Correio Braziliense
Menos siglas não significa mais identidade
programática, mas pode significar grandes blocos mais heterogêneos
Dezesseis dos 30 partidos registrados no país
não alcançaram os requisitos da cláusula de desempenho nas eleições de domingo
e ficarão sem fundo partidário, sem tempo de rádio e de TV a partir de 2027. A
inspiração para essa regra, porém, remonta à Alemanha pós-Segunda Guerra
Mundial como um mecanismo para impedir que partidos minoritários pudessem
ascender lentamente à participação do parlamento.
No Brasil, a tentativa de implementar um mecanismo semelhante aconteceu pela primeira vez em 1995, por meio da Lei dos Partidos Políticos, como um mecanismo para impedir que partidos nanicos ocupassem cada um poucas cadeiras na Câmara e causassem fragmentação excessiva. Contudo, o início da aplicação da cláusula foi adiado para 2006, quando foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A partir dali, o número de partidos efetivos
na Câmara disparou e o Brasil se tornou o país com o Legislativo mais
fragmentado do mundo por mais de uma década, atingindo o pico em 2018, com 16,5
partidos efetivos, de um número de 25 totais. Nas eleições daquele ano foram
eleitos 30 partidos, mas com a aplicação da primeira etapa da cláusula de
desempenho, prevista na Emenda Constitucional nº 97, o número total já começou
a baixar logo após a abertura dos trabalhos da Legislatura. Essas novas regras
incentivaram os eleitos a sair do partido anterior e ir para outra legenda que
tivesse acesso aos recursos e à estrutura oferecida pelo Regimento, o que foi
suficiente para reduzir o número de partidos a cada eleição.
Em 2026, 14 dos 30 partidos cumpriram a
regra, com sete deles por meio de federações. Entre os partidos que não
cumpriram, estão a federação PSol/Rede, PDT, Avante, Missão e a federação
PRD/Solidariedade. Mesmo com uma visibilidade pela candidatura presidencial de
Augusto Cury, o Avante não conseguiu atingir a performance necessária. No caso
do PSol, o partido elegeu o deputado federal mais votado do Distrito Federal,
mas esse feito não foi suficiente para garantir a sobrevivência do partido, que
ficou pendente de 185 votos no Espírito Santo para vencer a cláusula.
A lógica das federações partidárias surge em
2021 justamente como uma forma de sobrevivência para os partidos menores.
Porém, a cláusula de desempenho foi desenhada para concentrar recursos nos
partidos mais competitivos, com o beneficiário principal sendo o partido
majoritário. Na prática, a concentração dos recursos do fundo eleitoral e do
fundo partidário retroalimenta o sistema: a arena eleitoral favorece quem tem
mais recursos do fundo eleitoral, e a eleição de bancadas maiores favorece a
alocação do fundo partidário. Em outras palavras, diante de um sistema
partidário personalista e fragmentado, que possui baixa identificação do
eleitorado com os partidos, esse desenho favorece o partido que recruta
puxadores de voto e constrói chapas mais amplas, e não o partido que mantém uma
coerência programática.
Menos siglas, portanto, não significa mais
identidade programática, mas pode significar grandes blocos mais
heterogêneos.
Apesar disso, em 2026, a ampliação da bancada
do PL para 121 deputados na Câmara tem apresentado uma outra tendência: a de
formação de um bloco à direita bastante coeso com nomes aliados ao bolsonarismo.
Resta saber, para as próximas eleições, se essa nova tendência conformará
blocos ideologizados a despeito do que a tradição da ciência política
brasileira aponta sobre a baixa identificação do eleitorado com os partidos.
*Evelyn Apolinaria — doutoranda do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol/ UnB) e coordenadora adjunta do Observatório do Congresso do Ipol/UnB; Isaac Jordão Sassi — doutorando do Ipol/ UnB

Nenhum comentário:
Postar um comentário