quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Discurso de Flávio não cabe na Faria Lima, por Julia Duailibi

O Globo

Ele não só negou as medidas de ajuste, como pronunciou um discurso com tom parecido ao do adversário

O primeiro desafio de Flávio Bolsonaro durante a campanha de 2026 foi fazer com que parte do eleitorado o comprasse como um “moderado” — ou como o “Bolsonaro que toma vacina”. Na reta final da campanha, essa espécie de greenwashing eleitoral chegou ao ápice, com o candidato do PL recuando, sem maiores embaraços, de sua posição contra o fim da escala 6x1. O oportunismo de última hora, que o leva a abraçar proposta de que era crítico, coloca dúvidas sobre algo maior: qual o real compromisso de Flávio na área econômica?

Depois de declarar que o fim da escala 6x1 era medida hipócrita e eleitoreira, ele adotou o populismo eleitoral de livro-texto de que acusa o adversário. Lula tem a caneta na mão e, de fato, pisou no acelerador na tentativa de se reeleger, usando o modelo de Bolsonaro pai e de todos os outros que têm uma reeleição incerta pela frente: abriu os cofres e saiu anunciando o que dava em cima da hora. Foi o caso do reajuste do Bolsa Família, descartado até então pela própria equipe econômica, do Pix de R$ 5 mil no bolso do empreendedor e por aí vai.

Mas foi Flávio quem sinalizou com outro programa e agora, em cima da hora, se reposiciona, levantando dúvidas sobre o que realmente pretende fazer. É mais do que isso. A questão que parte do mundo econômico começa a debater é se o mais pragmático dos Bolsonaros adotará um populismo econômico à direita, uma vez eleito. Não é o pacote que a Faria Lima quer comprar.

Desde que a campanha começou, há dúvidas sobre o tamanho do corte que uma eventual gestão Flávio faria e sobre a nova regra fiscal que adotará. A colunista do GLOBO Vera Magalhães lembrou ontem que sua campanha negou as informações que vieram a público sobre cortes mirando desindexação da Previdência e do BPC da política de reajuste do salário mínimo, fim dos pisos constitucionais da saúde e educação e outras medidas dolorosas e impopulares, mas amplamente defendidas pelos economistas que o apoiam.

Flávio não só negou as medidas de ajuste, como veio a público pronunciar um discurso com tom parecido ao de seu adversário. Falou que corrigirá as aposentadorias acima da inflação e negou quaisquer cortes em programas sociais. Sobre privatizações, diz que não venderá à iniciativa privada bancos públicos, como a Caixa Econômica Federal.

— Não vou fazer economia em cima de quem precisa — afirmou, deixando de lado o discurso liberal.

Flávio era contra o fim da escala 6x1 até perceber que a matéria, megapopular, avançaria no Senado e que poderia lhe custar votos. O presidente da casa, Davi Alcolumbre, sabe que a vitória de Lula é o caminho inexorável para se reeleger presidente do Senado no ano que vem. Entregar o fim da escala 6x1 e avançar com a PEC da Segurança é dar uma mãozinha para Lula e para si mesmo.

O candidato do PL seria derrotado na votação e buscou se reposicionar para evitar perder votos. Mas fez um hedge, ou uma proteção, como se diz no jargão do mercado financeiro. Disse a empresários que, em caso de vitória, o Congresso pode rever a matéria numa gestão sua. Será?

 

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