O Globo
A 10 dias do primeiro turno, o Brasil segue
sem discutir propostas. Nunca se foi tão longe nesse processo de alienação da
realidade quanto nesta campanha
A eleição deste ano não tem qualquer
discussão de política pública, e o processo está sendo soterrado por um tsunami
de notícias sobre escândalos. Algumas sérias, outras usadas para confundir. Em
ambiente assim, é melhor separar o fato da fumaça feita para esconder a realidade.
O candidato Flávio
Bolsonaro entrar com uma notícia-crime contra o presidente Lula
por suposta relação com Daniel
Vorcaro, e por, talvez, ter recebido um whisky, é pura fumaça. Vamos aos
fatos. O Banco Central não permitiu a compra do Master pelo BRB, liquidou o
Master e denunciou os indícios de crime. A Polícia Federal investigou e prendeu
Vorcaro, o pai do Vorcaro, o primo e o cunhado. Em que o governo beneficiou o
ex-banqueiro?
Flávio Bolsonaro diz que “conforme foi noticiado”, o advogado Walfrido Warde, que defendia Vorcaro à época, “relata ao seu cliente sucessivas ações destinadas a aproximá-lo do presidente Lula e de autoridades do governo federal”. Registra a reunião que houve no Planalto e cita que “pouco mais de um mês depois” o advogado encaminhou ao Vorcaro “mensagem que indica o recebimento de presente (whisky) do banqueiro por parte do presidente Lula”.
Vamos novamente aos fatos. Flávio Bolsonaro
pediu dinheiro a Vorcaro e recebeu. Insistiu em ter novas parcelas e visitou
Vorcaro, após a prisão do então banqueiro, para cobrar mais dinheiro. Não se
sabe muito bem, porque ele jamais explicou, o montante que foi para o filme
Dark Horse e que caminho percorreu até o seu destino. O candidato do PL é o
único dos candidatos ao Planalto que está sendo investigado por suspeita de
lavagem de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva e organização criminosa
no caso Master. Segundo a notícia-crime que Flávio Bolsonaro apresentou, Lula
teria se utilizado do cargo para “atender interesses ilícitos de Daniel
Vorcaro”. Foi o senador que disse ao então banqueiro: “fala irmãozão, estarei
contigo sempre”.
As notícias sobre a existência de uma suposta
“Turma do KN” resultaram numa boa medida preventiva. O Corregedor Nacional de
Justiça, Benedito Gonçalves, ordenou o cancelamento do pagamento de R$ 4,73
bilhões em precatórios de usinas de açúcar. Esses papéis foram vendidos ao Banco Master.
O dinheiro que estava em contas oficiais será devolvido ao Tesouro. Esse velho
pleito dos usineiros, como já disse aqui, é um desses engodos que vão se
eternizando no sistema de justiça. Os usineiros disseram que haviam sido
prejudicados pelo congelamento do Plano Cruzado, o que não faz qualquer sentido
para quem acompanhou os fatos da época. Eles tiveram perdas e ganhos com o
congelamento, mas sobretudo foram sempre subsidiados. Vorcaro comprou esses
papéis podres e o truque era encontrar magistrados que quisessem dar ganho de
causa aos donos dos precatórios. O ministro Kassio Nunes Marques conduziu a
segunda turma para o voto em que reconhecia direito dos detentores de
precatórios. Direito muito questionável e que agora o ministro Gilmar Mendes
quer que seja analisado no plenário.
Nessa enxurrada de notícias sobre os negócios
ilícitos e as tentativas de Daniel Vorcaro de corromper a República, muita
coisa está se esclarecendo ou exigindo explicação, como as várias comunicações
do ministro Alexandre
de Moraes com Vorcaro, cliente do escritório de sua mulher. No Supremo
Tribunal Federal, uma ala quer que o foco permaneça apenas em Alexandre de
Moraes, sobre o qual há fortes indícios. Outra ala defende que sejam todos
investigados. Até agora há três ministros citados, ou talvez quatro. Que todas
as dúvidas sejam esclarecidas, mas que essa proposta de investigação ampla não
seja uma forma de acender o forno de pizza.
O ambiente no país está beligerante, com
trocas de acusações, algumas reais, outras resultantes de manipulação. Nesta
reta final do processo eleitoral, o Brasil não teve qualquer chance de pensar
sobre propostas de políticas públicas em área alguma. Há muito tempo, a
polarização extremada tem substituído o bom debate sobre programas de governo,
mas nunca se foi tão longe nesse processo de alienação da realidade quanto
nesta eleição.
O risco é terminarmos o processo de escolha
de novos governantes sem saber o que decidimos para o futuro do país em
qualquer área. E a sombra da falta de compromisso com a democracia por parte do
candidato Flávio Bolsonaro permanece rondando o país.

Nenhum comentário:
Postar um comentário