terça-feira, 27 de outubro de 2026

Conquista do 4º mandato liberta Lula do ressentimento, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Foi a descoberta de que poderia falar diretamente com o eleitor para romper com a divisão do país que o libertou

Passados quase sete anos desde que deixou a carceragem da Polícia Federal em Curitiba, só agora, ao conquistar seu quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter se libertado daquele cubículo de 15 metros quadrados em que passou 580 dias.

Muitos dos problemas que se acumularam em sua volta ao poder em 2022 tiveram como motor a percepção, equivocada, de que havia sido redimido de sua prisão quando, na verdade, foi usado de escudo contra o bolsonarismo. A montagem do governo e, principalmente, da equipe palaciana, refletiu um presidente mais ressabiado que se fiou, sobretudo, na relação de confiança pessoal com seus indicados que lhe traziam sua leitura do país em sua nova prisão, os palácios do poder.

Esta campanha se iniciou sob o motor do mesmo sentimento, ante as mais diversas audiências. Em diferentes formatos, as abordagens repetiam a inconformidade com o eleitor adversário que relevava a trajetória do senador Flávio Bolsonaro, na linha “se o eleitor não quer, pior para ele”.

Lula nunca aceitou sua condição de antibolsonaro. Ele quer todo mundo. A permanência de uma metade do país que o odeia alimentou seu sentimento de injustiça e a ferida aberta que carrega e que o levou a ter na primeira-dama seu quase exclusivo vínculo afetivo, que substituiu, inclusive, aquele com a família. Nesta campanha, aproximou-se de personagens que venceram esta barreira, como o governador do Piauí, Rafael Fonteles, que tem metade de sua idade.

Não dá para dizer que o voto contrário de quase 60 milhões de eleitores que optaram por Flávio Bolsonaro tenha desmobilizado a ojeriza a Lula. Mas o afeto que recebeu nas ruas, de pessoas que, mobilizadas pela resistência a seu adversário ou por utopias coletivas, parece tê-lo fortalecido para enfrentar a divisão do país.

Tudo isso ficou claro em seus discursos depois da vitória. As falas tiveram dois eixos. Primeiro no vice, Geraldo Alckmin, personagem que não integrava o núcleo duro da masmorra de Curitiba mas se incorporou, pela lealdade e pelo papel desempenhado nas negociações do tarifaço, estendidas ao secretário-executivo que o sucedeu, Marcio Elias Rosa, às relações de sua confiança.

Ao longo da campanha, como Lula não gosta de falar de ajuste fiscal, era para Alckmin que passava a bola quando achava que o tema tinha que ser endereçado. O vice fez isso em dobradinha e em agendas solo, no BTG e no Santander. Ao pedir que o vice o antecedesse em suas falas no domingo, Lula deu uma empurradinha: “Não precisa ser telegráfico, pode falar”.

Das três frentes já levantadas para fazer caber a confiança conquistada dentro do Orçamento, a contenção das emendas, a limitação dos precatórios e a entrada em vigor da reforma tributária, em janeiro, é nesta última que Alckmin estaria mais talhado para atuar, pela experiência no Midc. Por mais que se fale em neutralidade fiscal, é esperado um incremento de receita, que testará o humor do setor privado para o avanço seguinte, o do corte de despesas com a redução das desonerações.

É na Fazenda que exercerá esta missão? O presidente, até o momento, nada lhe falou. Ninguém aposta que o fará antes de dezembro. O momento é de os colaboradores entregarem territórios conquistados. Dos 10 municípios paulistas em que Lula teve o maior ganho de votos no 2º turno, Alckmin esteve em sete.

Em Hortolândia, reuniu 58 prefeitos, nenhum deles da base lulista. O Estado contribuiu com 25% dos 11 milhões de votos a mais de Lula no 2º turno. Não foi obra de um homem só. A despeito de ter sido derrotada ao Senado, Simone Tebet foi a mulher mais votada do país (8,3 milhões). Também tem dedo de Fernando Haddad nos 26,6% a mais de votos na capital paulista.

O segundo eixo do discurso de Lula foi protagonizado pelo deputado federal, André Janones (Rede-MG). O “Exército de Lula” não foi decisivo apenas por ter mobilizado as pessoas, a partir das redes, para reduzir a alienação eleitoral (abstenção, em branco e nulos). A mobilização, na definição de um colaborador da campanha, ajudou na transformação do presidente depois da vitória.

Lula, definiu, saiu do cercadinho do ressentimento ao se perceber amado. Isso acabou se traduzindo na sofreguidão com a qual agradeceu aos eleitores no dia 25. Ele tinha dificuldade de agradecer porque achava que as pessoas eram devedoras dele. Ao descobrir, depois de 50 anos de vida pública, que, com um celular, podia falar com as pessoas, sem mediação, se deslumbrou como uma criança ante um brinquedo novo. Curou, dessa forma, o que este leitor da alma do presidente definiu como “ferida da ingratidão” e se libertou.

Janones foi além. Permitiu, na definição de outro colaborador, que Lula reformulasse os pressupostos da composição ministerial. O presidente já vinha se queixando de que as emendas parlamentares haviam desamarrado os partidos, de maneira que legendas com três ministérios nada lhe entregavam em votos. Agora pretende valorizar o critério da comunicação com a sociedade em detrimento do partidário. Então se o Centrão quiser espaço vai ter que provar que seu indicado viraliza para dialogar sobre políticas públicas.

A declarada missão de Janones é ajudar Lula a romper com a divisão do país que tanto o desgosta. Chutou 90% de popularidade como meta porque tinha como baliza o segundo mandato. A despeito de o presidente ser estreante, já deve ter concluído que rede social só viraliza se houver conteúdo.

 

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