Folha de S. Paulo
Estratégia promove projetos autoritários e normaliza
violências e desigualdades
Movimento rende frutos em tempos de expansão
de ideologias anti-igualitárias e de avanço da extrema direita
É preciso avaliar concretamente a atuação
política das mulheres. Qual trajetória as levou à política e de que modo
ganharam visibilidade? Quais
interesses representam? Quais são as consequências do que fazem quando têm
espaços e recursos de poder?
Isso significa evitar duas armadilhas. A primeira é a idealização. Os estereótipos de gênero alimentam visões de que as mulheres seriam menos ambiciosas. Podem comportar-se assim, o que decorre tanto de incentivos presentes na socialização diferenciada de mulheres e homens quanto de desincentivos. Entre estes estão obstáculos históricos à participação na esfera pública, resultantes de sua responsabilização pelo trabalho de cuidado, da seletividade de instituições como partidos políticos e de valores machistas.
Quando encontram oportunidades, mulheres atuam
estrategicamente por espaço e voto, apostando em personas, agendas e
relações que lhes conferem capital político. Como os homens, podem agir
orientadas por ideais, mas também pelo autointeresse ou para garantir vantagens
para algum setor da sociedade.
A segunda armadilha é a expectativa de que as
mulheres na política representariam "os interesses das mulheres",
pressupondo uma unidade que não existe. O gênero não define as condições de
vida isoladamente, mas em relações concretas que conferem privilégios a algumas
e tornam a vida mais difícil para outras.
Em outras palavras, mulheres vivem em
posições de classe e de raça, situadas em territórios e ocupações que
constituem suas identidades. São, também, parte de comunidades de valores, como
as religiosas e corporativas, que podem definir suas visões, além de serem, nas
condições atuais, uma trilha para a política.
Constatar que as mulheres têm posições
variadas, confrontando os estereótipos, não significa que, nas nossas
sociedades, tanto faz ser homem ou mulher. A
diferença está nas desigualdades e nas formas assumidas pela violência e
não em vocações naturais. As mulheres, mesmo tendo hoje nível educacional maior
que o dos homens, têm menor acesso a renda, tempo livre e aposentadoria porque
exercem trabalho gratuito precioso para a sociedade, cuidando das crianças, dos
idosos, de quem adoece ou precisa de assistência.
A violência que atinge meninas e mulheres
está relacionada ao exercício de controle masculino sobre seus corpos e à dupla
moral sexual, que é permissiva com os homens e justifica a punição às mulheres
que agem em desacordo com as expectativas deles.
O antifeminismo é uma ameaça para as mulheres
porque promove a normalização dessas desigualdades e violências. As mulheres
antifeministas na política se identificam em oposição ao feminismo, e
essa é uma estratégia que rende frutos em tempos de expansão de ideologias
anti-igualitárias e de avanço da extrema direita. Atuam contra direitos
reprodutivos, como o direito ao aborto de
meninas e mulheres que sofreram estupro, que existe desde 1940. Entre elas, há
quem reconheça a violência de gênero e apresente respostas penais (prisão,
esterilização de estupradores) e há quem culpabilize as mulheres e até negue
que essa violência tenha especificidades, propondo o fim das leis Maria
da Penha (2006) e do Feminicídio
(2015). Entre as que exercem mandato, há quem tenha votado contra a lei da
igualdade salarial.
O antifeminismo faz parte de um campo
político que promove projetos autoritários. Para as antifeministas, alguns
grupos são naturalmente mais poderosos do que outros e o Estado não tem a
função de promover justiça social por meio de leis e políticas públicas. Para
elas, a liberdade é uma mistura de "cada um por si" e
"cada um por suas famílias". Representam o avesso dos projetos
igualitários promovidos por feminismos atentos às desigualdades em suas
múltiplas formas e cientes da importância do Estado democrático na promoção de
uma ordem social menos predatória, mais solidária.
O antifeminismo também é, hoje, uma
oportunidade de gerar polêmicas que rendem visibilidade e votos. Algumas das
mulheres eleitas com essa pauta encontraram nele um recurso para se tornarem
mais poderosas.
*Professora titular de ciência política da Universidade de Brasília (UnB); é autora, entre outros, de ‘Gênero e Desigualdades - Limites da Democracia no Brasil’ (ed. Boitempo)

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