sábado, 10 de outubro de 2026

A ascensão política de pautas antifeministas é uma ameaça às mulheres? Sim, por Flávia Biroli*

Folha de S. Paulo

Estratégia promove projetos autoritários e normaliza violências e desigualdades

Movimento rende frutos em tempos de expansão de ideologias anti-igualitárias e de avanço da extrema direita

É preciso avaliar concretamente a atuação política das mulheres. Qual trajetória as levou à política e de que modo ganharam visibilidade? Quais interesses representam? Quais são as consequências do que fazem quando têm espaços e recursos de poder?

Isso significa evitar duas armadilhas. A primeira é a idealização. Os estereótipos de gênero alimentam visões de que as mulheres seriam menos ambiciosas. Podem comportar-se assim, o que decorre tanto de incentivos presentes na socialização diferenciada de mulheres e homens quanto de desincentivos. Entre estes estão obstáculos históricos à participação na esfera pública, resultantes de sua responsabilização pelo trabalho de cuidado, da seletividade de instituições como partidos políticos e de valores machistas.

Quando encontram oportunidades, mulheres atuam estrategicamente por espaço e voto, apostando em personas, agendas e relações que lhes conferem capital político. Como os homens, podem agir orientadas por ideais, mas também pelo autointeresse ou para garantir vantagens para algum setor da sociedade.

A segunda armadilha é a expectativa de que as mulheres na política representariam "os interesses das mulheres", pressupondo uma unidade que não existe. O gênero não define as condições de vida isoladamente, mas em relações concretas que conferem privilégios a algumas e tornam a vida mais difícil para outras.

Em outras palavras, mulheres vivem em posições de classe e de raça, situadas em territórios e ocupações que constituem suas identidades. São, também, parte de comunidades de valores, como as religiosas e corporativas, que podem definir suas visões, além de serem, nas condições atuais, uma trilha para a política.

Constatar que as mulheres têm posições variadas, confrontando os estereótipos, não significa que, nas nossas sociedades, tanto faz ser homem ou mulher. A diferença está nas desigualdades e nas formas assumidas pela violência e não em vocações naturais. As mulheres, mesmo tendo hoje nível educacional maior que o dos homens, têm menor acesso a renda, tempo livre e aposentadoria porque exercem trabalho gratuito precioso para a sociedade, cuidando das crianças, dos idosos, de quem adoece ou precisa de assistência.

A violência que atinge meninas e mulheres está relacionada ao exercício de controle masculino sobre seus corpos e à dupla moral sexual, que é permissiva com os homens e justifica a punição às mulheres que agem em desacordo com as expectativas deles.

O antifeminismo é uma ameaça para as mulheres porque promove a normalização dessas desigualdades e violências. As mulheres antifeministas na política se identificam em oposição ao feminismo, e essa é uma estratégia que rende frutos em tempos de expansão de ideologias anti-igualitárias e de avanço da extrema direita. Atuam contra direitos reprodutivos, como o direito ao aborto de meninas e mulheres que sofreram estupro, que existe desde 1940. Entre elas, há quem reconheça a violência de gênero e apresente respostas penais (prisão, esterilização de estupradores) e há quem culpabilize as mulheres e até negue que essa violência tenha especificidades, propondo o fim das leis Maria da Penha (2006) e do Feminicídio (2015). Entre as que exercem mandato, há quem tenha votado contra a lei da igualdade salarial.

O antifeminismo faz parte de um campo político que promove projetos autoritários. Para as antifeministas, alguns grupos são naturalmente mais poderosos do que outros e o Estado não tem a função de promover justiça social por meio de leis e políticas públicas. Para elas, a liberdade é uma mistura de "cada um por si" e "cada um por suas famílias". Representam o avesso dos projetos igualitários promovidos por feminismos atentos às desigualdades em suas múltiplas formas e cientes da importância do Estado democrático na promoção de uma ordem social menos predatória, mais solidária.

O antifeminismo também é, hoje, uma oportunidade de gerar polêmicas que rendem visibilidade e votos. Algumas das mulheres eleitas com essa pauta encontraram nele um recurso para se tornarem mais poderosas.

*Professora titular de ciência política da Universidade de Brasília (UnB); é autora, entre outros, de ‘Gênero e Desigualdades - Limites da Democracia no Brasil’ (ed. Boitempo)

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