Folha de S. Paulo
Podemos estar cercados de 'amigos desleais'
que, em nome de interesses aparentemente comuns, preparam armadilha fatal
Em entrevista em 1964, Hannah Arendt discutiu
pertencimento a grupos organizados politicamente
A resenha de uma biografia de Hannah Arendt
recentemente publicada nos Estados
Unidos me remeteu à incrível entrevista que ela deu a Günter
Gaus, na televisão alemã, em 1964, e que eu nunca tinha visto, embora esteja há
anos disponível no YouTube.
Arendt escapou da Alemanha em 1933, aos 26 anos, quando, em suas próprias palavras, só um idiota seria incapaz de perceber que os nazistas (e muitos alemães que os apoiavam direta ou indiretamente) eram inimigos dos judeus. E isso bem antes da instalação do terror, precedida por um período de abandono e vazio.
O problema na verdade não eram só os
inimigos, mas os "amigos", gente que acabaria caindo na própria
armadilha, no que ela chama de "coordenação", ou deslealdade, dos
intelectuais. "Eu não tinha a menor vontade de ficar perambulando pela
Alemanha como cidadã de segunda classe."
Arendt é categórica ao declarar que, "se
você é atacado como judeu, deve se defender como judeu, não como alemão ou
cidadão do mundo ou defensor dos direitos humanos, ou o que quer que
seja".
Nesse momento, o entrevistador pede que ela
então explique o que queria dizer quando declarou: "Nunca amei nenhum povo
ou grupo coletivo, nem alemães, nem franceses, nem americanos, nem a classe
operária nem nada desse gênero. Só posso amar meus amigos. O amor pelos judeus
seria suspeito, porque sou judia".
E ela esclarece: "Pertencer a um grupo
por nascimento é da condição humana. Agora, pertencer a um grupo organizado
politicamente é uma coisa completamente diversa. As pessoas se organizam
politicamente por interesses comuns em relação ao mundo. O que chamamos de
amor, e que pode existir no amor propriamente dito e também na amizade, é uma
relação pessoal direta, que não está baseada em interesses comuns em relação ao
mundo. [...] O amor é apolítico e desinteressado".
Arendt associa esse amor à condição judaica,
à humanidade própria dos párias, que se perdeu com a criação do Estado de
Israel. E lamenta: "A liberdade cobra um preço alto".
O amor desinteressado aparece na literatura,
segundo ela, quando Homero decide cantar não apenas o vencedor, mas os
vencidos; quando Heródoto conta os feitos dos gregos e também dos bárbaros.
"Toda ciência nasce desse espírito. Se você é incapaz de imparcialidade,
porque pretende amar seu próprio povo a ponto de comprometer a verdade, então
não há o que fazer."
O interesse comum é da ordem política. É a
condição das nações. O resultado das pesquisas, mostrando Flávio
Bolsonaro encostado em Lula no
segundo turno das eleições presidenciais em outubro, com tudo o que seu nome,
seu pai e sua família representam contra os brasileiros, acrescido do passivo
de subserviência a uma potência estrangeira com interesses contrários aos do
país, faz pensar que estejamos cercados não só pelo cinismo de inimigos
declarados, mas pelos que Arendt considerava "amigos desleais" que,
em nome de interesses aparentemente comuns, nacionais, e muitas vezes sem se
dar conta da extensão suicida de suas ações, preparam uma armadilha que, essa
sim, será comum e fatal.
Não seria de todo descabido ver na política
internacional aparentemente errática de Donald Trump,
para além da ganância pessoal, um desmonte deliberado das nações, com a
cumplicidade de grupos oportunistas internos compartilhando interesses em redes
supranacionais de desregulação e corrupção.
Por mais contraintuitivo que pareça à
primeira vista, a autocracia é a condição do esfacelamento nacional. A aliança
do governo americano com a extrema direita na América Latina faz parte de uma
política de espoliação, fundamental no seu confronto com a China,
única potência capaz de lhe fazer frente.
Que significa quase metade dos eleitores
declarar o voto em Flávio Bolsonaro senão uma ideia perdida de nação? O eco
insistente de um governo funesto cujo lema —"Deus acima de todos..."—
trazia embutida uma conclusão tácita e interessada: "...e cada um por
si".

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