Valor Econômico
Quatro em cada dez eleitores não têm Lula ou Flávio na ponta da língua. Quer melhoria de vida, mas, nesse tiroteio, terá que escapar de bala perdida
A 72 horas do início da votação, quatro em
cada dez eleitores não têm o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou o senador
Flávio Bolsonaro na ponta da língua. São brasileiros que não apenas não sabem
quem são Daniel Vorcaro ou Roberta Luchsinger, como tampouco têm qualquer
interesse nos personagens. A decisão acontece na virada do mês que mal deram
conta de fechar, uma grande parte deles, no prejuízo.
O eleitor típico desta escolha derradeira é mulher, católica, do Sudeste e da classe C (renda familiar de R$ 2 mil a R$ 8 mil). Este é um perfil que tem-se repetido ao longo das últimas disputas. Trata-se de um eleitor que é mais dificilmente captado pelas pesquisas, seja porque não para pra responder quando é abordado na rua e não abre sua casa para pesquisador, seja porque desliga quando recebe uma ligação. Dez anos atrás era preciso fazer 15 chamadas para que se conseguisse um questionário completo. Agora são, em média, 300.
Não bastasse as mulheres serem maioria no
eleitorado e na parcela que bate martelo por último, são também mais decisivas
na reta final porque, apesar de todo o alheamento, comparecem mais para votar
que os homens. Em grande parte porque são mais afetadas pelos serviços públicos
a serem prestados pelos eleitos. Quem está no poder, portanto, leva vantagem
para conquistar este voto derradeiro.
Foi isso que aconteceu com o ex-presidente
Jair Bolsonaro, que surpreendeu ao passar ao 2º turno de 2022 a despeito de
estar mais de dez pontos atrás de Lula nas pesquisas que antecederam o
primeiro. Tinha despejado dinheiro de baciada no ano eleitoral, do Bolsa
Família ao vale-gás, da desoneração dos combustíveis à ampliação do crédito
consignado. O fôlego por pouco não impediu a vitória de Lula na segunda rodada.
A vantagem de quem está no poder explica a
arrancada dos governadores candidatos à reeleição nesta reta final. Lula diluiu
as políticas públicas capazes de fidelizar este eleitor ao longo do mandato: Pé
de Meia e linha de crédito para reforma de casa (2024), isenção do IR até R$ 5
mil, vale-gás e tarifa social para famílias de renda per capita até meio
salário-mínimo (2025), reajuste do Bolsa Família e Desenrola 3, subvenção aos
combustíveis e liberação excepcional de FGTS (2026). E, finalmente, anunciou a
MP que proíbe apostas. Não é dinheiro extra, mas uma tampa no ralo.
É nisso que aposta para atrair este eleitor
desconfiado e sair da condição de empate com seu principal adversário, apontada
tanto no voto da ponta da língua quanto naquele que é estimulado. Não quer que
este eleitor goste dele, mas que precise de seu governo. O objetivo é alcançar
uma vitória ainda em 1º turno. Seria mais fácil se conseguisse ampliar a
aprovação ao seu governo, o que não aconteceu ao longo do programa eleitoral.
A investida das últimas 72 horas é outra.
Visa a minar a confiança em Flávio Bolsonaro, especialmente entre as mulheres,
com o currículo do seu adversário. Trouxe um vídeo, a partir de versão mais
longa produzida pela plataforma Revelando, de uma criança de cinco anos, morta
por um policial militar em sua casa, que teve seu julgamento postergado quando
Flávio Bolsonaro entrou de advogado no caso. “Quem defende um assassino de
criança vai te defender?”.
Não é a única aposta. Novas reportagens e
vazamentos não apenas evidenciaram ainda mais o envolvimento do senador do PL
com o banqueiro do Master como mostraram a profusão de amigos que Flávio
Bolsonaro fez em sucessivos rolos ao longo de sua vida. A capacidade de achaque
demonstrada é uma pitada da ameaça à segurança jurídica sobre o país com a
eventualidade de sua eleição. Há símbolos mais facilmente captados pelo eleitor
do que a triangulação da lavagem de dinheiro do “Dark Horse”. Tem avião,
mulheres, Rolex, mas é isso que vai mover o eleitor tardio? Pode fazê-lo, no
limite, se afetar a confiança em sua capacidade de governar, que, por incrível
que possa parecer, é o principal atributo do candidato do PL.
O que o senador tem de arsenal para se
defender? Por enquanto, ainda parece ocupado com seu sistema antimísseis.
Colaboradores de sua campanha têm passado o chapéu entre endinheirados para
reforçar a ofensiva nas redes sociais. A entrada de Pablo Marçal na sua
campanha parece ter sido o primeiro resultado do arrecadado. Por enquanto, com
cortes que retratam Lula como um anticristão. Mas como Marçal falsificou um
laudo médico para atestar o uso de cocaína pelo então candidato do PSol à
Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, hoje ministro da Secretaria-geral da
Presidência, é de se esperar que sua ofensiva não tenha limites.
A ofensiva mais poderosa de Flávio Bolsonaro,
porém, se dará sobre a cadeira vazia no debate de hoje. Vai desgostar o eleitor
e deixar o candidato à reeleição sem defesa para os ataques que virão. Como a
entrevista que Lula dará a um podcast de larga audiência acontecerá antes e não
depois do debate, o presidente e sua campanha parecem mais preocupados em
atingir uma audiência grande do que se defender do que virá.
A única chance de equilibrar o ringue do
debate seria uma decisão liminar do TSE para que a TV Globo, a exemplo do que
fez com Romeu Zema (Novo), acolha também Renan Santos (Missão), que pontua
acima do ex-governador de Minas nas pesquisas e gira sua metralhadora a esmo. É
em meio a este tiroteio que o eleitor tardio terá de se mover. Oxalá não seja
vítima de uma bala perdida.

Muito bom!
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