Folha de S. Paulo
A forma ideal de protestar contra alguém sem
precisar alvejá-lo com balas de verdade
Noel Godin empastelou Bill Gates, Nicolas
Zarkozy, Jean-Luc Godard e Marguerite Duras
Como não pensaram nisso antes? De tanto assistir às antigas comédias-pastelão de O Gordo e O Magro, em que multidões levam na cara tortas de creme atiradas pela dupla ou por uns contra os outros, demorou, mas alguém viu nelas um objeto ideal de protesto, uma forma de desmoralizar um inimigo sem precisar alvejá-lo com balas de verdade. A inspiração veio da obra-prima de Laurel & Hardy, o curta "The Battle of the Century", produzido por Hal Roach em 1927 –mais de 3.000 tortas atiradas em apenas 3min40 de filme, disponível no YouTube.
Refiro-me a Noël Godin, o artista e
anarquista belga que, desde os anos 1990, dedicou-se a emboscar personalidades
de quem discordava, à saída de eventos públicos, e mimoseá-las com uma torta na
cara, à vista dos fotógrafos. Não uma torta atirada de longe, com risco de
errar, mas a centímetros do cidadão e espremida con gusto no rosto dele. Godin
não fazia isso sozinho. Era o líder da Brigada Internacional de Pastelaria, uma
gangue terrorista composta de mais de 30 guerrilheiros.
Alguns dos atingidos
por eles foram Bill Gates, cofundador da Microsoft, o ex-presidente
francês Nicolas Sarkozy, o cineasta Jean-Luc
Godard e a romancista Marguerite Duras. O escritor Bernard-Henri
Lévy foi atacado oito vezes. "Nossas tortas vêm das melhores pastelarias.
Se a operação não der certo, nós as comemos", ele disse. Nem todas as
vítimas se ofendem –Godard limpou o rosto com os dedos e lambeu-os. E os
membros têm seu código de ética: "Nossos alvos são sempre ricos e
poderosos. Nunca atacamos pessoas na pior".
Godin morreu em Bruxelas
há um mês, aos 80 anos. Dizia-se herdeiro do Maio de 1968, o levante
estudantil em Paris que abalou estruturas mundialmente. No começo,
dedicava-se a levantar os hábitos das freiras nas ruas e a tocar fitas de puns
durante missas. Mas as tortas se revelaram mais eficazes. Deixou um livro de
memórias, "Creme e Castigo", ainda inédito aqui.
No Brasil, mais popular do que as tortas é o
pavê. O que não falta são fuças para levar um.

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