quinta-feira, 15 de outubro de 2026

As dúvidas e os avanços da reta final, por Míriam Leitão

O Globo

A redução da jornada de trabalho é uma pauta antiga e disseminada no mundo. O recuo de Flávio Bolsonaro mostra que a proposta alternativa dele não fazia sentido

Foi uma longa jornada para chegar até o dia de ontem, em que o Senado aprovou com votação consagradora a redução de 44 para 40 horas do tempo de trabalho semanal e com dois dias de descanso por semana. A última mudança de carga horária fora há 38 anos. O projeto virou também um evento da campanha eleitoral. O candidato Flávio Bolsonaro mudou bruscamente de ideia sobre o assunto e ontem o PL aceitou que seus senadores fossem a favor da PEC. O medo do Partido Liberal é que a oposição ferrenha ao projeto tirasse votos na urna para o candidato da extrema direita.

O projeto ainda é uma incerteza, mesmo com a forte votação de ontem. Num cenário favorável a Flávio Bolsonaro, sem a pressão das urnas, a proposta pode ser de novo alterada. A alternativa que a direita apresentou foi muito mal feita. A chamada “liberdade de escolha” não pode ser exercida quando há desequilíbrio de forças entre os dois lados da negociação. O trabalho por hora evidentemente fragilizaria todos os direitos garantidos ao trabalhador formal, do salário mínimo às férias e décimo terceiro.

O mercado de trabalho é muito complexo, há os autônomos, os informais, os microempreendedores individuais. Contudo, no mundo inteiro, a tendência tem sido as 40 horas. E essa é a orientação também da Organização Internacional do Trabalho. O passo que o Brasil está dando é o de uma modernização que já houve em inúmeros países.

A queixa da oposição é de ter que decidir sob a pressão das urnas. Uma confissão de que se os eleitores não estiverem olhando, eles não votariam. Isso sim é casuísmo eleitoreiro e não a decisão de pautar agora. Aliás, se fosse pautada antes de 4 de outubro, teria sido uma pressão maior sobre senadores que estavam disputando a reeleição. Agora a eleição do Senado já se encerrou. Mas a ordem dada pelo líder do PL foi a de seguir a orientação de Flávio Bolsonaro, que fez uma mudança drástica de uma hora para a outra. Mudança que não é crível.

Especialistas analisam casos internacionais da Europa, por exemplo, e apontam riscos de aumento dos custos do emprego formal, que já são altos no Brasil. Mas o que parlamentares da direita disseram nas últimas semanas foram argumentos mais toscos. Eles eram mesmo contra o avanço dos direitos. Uma dúvida real é sobre o período de transição curto no Brasil. Em outros países, levou mais tempo. No México, a queda foi maior de 48 horas para 40. O tempo de transição está sendo de quatro anos.

O que é o mais importante a assinalar em todo o ambiente econômico dos últimos dias no Brasil é que algumas das medidas anunciadas pelo presidente Lula suscitam os mesmos questionamentos que levantaram as decisões de Jair Bolsonaro em 2022. O que pode ou não pode um presidente fazer quando está em campanha para a reeleição? Ele pode anunciar como se fossem atos de governo o que são atos de campanha?

Os juros altos levaram os microempreendedores a uma situação difícil. O superendividamento das famílias e das microempresas começou na pandemia, não foi tratado a tempo e piorou diante do choque de juros. O governo teria que entrar para ajudar a resolver. Mas tendo sido apresentado faltando 12 dias para as eleições, e sendo tão generoso, levanta o debate dos limites do incumbente. Até porque vem depois de uma série de medidas para agradar o eleitor, que poderiam ter sido enviadas antes.

Esta eleição terminará com uma lista extensa do que deve ser evitado no futuro. O que o ministro Kassio Nunes Marques tem feito é inaceitável. Atropelou o ministro que estava com a reclamação da campanha de Flávio Bolsonaro sobre o canal de transmissão de mensagens conhecido como “Exército de Lula”. Mesmo diante da avaliação dos técnicos do TSE de não terem encontrado indícios de fake news no canal, Kassio manteve-o fora do ar por 48 horas. A medida de obrigá-lo a se registrar como um instrumento da campanha faz sentido, mas a suspensão no fim da campanha foi abusiva. No final da noite, ele recuou e derrubou a própria decisão.

A democracia precisa ser aperfeiçoada constantemente para garantir a paridade de armas em qualquer eleição. Nesta disputa, contudo, o que permanece é a dúvida central: que compromisso tem Flávio Bolsonaro com o respeito às instituições?

 

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