Folha de S. Paulo
Aperto das condições financeiras que houve
depois da eleição logo chega à economia real
Cumprir à risca o arcabouço fiscal evita
explosão certa, mas crescimento será bem baixo
Produção, vendas e emprego caíam no trimestre
final de 2014. Despencavam quando Dilma
Rousseff estava para voltar ao governo em 2015. Não há números
indiretos e muito menos indicadores (que saem com atraso de uns dois meses) de
que tal derrocada esteja acontecendo agora. Também não se está dizendo que Lula
4 seria reprise de Dilma 2. Primeiro, porque há providências a tomar a fim de
impedir tal desastre. Segundo, porque o colapso que
se viu a partir de 2015 não se deveu apenas à pavorosa política
econômica.
Mas a dívida do governo e a dívida das pessoas são maiores do que no final de Dilma 1. Diminuir endividamento quando receita e salário crescem menos, se crescem, é mais difícil. Para piorar, problemas como gasto, dívida e eficiência da despesa do governo estão amarrados por uma camisa de força.
Quanto ao mais prosaico e imediato, houve um
grande aperto das condições financeiras depois da reeleição do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva. As taxas de
juros de vários prazos aumentaram muito no atacadão do mercado de
dinheiro, grosso modo pisos para o restante dos créditos e financiamentos da
economia —é o custo básico dos empréstimos que o governo toma na praça a fim de
cobrir seus déficits e rolar sua dívida. O real se desvalorizou. Etc.
Quanto mais isso durar, maior o efeito na
economia dita real (produção, vendas, investimento, emprego). Os juros estão
mais altos principalmente porque o governo precisa de cada vez mais dinheiro
emprestado. O governo se financia em prazos cada vez mais curtos (mais risco) e
haverá quem não queira mais manter ativos em reais ("o dólar sobe").
O que seria um plano fiscal bom? Regras
fiscais simples e de boa qualidade, gente capaz para conduzir o programa no
governo e no Congresso, demonstração de que se pode cumprir meta. É preciso ter
credibilidade para que as metas dos planos sejam incorporadas nas expectativas
dos ditos agentes econômicos, em especial os credores do governo. Idealmente,
haveria ainda agência qualquer, "conselho fiscal", que tivesse
independência para criticar de modo consequente um mau desempenho, e um
ministério de revisão de gastos com poder. Seria uma grande reforma
institucional.
Deixando de lado esse universo paralelo de
otimismo, qual a situação? O governo pode manter o arcabouço fiscal, mas cumprindo
metas com rigor e sem truques que tirem despesas da conta do
déficit, quem sabe tapando algum buraco com o fim de reduções de impostos para
certos setores, empresas, pessoas. Teria problemas em 2028, de qualquer modo,
pois o gasto obrigatório ainda crescerá e, sem mexer nisso, o arcabouço
vai explodir.
Esse arroz com feijão mirrado e sem tempero
empurra o problema com a barriga, mas não resulta necessariamente em explosão.
Dá em baixo crescimento econômico a perder de vista. Mas, nessa situação, um
choque qualquer, na finança dos EUA ou no preço de commodities, por exemplo,
pode provocar colapsos aqui.
Um conserto fiscal pode ser feito de várias
maneiras. No mínimo, agora, exige que a despesa cresça em velocidade bem menor
(não é "corte social"). Sem esse acerto, o aperto das condições
financeiras vai continuar ou aumentar. Terá efeito crescente sobre a atividade
real, o que vai impedir a redução de dívida pública e privada, o que vai
aumentar a desconfiança de empresas e pessoas, o que contém investimento,
emprego e consumo. Seria apenas o começo de uma espiral para baixo, rumo à
crise.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário