Valor Econômico
Expectativa é de que a apuração dos votos
revele um Congresso com a direita ainda mais fortalecida
A coluna quis saber de um consultor
experiente, que acompanha a política desde a “CPI do Collor” e que já viu de
tudo em Brasília, o que esperar do segundo turno da eleição presidencial, caso
a disputa não termine no domingo. Ele respondeu com outra pergunta: “Você se
lembra quem nocauteou Mike Tyson?”
Depois, prosseguiu: “A única certeza sobre domingo é que o Brasil que sairá das urnas não será o mesmo”. A expectativa é de que a apuração dos votos do primeiro turno, que indicarão as novas composições do Senado e da Câmara dos Deputados, revele um Congresso com a direita ainda mais fortalecida, mais dissonante do que convergente em relação ao atual governo e mais combativa em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF). Isso porque a principal pauta dos candidatos de direita ao Senado foi o compromisso com o impeachment de ministros do STF, começando por Alexandre de Moraes. Dessa forma, se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reeleger, no primeiro ou no segundo turno, terá de lidar com uma governabilidade ainda mais precária do que a atual.
A pergunta sobre um dos campeões de boxe mais
famosos do mundo soou estranha, mas em apreço à fonte, a coluna acionou a
ferramenta de buscas. Veio a informação de que o então inexpressivo James
“Buster” Douglas surpreendeu o mundo ao derrubar “Iron” Mike Tyson no 10º round
da luta realizada no Japão, em 11 de fevereiro de 1990, e se tornar campeão
mundial dos pesos-pesados.
O episódio não encerrou a carreira de Tyson,
que em meio a uma trajetória turbulenta recuperou o cinturão em 1996. Mas
depois daquela derrota, ele se tornou apenas uma sombra do ídolo “Iron” Mike.
Entretanto, passados 36 anos, Mike Tyson continua sendo uma lenda do boxe e
conhecido em todo o mundo, enquanto poucos, talvez apenas fãs do esporte, devem
se lembrar do azarão “Buster” Douglas.
Do ringue para as urnas, a leitura desse
consultor é de que o confronto eleitoral deste domingo não é entre Lula e o
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). “A disputa será de Lula contra Lula”,
afirmou. Nesse sentido, seria indiferente uma eventual derrota de Lula para o
herdeiro de Jair Bolsonaro, ou para qualquer outro candidato. “Assim como
ninguém se lembra de quem nocauteou Tyson, no futuro, poucos se recordarão de
quem derrotou Lula, se isso acontecer”, complementou.
Como Lula encarna uma das lendas da política
nacional - como Getúlio Vargas ou Tancredo Neves - neste momento, ele trava uma
luta contra si próprio pelos votos da maioria dos brasileiros.
Pesquisa Datafolha divulgada nessa
quinta-feira (1) mostrou que 45% dos brasileiros não votariam no petista, mesmo
percentual alcançado por Flávio Bolsonaro. Por isso, mais que o herdeiro de
Jair Bolsonaro, o principal adversário do petista é o aparente cansaço que
despertou em quase metade da população, após 48 anos de vida pública e três
mandatos presidenciais.
Retratos dessa fadiga são as simulações de
segundo turno, nas quais até mesmo os chamados “nanicos”, que não alcançam dois
dígitos nos cenários de primeiro turno, se aproximam de Lula na segunda rodada.
Segundo o mesmo Datafolha, no segundo turno, Lula alcança 48% das intenções de
voto, enquanto Flávio marca 45%. Em outra simulação, o petista atinge os mesmos
48%, e Ronaldo Caiado (PSD) chega a 42%. Em outra configuração, Lula aparece
com 47%, e o escritor Augusto Cury (Avante) desponta com 42%.
Na hipótese de segundo turno, o Lula que
emergir das urnas no domingo enfrentará outros empecilhos, além de se deparar
com o Congresso com a direita turbinada, como o risco de esvaziamento da
campanha, principalmente nos feudos petistas.
Na região Nordeste, principal reduto do
lulismo, a eleição tende a se resolver no primeiro turno na maioria dos
Estados. Mesmo na hipótese de vitória de seus candidatos - o que deve ocorrer
na Bahia, Ceará e Piauí -, o PT terá de entrar em campo para evitar a
desmobilização da base, o que poderia fragilizar a segunda etapa da campanha
lulista.
Aliados de Flávio Bolsonaro também mencionam
eventual impacto emocional na base petista, caso se confirmem derrotas em
redutos históricos de Lula, como João Campos (PSB) em Pernambuco e Renan Filho
(MDB) em Alagoas. Outros potenciais reveses da esquerda estão no Rio de
Janeiro, onde a deputada federal Benedita da Silva (PT) liderou a corrida ao
Senado na maior parte do tempo, mas foi ultrapassada, na reta final, pelos
candidatos Carlos Portinho e Carlos Jordy, ambos do PL. Da mesma forma, em São
Paulo, aumentou o risco de que as candidatas de Lula ao Senado, as ex-ministras
Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), não se elejam, embora tenham largado
na frente.
O cenário adverso para Lula e para a esquerda
de modo geral, desenhado por aliados de Flávio, ainda precisa ser confirmado.
Mas essa projeção dialoga com o que o cientista político Maurício Moura chamou
de “antipetismo de chegada”, fenômeno que marcou as eleições presidenciais de
2014, 2018 e 2022.
E por falar em Mike Tyson, ele voltará ao Brasil em novembro, 15 anos depois da última passagem pelo país, para participar de um evento em São Paulo sobre o mercado de cannabis.
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