Valor Econômico
Ministro da Secretaria-Geral da Presidência reconhece que aumento do custo de vida prejudicou o presidente na disputa eleitoral
Vencida a eleição presidencial, o ministro da
Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirma que durante a disputa
ficou evidente a demanda da população por mudança e, portanto, o governo Lula 4
deve ser diferente deste terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. Ele reconheceu que o aumento do custo de vida gera um mal-estar que
prejudicou o governo no pleito, um fenômeno mais complexo e que vai além da
comunicação.
Olhando para o futuro, diz que o Executivo
precisará do apoio das ruas para governar, diante das dificuldades que
enfrentará no Congresso. Ao mesmo tempo em que defende que se avance na agenda
da “justiça tributária”, o ministro aponta a necessidade a construção de um
“pacto nacional de aumento da produtividade”. Segundo ele, esse pacto buscará a
promoção do investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação, sobretudo nos
setores digital, de processamento e refino de minerais críticos e de transição
energética. “Essa é a economia do século 21”, disse ele em entrevista exclusiva
ao Valor. “Essa
é uma agenda que não tenham dúvidas estará presente no Lula 4.” Ele também
voltou a defender que o governo encaminhe um projeto de regulamentação de
motoristas de aplicativo, mas acha difícil que aconteça ainda este ano.
Atual responsável pela articulação do
Planalto com movimentos sociais, Boulos, que hoje é deputado federal licenciado
e não terá mandato a partir do ano que vem, disse que ainda não conversou com
Lula se permanecerá no atual ministério ou se seguirá para outra pasta. Sobre a
possibilidade de sair do Psol e ir para o PT, disse que discussões nesse
sentido ainda serão feitas neste ano, mas, por ora, não há nenhum acordo
fechado. Para ele, Lula precisa fazer um “grande governo” para que a esquerda
chegue com força em 2030, quando o presidente não poderá tentar a reeleição.
Segundo o ministro, sua preocupação é garantir o campo progressista unificado
no próximo pleito.
A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:
Valor: O senhor deve permanecer na Secretaria-Geral no
próximo mandato? Ou pretende ir para outro ministério?
Guilherme Boulos: Quem define isso é o
presidente Lula. Nós acabamos de sair da eleição, então esse debate
naturalmente não foi feito. Eu vejo muitas especulações, quem vai para lá, quem
vai para cá. O presidente deixou claro que não vai fazer as trocas e a
composição de ministérios de imediato. E é natural, precisa de um descanso. Foi
uma eleição muito dura.
Valor: O que o senhor acha que o ministério precisa
fazer no novo mandato do presidente Lula?
Boulos: A Secretaria-Geral
da Presidência é o ministério da relação com a sociedade. Esse segundo turno
mostrou a importância dessa mobilização acontecer não só na eleição, mas de ser
também um elemento de governabilidade. Olha o Senado que foi eleito.
Naturalmente o presidente enfrentará dificuldades no Congresso. [Mas] Da mesma
forma que as ruas ajudaram a eleger o Lula, as ruas vão ter um papel para
ajudar a governar.
Valor: Como se mantém essa mobilização durante o
governo? O que precisa mudar para isso acontecer?
Boulos: Eu defendo que a
gente aprofunde os nossos instrumentos de participação social. As pessoas não
podem ser chamadas a falar sobre política só de quatro em quatro anos para
apertar um botão na urna. Acho que nós temos uma oportunidade de aprofundamento
da democracia, porque os sistemas político e judicial brasileiros estão
apodrecidos. Isso foi um pano de fundo dessa campanha. Nós temos um sistema
político com baixa credibilidade da sociedade, que gera um sentimento de
antipolítica. Temos um sistema judicial em crise, tanto por envolvimento em
escândalos, como por uma descalibragem também entre os Poderes. Pega o que é o
tema na política das emendas parlamentares. Então, construir formas de participação
do povo para as decisões de governo e temas orçamentários é um avanço.
Valor: Isso é possível no Brasil?
Boulos: O segundo turno deu
um exemplo de que, se a sociedade for chamada, ela vem. É um mito essa ideia de
que as pessoas não estão nem aí e não querem saber de política. Então, o
governo [pode] fazer consultas públicas, construir maneiras de orçamento
participativo para a sociedade se sentir mais representada. E hoje o digital
permite essa conexão.
Valor: Como fazer com que as ações do governo cheguem
às pessoas, que foi um desafio do Lula 3?
Boulos: Se a gente pegar a
diferença que existe entre as realizações do Lula 3 e a avaliação social do
Lula 3, nós vamos bater num fenômeno muito mais complexo do que a comunicação e
que, aliás, está acontecendo no mundo inteiro. É raro você ver governos muito
bem avaliados. Isso tem a ver com o mal-estar de uma inflação persistente, um
tema do custo de vida. A inflação, mesmo a gente tendo conseguido controlar,
partiu de um patamar muito alto. Os preços não voltaram ao que eram
pré-pandemia e o aumento de renda das pessoas não acompanhou de forma igual.
Então, tem um problema de custo de vida em todo o mundo e que gera um mal-estar
persistente. Isso afetou o governo do presidente Lula. Além disso, tem um fator
que, na das redes digitais, acabou o consenso. Você tem polarização no mundo
inteiro. Todas as eleições estão extremamente apertadas, a extrema-direita
polarizando com o campo progressista de esquerda. O centro se esvaziou. Não se
volta mais aos 85%, 90% de aprovação que o Lula teve em 2010. E não é porque o
governo fez menos, é porque a sociedade mudou nos últimos 15 anos. Então, nós
temos um novo normal nas relações políticas no mundo, de polarização, de
enfrentamento. Senão, a gente [do governo] fica no autoflagelo, sabe? Falar na
comunicação, temos fatores estruturais. É lógico que a gente sempre pode
melhorar.
Tem um problema de custo de vida em todo o
mundo e que gera um mal-estar persistente”
Valor: Pensando no Lula 4, o que pode melhorar? Qual
vai ser a marca da nova gestão?
Boulos: Na eleição, houve um
sentimento de mudança. O Lula 4 tem que ser diferente do Lula 3. Mas, no Lula
3, teve marcar importantes. Pela primeira vez se fez uma medida significativa
de justiça tributária no Brasil, que foi zerar imposto de renda para quem ganha
até R$ 5 mil por mês e tributar em 10% quem ganha mais de R$ 1 milhão. Reformas
tributárias ou discussões tributárias sempre foram um tabu, assim como taxar
super ricos.
Valor: O próximo governo vai continuar com essa
política de taxar os mais ricos?
Boulos: Essa é uma decisão
de quem teve 65 milhões de votos. Eu defendo, acho que justiça tributária é
essencial para o país. Nós temos um sistema tributário às avessas. Quem tem
menos paga mais imposto, quem segura a carga tributária desse país é
trabalhador e classe média. Isso está totalmente na contramão, inclusive dos
países mais liberais. O Brasil está totalmente fora da curva. Aqui se taxa
pouco patrimônio e altas rendas, e se taxa muito consumo e produção. Isso tem
que ser revisto.
Valor: Isso deve entrar no debate do Lula 4?
Boulos: Essa é uma definição
do presidente Lula, eu não tenho condições de falar isso em nome do governo.
Seria irresponsável da minha parte expressar uma posição em nome do governo que
não foi debatida e que precisa ser debatida. A minha opinião é de que esse é um
dos grandes temas do país e um dos grandes gargalos atualmente.
Valor: O próprio presidente Lula afirmou que são
necessárias algumas mudanças no novo mandato, ainda mais com um Congresso
adverso. O que deve mudar?
Boulos: O desafio que nós
temos é construir um projeto de desenvolvimento soberano do país. Nós vivemos
em um cenário em que a nossa economia se reprimarizou nas últimas décadas e em
um cenário internacional disruptivo. O movimento do [presidente] Donald Trump,
nos Estados Unidos, é fazer uma transição do livre comércio para o
protecionismo - por isso ele se empenhou tanto na eleição do nosso adversário
[Flávio Bolsonaro] -, todos os países estão retomando projetos de
desenvolvimento nacional. Nessa gestão do Lula 4, nós temos todas as condições
de dar passos importantes para um projeto soberano nessa linha. Não é
reproduzir um modelo neocolonial de exportar minério bruto para ser processado
e refinado lá fora, é construir uma cadeia produtiva de refino e processamento
no Brasil. Isso tem implicação para a economia nacional, para agregar valor
aqui e para o modelo de economia que nós queremos.
Valor: Como integrar setores ao governo, incluindo
indústria e agro? Como melhorar este diálogo?
Boulos: Nós temos que fazer
um investimento em P&D [pesquisa e desenvolvimento] e em inovação,
sobretudo nos setores digital, de processamento e refino de minerais críticos e
de transição energética, essa é a economia do século 21. E o Brasil tem todas
as condições para estar na ponta disso. Nós não podemos nos contentar em ser o
fazendão do mundo. Essa visão passa, inclusive, por um pacto nacional de
aumento da produtividade. A nossa diferença com entidades patronais, como Fiesp
[Federação das Indústrias do Estado de São Paulo] e “cia”, é que não é
arrochando o salário do trabalhador ou fazendo escala 6x1 que você vai aumentar
a produtividade. Você aumenta a produtividade com investimento em inovação, com
renovação do maquinário deteriorado. Essa é uma agenda que não tenham dúvidas
estará presente no Lula 4. Eu estou defendendo um projeto de desenvolvimento do
país, em que o Estado tem um papel-chave. Para que setor econômico não
interessa inovação?
