligência artificial, das leis ambientais, dos povos indígenas, da obrigatoriedade das vacinas, do Estado laico, da abertura de novos mercados ou do combate ao crime organizado. Todos esses são temas de máxima importância, que naturalmente dividem o eleitorado numa sociedade pluralista, e precisam ser arbitrados, sem violência, pelo processo eleitoral.
A complexidade da presente eleição é que ela
também nos coloca frente a escolhas existenciais, que normalmente não estão
presentes em pleitos ordinários, em que discutimos quais políticas públicas são
mais eficientes ou mais justas, que políticos são os mais competentes e
honestos, ou que valores morais devem ou não ser incorporados pela legislação.
Nesta eleição, o tema central é a preservação
tanto de nossa soberania, no sentido de nossa independência em relação a outras
potências, como de nossa cidadania, entendida como direito de participar dos
destinos da comunidade. Ou seja, de nossa autonomia, como indivíduos e como
sociedade.
Temos assistido a uma crescente desordem
mundial, na qual o poder bruto tem se imposto às regras internacionais e às
instituições multilaterais voltadas a promover uma convivência pacífica entre
as nações e a colaboração para o enfrentamento de problemas comuns, como as
mudanças climáticas e o crime organizado.
Em nosso hemisfério, o presidente norte-americano
tem deixado cada vez mais claro que não há espaço para autodeterminação dos
demais países. Que nossas riquezas
naturais e mercados têm que estar à disposição de seus interesses.
No plano interno, por sua vez, a
incompetência de sucessivos governos, a incapacidade do Parlamento de cumprir
sua obrigação de oferecer respostas aos principais problemas que afetam a
sociedade brasileira e do sistema de justiça de aplicar a lei de forma imparcial,
sobretudo aos seus próprios membros, têm gerado profundo desencantamento por
parte dos cidadãos, abrindo espaço para lideranças antissistema.
O espetáculo constrangedor oferecido por
alguns ministros do STF
nesta semana não pode se sobrepor, no entanto, à disposição estoica apresentada
pelo presidente Edson Fachin para apurar os fatos e preservar a autoridade da
lei.
Neste momento de deterioração das
instituições concebidas para resolver problemas, canalizar conflitos e aplicar
imparcialmente a lei, a tentação de "acabar com tudo isso que aí
está" é grande. Mas disso nada advirá.
Penso que a maior contribuição que as
lideranças da sociedade civil podem oferecer ao Brasil neste momento é levantar
andaimes e escoras em torno das instituições, para que possam ser urgentemente
reformadas.
Aos políticos, ao menos àqueles que têm
compromisso com a soberania popular e nacional, caberia construir de pontes de
diálogo entre os diversos setores da sociedade, para que possamos encontrar as
soluções para os nossos problemas.
O desafio das angustiadas eleitoras e
eleitores, por sua vez, é fazer escolhas que não coloquem em risco o direito
fundamental de determinarmos nosso próprio destino, como cidadãos e como nação
soberana.

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