sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A dupla cara do futuro, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Na política, as duplas personalidades se desconstroem reciprocamente. Esse processo manifestou-se tardiamente durante a campanha eleitoral

De repente, o surpreendente resultado das eleições do chamado primeiro turno revela aquilo que o bolsonarismo e a direita não são nem aquilo que as esquerdas e o PT tampouco são. O processo político brasileiro, há muito, se desenrola fora do âmbito do racional e do compreensível e longe do que é propriamente político e a política.

Sem substância teórica e doutrinária e, portanto, sem competência para se propor como protagonista legítima do processo histórico brasileiro, a direita finge. Tanto finge o que é quanto o que não é.

Utilizando os meios técnicos abundantes e fáceis de manipulação das vontades, a direita conseguiu resultados espetaculares do ponto de vista numérico. Pessoas inexpressivas e até desconhecidas do eleitor tradicional obtiveram votações muito acima do que é numericamente normal num país como o Brasil.

Equipararam-se às abstenções, as grandes campeãs de voto em nosso país. Com isso, o eleitor brasileiro confirma-se como personagem significativo da eleição para não eleger, para não legitimar o regime político, para desacatar as instituições.

O eleitor brasileiro há muito usa a eleição para mandar um recado antipolítico aos políticos. A abstenção mais o voto em branco e os ausentes são indicativos de um partido potencial, discordante e crítico, que porém não consegue traduzir na mensagem propriamente política de mandatos de contestação o seu não voto.

No seu comportamento antipolítico e antidemocrático, essa parcela do eleitorado brasileiro é a presença do ausente. Essa ausência é politicamente efetiva como renúncia a um direito, mas também como anulação prática do direito de todos, o de se fazer representado nas instituições e no contrato político implícito que lhe dá sentido.

Não é alienação no estrito sentido do conceito. É rudimento de ação política como expressão não de vontade, mas de raiva, portanto, como ação política inacabada. Que, porém, é levada a termo por aqueles que na direção contrária dão-lhe o sentido que não deveria ter enquanto ato de usurpação de direitos do eleitor omisso.

O que, com relutância, pode ser chamado de erro das esquerdas tem sido o de levar a sério as armadilhas da polarização ideológica da direita. É o erro de aceitar como desafio o que, ficou claro agora, é apenas teatro e circo. Mas é claro que não é, na direita, engano e brincadeira.

É impossível não prestar atenção, nestes dias, no fato de que a direita acha que política é isso mesmo. Diferente do que foi a concepção dos eleitores paulistas que deram a Tiririca mais 1,3 milhão de votos em 2010 para a Câmara dos Deputados e o reelegeram mais três vezes. Nessa votação, queriam dizer que todo político é um palhaço.

Neste ano de 2026, Tiririca mudou de partido e de domicílio eleitoral para o Ceará, seu estado de origem. Recebeu míseros 5.500 votos, 0,5% de sua votação original em São Paulo. Depois de quatro mandatos como deputado federal, Tiririca se convenceu de que não era propriamente um palhaço na política, mas um palhaço transformado em político. Retornou ao lugar de origem para recriar-se como outra pessoa, metamorfoseado em político. Não foi reconhecido. A condição de palhaço da política apossara-se dele.

Esse caso, de certo modo, lembra o filme de Roberto Rossellini, estrelado por Vittorio De Sica, “Il generale Della Rovere” (intitulado “De crápula a herói” no Brasil). História verdadeira do trapaceiro Indro Montanelli, preso em Milão durante a ocupação alemã da Itália. Aliciado para fingir-se de general Della Rovere, da Resistência, e identificá-lo, na tortura, cuja identidade acaba assumindo e é finalmente fuzilado no lugar do herói italiano.

Aparentemente, Tiririca entrou num processo de ressocialização política, porém sociologicamente inviável. O político como palhaço tinha sentido na pessoa sem identidade porque fora do lugar institucional e da condição de cumpridor do roteiro próprio da política que pode transformar o palhaço em político.

O pós-eleitoral mostrou aqui a dupla personalidade do novo político brasileiro de direita. Na política, as duplas personalidades se desconstroem reciprocamente. Esse processo manifestou-se tardiamente durante a campanha eleitoral. Se eleito, Bolsonaro chegará ao poder completamente sem poder, pois destituído de autenticidade. O povo brasileiro terá dúvida quanto ao que ele diz que faz ou quer fazer e o que ele é não sendo.

Do lado das esquerdas, são elas expressão do lado oposto da polarização: porque sem duplicidade. Historicamente, as esquerdas são oposição mesmo no poder. Oposição ao sistema, e não oposição ao governo. Pensamento e ação crítica em relação às contradições antissociais do poder do lucro sem limite e sem ética.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

Um comentário: