Folha de S. Paulo
Por suas declarações em palanques, é como se
Flávio Bolsonaro estivesse fazendo negócios com Deus
Um deles é o de que vai terceirizar seu
mandato, entregando-o às mãos de Jesus; pode isso, Arnaldo?
Vivendo e aprendendo. Sempre ouvimos dizer
que cargos políticos eram laicos e que Deus nunca se rebaixaria a se misturar
com gente que pede votos a quem no fundo despreza. Mas, pelo visto, não é mais
assim. Flávio
Bolsonaro contratou Deus como cabo eleitoral e usa seu santo nome em
comícios, passeatas e sabe-se mais por onde anda como candidato à Presidência.
E, ao que parece, é um contrato de exclusividade. Só ele pode invocar Deus e,
se quiser, até prometer-lhe um ministério. Eis alguns exemplos.
"Deus está me preparando há 24 anos para ser presidente do Brasil." É um de seus motes favoritos. Significa que foi Deus quem o ensinou a extorquir servidores, condecorar milicianos, mentir como quem respira e suplicar dinheiro a Daniel Vorcaro. "Acredito que Deus colocou uma ‘missão’ em minha vida." Deixa implícito que sua candidatura atende a um chamado de ordem espiritual e que Deus viu nele um novo Cristo, quem sabe até com uma midiática crucificação.
"Deus vai me honrar [com a vitória na eleição]."
Pela frequência com que Flávio repete isso, parece que a vitória está incluída
no pacote de seus negócios com Deus. Resta ver se um dia prestará contas sobre
esses negócios, ao contrário das contas que continua devendo sobre o filme
"Dark
Horse". "Se Deus me honrar, vamos poder colocar mais ministros
[no STF]." E, com isso, obrigará Deus a se misturar com um tribunal tão
desmoralizado.
"Vou fazer uma oração antes de ler o
termo de posse, entregando o Brasil nas mãos de Jesus." Epa!
Significa
que quem vai governar é Jesus? Pode isso, Arnaldo —o fulano ser eleito e
terceirizar o mandato? E sabe-se lá se Jesus não tem mais o que fazer?
Afinal, sua jurisdição abrange toda a
humanidade, o que inclui os Estados
Unidos. O patrão Donald Trump
se contentará com sublocar Deus em vez de tê-lo todo para si?
"Não debato com quem não acredita em Deus." Afinal, Flávio é candidato a presidente ou a pastor? Resta ver se ele, notório evangélico de última hora, aguentaria cinco minutos de debate com um pastor de verdade.

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