quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Desafios imediatos para os vencedores, por Míriam Leitão

O Globo

O governo tem que se concentrar nos problemas a resolver. Na prática o novo mandato já começou. A fuga de Flávio Bolsonaro é a crise da oposição

O novo mandato do presidente Lula, na prática, já começou e o governo tem decisões a tomar. A instabilidade financeira precisa ser entendida com racionalidade. O governo aumentou muito os gastos no período eleitoral e a economia está sem parâmetros. A oposição está às voltas com a fuga de Flávio Bolsonaro. Ela foi planejada com muita antecedência. As informações desencontradas da terça eram parte de uma operação despiste. O país ficou preso nas versões, enquanto Flávio Bolsonaro permanecia em solo brasileiro. O governo não pode ser tragado pela confusão criada pelo perdedor. Deve focar em suas próprias prioridades. A economia é uma delas.

A ordem de Alexandre de Moraes de entrega dos passaportes foi pedida pela Polícia Federal. Está sendo usada como pretexto para sustentar a teoria da perseguição política. Caiu como uma luva em todo o enredo dos Bolsonaro para justificar a fuga. O derrotado sabe que são muito sólidos os indícios contra ele nos dois inquéritos, principalmente no que investiga a sua relação, que pode ser de sociedade, com o enroladíssimo Willer Tomaz.

A fuga de Flávio Bolsonaro é um problema do bolsonarismo e da direita. Há muitas questões para o governo resolver, a mais imediata é o que fazer em relação à economia. Há dúvidas razoáveis sobre as questões fiscais. Só o subsídio ao diesel, que foi agora renovado, já custou mais de R$ 50 bilhões aos cofres públicos. Em algum momento precisará ser retirado. Foi mantido porque o governo acreditava em um cenário de guerra mais curta. A retirada vai elevar a inflação. Portanto é preciso construir uma estratégia de saída lenta desse gasto. Ele tem sido coberto pelo imposto de exportação, mas é uma distorção na economia.

Os operadores do mercado financeiro apostaram alto no cenário em que Flávio Bolsonaro ganharia eleição. Foram tão altas as posições, que chegaram a ser advertidos de que teriam que se preparar para as chamadas de margem. Ninguém se preparou. O mercado entrou comprado e sem hedge num cenário que não se concretizou. A vitória de Lula levou à reorganização completa do portfólio e isso provocou a grande turbulência de segunda-feira. O Banco Central entrou fazendo um leilão já programado, e o Tesouro teve que recomprar títulos.

Há indicadores alarmantes. Para o horizonte relevante da política monetária houve um acréscimo de 400 pontos de juros. Ou seja, a aposta é que se o governo não fizer o ajuste das suas contas, o Banco Central elevará os juros. E esse volume de pontos significa que o mercado está precificando a Selic a 17%.

Algumas pessoas do governo ainda não entenderam o risco que está em jogo. O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães disse que “esse assunto (ajuste fiscal) não foi discutido, nem está sendo discutido”. Essa declaração aumenta a incerteza, que o ministro Dario Durigan tinha tentado diminuir quando afirmou que o governo iria mirar o centro da meta fiscal e não o piso, o que significaria elevar o superavit primário. Depois, Guimarães postou nas redes sociais que o governo “vai trabalhar com o Congresso para manter as contas equilibradas”.

As previsões para o ano que vem estão sendo revistas pelos economistas de bancos ouvidos pelo Boletim Focus. Deve haver uma mudança forte nos próximos boletins. Há quem esteja revisando inflação em mais um ponto percentual acima do que estava, e revendo para baixo o crescimento do PIB. A corrida de promessas foi muito grande durante o período eleitoral. O mercado achava que o vencedor seria Flávio Bolsonaro e que ele faria um estelionato eleitoral. Com Lula vitorioso sabe-se que esses gastos serão mesmo realizados. Mas quanto, quando, de que forma e com que compensações, não se sabe. Neste momento o presidente está ouvindo propostas de ajustes, enquanto forma-se um coro para dizer que não precisa fazer nada. Lula deveria ouvir quem acha que o ajuste precisa ser feito.

A direita agora procura um novo líder, depois que Flávio Bolsonaro fugiu do país. Como não há espaço vago na política, o governador Tarcísio de Freitas fez um vídeo em que agradeceu os 60 milhões de votos, disse que a “eleição passou” e que o projeto continua.

O governo precisa evitar que haja uma crise econômica por imperícia ou erro de diagnóstico. Foi bonita a festa da vitória. Mas quem entende de economia saiu da festa mais cedo porque sabe que há problemas a resolver.

 

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