sábado, 31 de outubro de 2026

A vitória de uma ideia, por Sergio Lirio

CartaCapital

Os eleitores não escolheram o político Lula, mas o que ele representa

“Não sou um ser humano, sou uma ideia. E não adianta tentar acabar com as ideias.” Poucas horas depois de pronunciar a frase, no início da tarde de 8 de abril de 2018, Lula abriria caminho no mar de apoiadores que separava os policiais federais enviados para cumprir a ordem de prisão emitida pelo juiz Sergio Moro na sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São ­Bernardo do Campo. Foram 580 dias de reclusão sem crises de soluço, palpitações ou falta de ar, até o Supremo Tribunal Federal restabelecer os direitos políticos confiscados pela República de Curitiba. Lula falava àquela altura das maquinações da força-tarefa de Curitiba para encarcerá-lo sem provas, mas a afirmação sobreviveu ao tempo e nunca fez tanto sentido como agora. No domingo 25, na mais espetacular inversão de expectativas de uma disputa eleitoral, a maioria dos brasileiros aptos a votar não escolheu um ser humano, um político em carne e osso. Escolheu o que ele representa. Pela primeira vez o petista não carregou nos ombros uma porção do País, foi carregado por ela, em uma onda que se agigantou em três semanas e se tornou avassaladora nas ruas e nas redes sociais. Um tsunami, na verdade, que afogou as manipulações da Justiça Eleitoral, da Faria Lima e das big techs, boias lançadas na esperança de converter Flávio Bolsonaro, náufrago sem rumo, em comandante do transatlântico. Sensato, o eleitor salvou o Brasil do desatino e do destino do Titanic.

Aos 81 anos, consagrado como o maior líder popular da história do País, único a vencer quatro eleições, Lula, no derradeiro mandato, terá mesmo de se converter em uma ideia. A despeito da fuga de Flávio Bolsonaro, a esta altura escondido atrás da barra da calça de ­Marco ­Rubio, o golpismo continua à espreita e só será enfrentado com o apoio dos milhões que tomaram as rédeas da própria sina no segundo turno. O exercício diário do poder tende a favorecer quem tem acesso aos gabinetes e aos convescotes – frequentados, em sua maioria, pelos derrotados de ontem. A pressão, diga-se, não tardou. Mal as urnas haviam fechado e o jornalismo profissional passou a vocalizar as orientações dos senhores, imbuídos da “desinteressada e patriótica” missão de ensinar o presidente como e para quem ele deveria governar, e de que modo se comportar. No passado, o PT caiu na esparrela de administrar o País conforme o desejo daqueles que têm ojeriza às ideias representadas pelo partido. Por mais conciliador, por mais moderado, apesar de encarnar a verdadeira “terceira via” e de ser o único mandatário desde o fim da ditadura a garantir algum crescimento do País associado à melhora do bem-estar coletivo, por mais humilhações a que tenha sido submetido, sem nunca abandonar o País, Lula continua a ser visto pelos moradores da cobertura como radical, inepto e perigoso. No discurso da vitória na Avenida Paulista, ante uma multidão em festa, o petista prometeu refazer os laços com os eleitores. Agora que comprou um celular e aprendeu com o deputado André ­Janones a navegar pelas redes sociais, fica mais fácil criar uma linha direta com as ruas. Mire-se, presidente, no exemplo daquela mulher da Cidade do México. Cláudia Sheinbaum é a líder mais popular da América Latina e esse desempenho em muito se deve à transparência e proximidade com a população.

O presidente cumprirá o último mandato em meio ao debate sobre o futuro do campo progressista. Não se trata de discutir substitutos, mas um novo projeto nacional

Luiz Inácio também precisa ser uma ideia por outro motivo: o resultado da eleição é ao mesmo tempo um recomeço e um fim. Está aberto o debate sobre o futuro do campo progressista sem o comando da maior liderança política viva do País. Seria um erro reduzir o impasse ao conceito de pós-Lula, ou seja, resumir o horizonte a uma disputa fratricida na legenda em torno da figura que irá substituí-lo nas urnas. É preciso pensar no pós-lulismo. Diante das mudanças sociais e tecnológicas e do esgotamento do modelo de desenvolvimento que orientou a esquerda ao longo do século XX até esta quadra da história, como recriar a utopia? Qual projeto é capaz de unir a nação? Como retomar as bandeiras da revolução e da indignação sequestradas pela extrema-direita? Como transformar as frustrações em sonhos? Neste momento, o planeta celebra a resistência brasileira. Fazer o L ganhou novos significados em protestos internacionais. Meu velho amigo José Sócrates, ex-primeiro-ministro de Portugal, sintetizou, eufórico, os acontecimentos do ­domingo: “Não foi uma conquista do Brasil, foi uma conquista do mundo”.

Lula, a ideia, renasceu nas ruas e só sobreviverá nelas. Quando voltarem ao conforto do ar-condicionado dos gabinetes, convém ao presidente e a seus ministros não baixarem as persianas e não desgrudarem os olhos das calçadas, das avenidas, dos pontos de ônibus. Não funciona mais apelar aos cidadãos de quatro em quatro, ou de dois em dois anos. Como se viu na disputa deste ano, quando o presidente esteve perto de ser derrotado por um delinquente, sem estofo, graça e caráter, é temerário reduzir os compatriotas a um título de eleitor. Na democracia ideal e ­idealizada, todo poder emana do povo. 

*Publicado na edição n° 1437 de CartaCapital, em 04 de novembro de 2026.

 

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