O Estado de S. Paulo
O risco é confundir essa mudança política com a solução dos problemas fiscais e de crescimento
O avanço da direita na eleição de 4 de outubro
provocou otimismo incomum no mercado financeiro brasileiro. De 2/10 até a tarde
da sexta-feira, 9/10, o Ibovespa subiu 9%, o real valorizou 4,6% e os juros
futuros longos registraram quedas expressivas, em torno de 1,5 ponto porcentual
ao ano.
Há fundamento para parte dessa reprecificação. A probabilidade de alternância de poder aumentou, e o Congresso de 2027 será, em princípio, mais favorável a privatizações, desregulamentação e reformas pró-mercado. O risco é confundir essa mudança política com a solução dos problemas fiscais e de crescimento.
O desequilíbrio das contas públicas tornou-se
estrutural. De um lado, o Brasil construiu uma ampla rede de transferências e
programas sociais, com méritos inegáveis, mas pesada demais para um país de
renda média. De outro, grupos organizados acumularam benefícios tributários,
regimes especiais e outras renúncias de receita, além de créditos subsidiados.
Quase todos esses gastos e benefícios têm
defensores poderosos e são difíceis de rever.
A rigidez orçamentária, com despesas obrigatórias e vinculações, restringe o ajuste. Somam-se as emendas parlamentares, parte central do poder do Congresso. Não há razão para supor que uma maioria conservadora abrirá mão desses recursos. A composição que anima os mercados poderá dificultar a consolidação fiscal. A coalizão distributiva brasileira atravessa fronteiras ideológicas.
Também não será simples acelerar o
crescimento. Nos últimos anos, a expansão se apoiou na incorporação de
trabalhadores, na queda do desemprego e no aumento da massa de rendimentos.
Esse impulso perde força à medida que escasseia a mão de obra disponível. Com
investimento insuficiente e baixa produtividade, novos estímulos à demanda
tendem a produzir menos crescimento e mais inflação, déficit externo ou juros
elevados.
Por isso, 2027 tende a ser difícil, qualquer
que seja o vencedor. Com condições financeiras restritivas e pouco espaço
fiscal, há risco de estagnação ou recessão. Uma reeleição de Lula provavelmente
manteria a estratégia, hoje inadequada, de estimular a demanda. Flávio
Bolsonaro poderia melhorar expectativas e facilitar reformas, mas ainda precisa
apresentar um ajuste fiscal politicamente viável. Reduzir impostos sem
compensação pode agravar a dívida, e privatizações não substituem a revisão do gasto
recorrente.
O mercado tem razões para reagir à mudança política. O excesso começa ao precificar como realizada uma agenda ainda por formular, negociar e executar. Orçamento rígido, dívida elevada e baixa produtividade não mudam na velocidade das cotações. Se as expectativas de ajuste e crescimento forem frustradas, o otimismo eleitoral poderá dar lugar a uma expressiva reversão dos ganhos.
*Economista e diretor-presidente da Vértice Macroeconomia, foi cofundador da MCM Consultores, consultor do Banco Mundial, subsecretário do Tesouro Nacional e chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda

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