CartaCapital
O vírus da intolerância midiática se
desenvolve rapidamente na estufa da autocomplacência
Os poderosos da Grande Mídia nativa não cobriram, mas encobriram, por todos os meios e modos, a manifestação pró-Lula na Avenida Paulista. Nas tevês, durante a programação noticiosa, o telespectador ficou à mercê do excesso de gesticulação de âncoras e quetais, contorcionismos que denunciavam o mal-estar com a negação dos fatos que ocupavam as ruas. Não raro, os diálogos entre apresentadores e repórteres se encerravam com ataques ao vernáculo: “brigado”.
Na mídia impressa – jornais e revistas – a
cobertura foi sovina, senão hostil, aos manifestantes da Paulista. Não espanta:
na edição de sexta-feira, a revista Veja editou matéria que acusava Lula de ter
recebido grana do indefectível Daniel Vorcaro. A acusação apoiava-se em uma
narrativa obtida no celular do ex-banqueiro. A Polícia Federal não apurou tais
increpações no celular do indigitado Faria Limer.
Luis Nassif há tempos publicou o livro O Caso
Veja. A obra revela suas preocupações com os rumos da mídia brasileira. A
exposição é magnífica. Vou apresentar um excerto do livro que atesta a prática
jornalística de Veja.
1. Levantam-se alguns dados verdadeiros, mas
irrelevantes ou que nada tenham a ver com o contexto da denúncia, mas que
passem a sensação de que o jornalista acompanhou em detalhes o episódio narrado.
2. Depois juntam-se os pontos, cria-se um
roteiro de filme, muitas vezes totalmente inverossímil, calçado em alguns fatos
irrelevantes, supostamente verdadeiros.
3. Para “esquentar” a matéria, ou se inventam
frases que não foram pronunciadas, ou se tiram frases do contexto, ou se
confere tratamento de escândalo a fatos banais.
A propósito da imprensa e de suas liberdades,
julguei oportuno reproduzir nesta coluna o relatório final da Comissão sobre a
Liberdade de Imprensa, nomeada em 1947 pelo Congresso dos Estados Unidos.
Considero o texto um exemplo de equilíbrio e acuidade no tratamento do tema
“liberdade de imprensa”.
Diz o relatório: existe uma razão
inversamente proporcional entre a vasta influência da imprensa na atualidade e
os grupos sociais que podem utilizá-la para expressar suas opiniões. Enquanto a
importância da imprensa para o povo aumentou enormemente com o seu
desenvolvimento como meio de comunicação de massa, “diminuiu em grande escala a
proporção de pessoas que podem expressar suas opiniões e ideias através da
imprensa”.
O relatório procurou apontar “o que a
sociedade tem direito de exigir de sua imprensa”. Definiu duas regras
essenciais para o legítimo exercício da liberdade de informação e opinião: 1. “Todos os pontos de vista
importantes e todos os interesses da sociedade devem estar representados nos
organismos de comunicação de massa”; 2.
“É necessário que a imprensa dê uma ideia dos grupos que constituem a
sociedade. Dizer a verdade a respeito de qualquer grupo social – sem excluir
suas debilidades e vícios – inclui também reconhecer os seus valores, suas
aspirações, seu caráter humano”.
As recomendações exaradas no relatório da
Comissão sobre a Liberdade de Imprensa refletem o espírito do tempo nos
Estados Unidos e na Europa Ocidental: a aposta no aperfeiçoamento dos processos
de controle democrático sobre o Estado e sobre o poder privado. O trauma das
duas Guerras Mundiais e da Grande Depressão saturou o ambiente intelectual dos
anos 40 do século XX da rejeição aos totalitarismos, seja o despotismo do
mercado descontrolado, seja o dos chefes providenciais.
O sociólogo Karl Mannheim, um pensador
representativo de sua época, escreveu em 1950, no livro Liberdade, Poder e
Planejamento Democrático: … “Não devemos restringir o nosso conceito de poder
ao poder político. Trataremos do poder econômico e administrativo assim como do
poder de persuasão que se manifesta através da religião, da educação e dos
meios de comunicação de massa, tais como a imprensa, o cinema e a
radiodifusão”. Mannheim dizia temer menos os governos, que podemos controlar e
substituir, e muito mais os poderes privados que exercem sua influência no
“interior” das sociedades modernas. Não é preciso ter lido Michel Foucault para
suspeitar de truculências que não dizem o seu nome e são impiedosamente
exercidas nas “malhas do poder”, tecidas em silêncio no interior das
sociedades.
A liberdade de opinião e informação
transformada em infalibilidade dos meios de comunicação revela o suave
endurecimento dos métodos de controle social e político
O vírus da intolerância midiática se
desenvolve rapidamente na estufa da autocomplacência, sob a forma perigosa e
letal do silêncio cúmplice especializado na perseguição aos “inimigos”, na
desqualificação e intimidação da opinião divergente, na prática do serial character
assassination, no descumprimento do direito de resposta.
A liberdade de opinião e de informação
transformada em (quase) infalibilidade da mídia revela o suave endurecimento
dos métodos de controle social e político nas sociedades contemporâneas.
Mas não é sábio exagerar no pessimismo: nos
próximos anos, a luta política vai decidir se as tecnologias de comunicação da
terceira revolução industrial, a internet e a convergência dos meios, vão nos
conduzir ao totalitarismo consentido, à moda de George Orwell, ou ao
aperfeiçoamento democrático da ágora informatizada capaz de corrigir as
distorções dos poderes que se escondem sob as máscaras da liberdade.
Quem manda mesmo não aparece em cena. Essa
função estratégica da grande mídia foi fortalecida no regime militar e não
sofreu qualquer percalço depois da chamada redemocratização. Pior: olham o
passado como juízes do tribunal da história. São eles que decidem quem tem o
poder de julgar e quem deve se sentar nos bancos dos réus.
A liberdade de imprensa só se justifica
enquanto realização da liberdade de expressão dos cidadãos livres e iguais, os
legítimos titulares do sagrado e inviolável direito à opinião livre e
desimpedida.
Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.

Você tá reclamando de quê? durante quatro anos a grande imprensa bateu palmas para Moraes e Lula por todos os malfeitos que eram praticados
ResponderExcluirAtacaram e condenaram Flávio Bolsonaro de todas as formas
Você está fazendo um esforço enorme pra defender esse candidato o Lula, responsável pela decadência econômica social e moral do Brasil
Não sei o que está ganhando ou se é intrinsecamente ligado à esquerda mas a tendência à esquerda do jornalismo é evidente e majoritária
é tempo de mudança!
Viva a liberdade caraca!