quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Em busca dos alienados, por Merval Pereira

O Globo

Neste primeiro turno, mais de 33 milhões de eleitores não compareceram às urnas, e quase 6 milhões não escolheram nenhum dos candidatos disponíveis

A mais imprevisível das eleições presidenciais depois da redemocratização chega a seu final com uma estranha perspectiva: o vencedor precisa convencer os que não foram no primeiro turno a votar agora, mas sobretudo a votar nele, e não no adversário. Tarefa mais árdua para Lula, que precisa não apenas empatar com Flávio Bolsonaro, mas ultrapassá-lo na reta final. A penúltima pesquisa Quaest, divulgada ontem, foi boa para Lula. Ele não apenas reduziu a diferença para o adversário, como conseguiu melhorar a percepção dos eleitores sobre seu governo. Na nossa História recente, ninguém que fechou o primeiro turno atrás na corrida presidencial conseguiu reverter o resultado.

O motivo é o que o sociólogo Felipe Nunes, da Quaest, chama de “alienação eleitoral” — a soma do número de abstenções e dos nulos e brancos. Ela precisa ser reduzida para que o candidato supere o concorrente, principalmente quando os votos consolidados estão acima de 90% para os dois lados. Quem ficou mais perto de sofrer uma reversão de quadro no segundo turno foi a então presidente Dilma Rousseff, na luta pela reeleição em 2014. Ela venceu Aécio Neves no primeiro turno, mas apareceu em segundo lugar nas pesquisas do segundo. A alienação eleitoral naquela eleição caiu mais de 1 ponto, permitindo a virada da Dilma.

Neste primeiro turno, mais de 33 milhões de eleitores não compareceram às urnas, e quase 6 milhões não escolheram nenhum dos candidatos disponíveis. São quase 40 milhões de eleitores “alienados”, que provavelmente ficaram ainda mais “alienados” depois do debate da Band. A Quaest constatou aumento no número de indecisos, demonstrando que nenhum dos dois candidatos agradou ao eleitorado. Mas a semana foi melhor para Lula num ponto específico: Bolsa Família. Além de o dinheiro ter sido antecipado e pago antes da eleição, houve uma frase malfeita da assessora econômica de Flávio, dando a entender que poderia haver interrupção do programa depois de dois anos — ela já existe, não é novidade.

É comum na política que uma palavra mal colocada dê margem a muita manipulação dos adversários. Exemplo famoso são os “marmiteiros”, expressão que derrotou o brigadeiro Eduardo Gomes. Ele dissera num discurso que não precisava dos votos “da malta” que apoiava Dutra, seu adversário. O empresário Hugo Borghi foi ao dicionário e descobriu que um dos significados de “malta” eram os operários que levavam marmita ao trabalho. Daí a “malta” do brigadeiro, que significava grupo, passou a significar os pobres que comiam de marmita.

Também nesta última semana, a capacidade de disputa de Lula melhorou, com uma campanha mais agressiva e ativa. A vantagem de Flávio diminuiu para apenas 1 ponto percentual. A transferência de votos dos outros candidatos derrotados no primeiro turno foi mais equilibrada do que se supunha, contribuindo para melhorar a situação de Lula. Os dois precisam aproveitar o debate da Globo de amanhã para recuperar votos ou consolidar a vantagem, no caso de Flávio. Para isso, Flávio terá de calibrar a mira, porque em alguns momentos no debate da Band passou um pouco do limite, e o público notou.

Ninguém queria dizer que o presidente é um idoso, mas, depois das ironias de Flávio, a diferença de idade, a favor dele, pode virar contra, se exagerar e abusar dessa possível vantagem para tentar menosprezar Lula. O presidente não é um candidato desprezível, embora os resultados de seu governo sejam medíocres, como demonstram as pesquisas, na percepção dos eleitores. Lula, em contrapartida, não se impôs diante de Flávio, impedindo-o, pela senioridade, de praticar ações de menosprezo num debate dessa importância. A cafajestagem de Donald Trump não é bem-vista no Brasil.

 

Um comentário:

  1. Tanta complacência com Lula Tadinho , o malvadão do Flavio menosprezando esse político que no fundo como diz a Roberta é um mentiroso , um cafajeste , um mau caráter que está ludibriando essa nação e mantendo ela na pobreza pra dominar-la , com as migalhas e Bondade eleitoreiras, vale gás bolsas família , pé de meia e outros
    O Lula está querendo quarto mandato e até hoje nada fez e tudo prometeu, ninguém mais acredita no Lulao povo cansou , quer mudança
    Água de morro abaixo , fogo de morro acima e o povo quando quer mudar ninguém segura

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