Valor Econômico
Foi a descoberta de que poderia falar diretamente com o eleitor para romper com a divisão do país que o libertou
Passados quase sete anos desde que deixou a
carceragem da Polícia Federal em Curitiba, só agora, ao conquistar seu quarto
mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter se libertado daquele
cubículo de 15 metros quadrados em que passou 580 dias.
Muitos dos problemas que se acumularam em sua volta ao poder em 2022 tiveram como motor a percepção, equivocada, de que havia sido redimido de sua prisão quando, na verdade, foi usado de escudo contra o bolsonarismo. A montagem do governo e, principalmente, da equipe palaciana, refletiu um presidente mais ressabiado que se fiou, sobretudo, na relação de confiança pessoal com seus indicados que lhe traziam sua leitura do país em sua nova prisão, os palácios do poder.
Esta campanha se iniciou sob o motor do mesmo
sentimento, ante as mais diversas audiências. Em diferentes formatos, as
abordagens repetiam a inconformidade com o eleitor adversário que relevava a
trajetória do senador Flávio Bolsonaro, na linha “se o eleitor não quer, pior
para ele”.
Lula nunca aceitou sua condição de
antibolsonaro. Ele quer todo mundo. A permanência de uma metade do país que o
odeia alimentou seu sentimento de injustiça e a ferida aberta que carrega e que
o levou a ter na primeira-dama seu quase exclusivo vínculo afetivo, que
substituiu, inclusive, aquele com a família. Nesta campanha, aproximou-se de
personagens que venceram esta barreira, como o governador do Piauí, Rafael
Fonteles, que tem metade de sua idade.
Não dá para dizer que o voto contrário de
quase 60 milhões de eleitores que optaram por Flávio Bolsonaro tenha
desmobilizado a ojeriza a Lula. Mas o afeto que recebeu nas ruas, de pessoas
que, mobilizadas pela resistência a seu adversário ou por utopias coletivas,
parece tê-lo fortalecido para enfrentar a divisão do país.
Tudo isso ficou claro em seus discursos
depois da vitória. As falas tiveram dois eixos. Primeiro no vice, Geraldo
Alckmin, personagem que não integrava o núcleo duro da masmorra de Curitiba mas
se incorporou, pela lealdade e pelo papel desempenhado nas negociações do
tarifaço, estendidas ao secretário-executivo que o sucedeu, Marcio Elias Rosa,
às relações de sua confiança.
Ao longo da campanha, como Lula não gosta de
falar de ajuste fiscal, era para Alckmin que passava a bola quando achava que o
tema tinha que ser endereçado. O vice fez isso em dobradinha e em agendas solo,
no BTG e no Santander. Ao pedir que o vice o antecedesse em suas falas no
domingo, Lula deu uma empurradinha: “Não precisa ser telegráfico, pode falar”.
Das três frentes já levantadas para fazer
caber a confiança conquistada dentro do Orçamento, a contenção das emendas, a
limitação dos precatórios e a entrada em vigor da reforma tributária, em
janeiro, é nesta última que Alckmin estaria mais talhado para atuar, pela
experiência no Midc. Por mais que se fale em neutralidade fiscal, é esperado um
incremento de receita, que testará o humor do setor privado para o avanço
seguinte, o do corte de despesas com a redução das desonerações.
É na Fazenda que exercerá esta missão? O
presidente, até o momento, nada lhe falou. Ninguém aposta que o fará antes de
dezembro. O momento é de os colaboradores entregarem territórios conquistados.
Dos 10 municípios paulistas em que Lula teve o maior ganho de votos no 2º
turno, Alckmin esteve em sete.
Em Hortolândia, reuniu 58 prefeitos, nenhum
deles da base lulista. O Estado contribuiu com 25% dos 11 milhões de votos a
mais de Lula no 2º turno. Não foi obra de um homem só. A despeito de ter sido
derrotada ao Senado, Simone Tebet foi a mulher mais votada do país (8,3
milhões). Também tem dedo de Fernando Haddad nos 26,6% a mais de votos na
capital paulista.
O segundo eixo do discurso de Lula foi
protagonizado pelo deputado federal, André Janones (Rede-MG). O “Exército de
Lula” não foi decisivo apenas por ter mobilizado as pessoas, a partir das
redes, para reduzir a alienação eleitoral (abstenção, em branco e nulos). A
mobilização, na definição de um colaborador da campanha, ajudou na
transformação do presidente depois da vitória.
Lula, definiu, saiu do cercadinho do ressentimento
ao se perceber amado. Isso acabou se traduzindo na sofreguidão com a qual
agradeceu aos eleitores no dia 25. Ele tinha dificuldade de agradecer porque
achava que as pessoas eram devedoras dele. Ao descobrir, depois de 50 anos de
vida pública, que, com um celular, podia falar com as pessoas, sem mediação, se
deslumbrou como uma criança ante um brinquedo novo. Curou, dessa forma, o que
este leitor da alma do presidente definiu como “ferida da ingratidão” e se
libertou.
Janones foi além. Permitiu, na definição de
outro colaborador, que Lula reformulasse os pressupostos da composição
ministerial. O presidente já vinha se queixando de que as emendas parlamentares
haviam desamarrado os partidos, de maneira que legendas com três ministérios
nada lhe entregavam em votos. Agora pretende valorizar o critério da
comunicação com a sociedade em detrimento do partidário. Então se o Centrão
quiser espaço vai ter que provar que seu indicado viraliza para dialogar sobre
políticas públicas.
A declarada missão de Janones é ajudar Lula a
romper com a divisão do país que tanto o desgosta. Chutou 90% de popularidade
como meta porque tinha como baliza o segundo mandato. A despeito de o
presidente ser estreante, já deve ter concluído que rede social só viraliza se
houver conteúdo.

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