Valor: Mas toda essa questão passa também pelo
Congresso. Durante este mandato, o governo já sofreu entraves no Senado, como a
própria PEC [Proposta de Emenda à Constituição] do fim da 6x1. Como driblar
isso com um Parlamento ainda mais conservador eleito?
Boulos: A 6x1 tinha 70% de
aprovação. Essa é a lição que nós tivemos no último período: governabilidade se
faz com Congresso, com o Judiciário, com as instituições e com a rua. A 6x1 foi
exemplo disso, a PEC da Blindagem foi um exemplo disso. A 6x1 tinha um lobby empresarial
gigantesco para não deixar passar, mas tinha uma pressão social nas redes. Os
parlamentares iam às suas bases, eram cobrados e pressionados, e ela foi
aprovada. É lógico que o timing também passa por negociação política. Aqui [no
governo], ninguém está se iludindo. Mas, com o nível de mobilização que a
sociedade brasileira expressou nesse processo eleitoral para garantir direitos
e com um Congresso Nacional mais refratário às pautas populares, a rua terá um
papel chave na governabilidade.
Valor: A regulamentação do trabalho por aplicativo
deve ser enviada ainda neste ano? Inicialmente, o governo queria encaminhá-la
antes das eleições, mas viu dificuldades.
Boulos: Neste ano, acho
improvável que tenha uma medida dessa natureza, mas eu defenderei junto ao
presidente que a gente retome o diálogo e envie um projeto para o Congresso
Nacional para poder garantir direitos para os trabalhadores de aplicativo. Esse
é um compromisso que nós assumimos com esses trabalhadores e vamos defender.
Valor: É possível contar com a mobilização social para
que essa pauta avance?
Boulos: É uma categoria que
está mais mobilizada atualmente, mais consciente dos seus direitos como
trabalhadores. Vamos trabalhar por isso.
Regular [as redes sociais] é fazer com que o
que é crime na vida física também seja crime no digital”
Valor: Nesse mandato, muito se cobrou que o presidente
falasse mais com lideranças, com pessoas de outros partidos. Para garantir a
governabilidade, ele terá de reunir mais partidos no governo?
Boulos: O tipo de composição
que o presidente vai fazer é uma definição que ele vai amadurecer nas próximas
semanas. Agora, uma coisa é certa: com o Congresso que nós temos, a
governabilidade passará também por processo de mobilização. Mesmo com a Meta,
dona do Instagram e do Facebook, admitindo que favoreceu o Flávio Bolsonaro em
mensagens vazadas e prejudicou o Lula, no segundo turno nós ganhamos nas redes
sociais, o que é um aprendizado. A esquerda no mundo inteiro e nós mesmos
sempre tivemos dificuldade de ganhar nas redes. [Procurada, a Meta afirmou que
“não tomou partido nesta nem em nenhuma outra eleição” e que alegações de
favorecimento não têm fundamento].
Valor: O senhor concorda com a regulamentação das
redes sociais?
Boulos: Concordo que é um
dos caminhos. Regulamentar é fazer com que aquilo que é crime na vida física
também seja crime no digital. A internet não é terra sem lei, não é terra para
os vários crimes que se cometem, e que as big techs ganham com isso. Então,
defendo isso. Mas será uma batalha duríssima com o Congresso, sobretudo com o
Senado.
Valor: A partir de fevereiro, o senhor não terá mais
mandato como deputado federal. Onde que o senhor se vê no próximo governo?
Boulos: Eu decidi não
concorrer para ficar no governo, ajudar na coordenação de campanha, o que eu
fiz. A definição de composição de governo cabe única e estritamente a quem teve
65 milhões de votos [Lula].
Valor: Já se escuta há um tempo que o senhor deve
deixar o Psol para ir para o PT. Como está esse debate?
Boulos: Não é segredo a
diferença que eu e nosso grupo político, que tem figuras como Erika Hilton
[deputada pelo Psol-SP], temos em relação à posição majoritária do Psol. O que
nós combinamos é deixar passar a eleição e nos reunir para decidir nosso
destino político. A eleição passou há alguns dias. Eu vou pegar uma semana de
férias com a família e, até o fim do ano, vamos ter uma definição sobre qual
caminho vamos tomar.
Valor: Essa foi a última eleição do presidente Lula.
Assim, o pleito de 2030 vai ser muito decisivo. Como o senhor vê a esquerda
para a próxima eleição?
Boulos: Veja, existe uma
renovação da esquerda em curso, política e geracional. É ilusão achar que vai
aparecer um novo Lula, o Lula é a maior liderança popular da história do Brasil,
é um produto de sua história. Mas a renovação da esquerda brasileira está
acontecendo, tem várias lideranças surgindo. A minha preocupação é nós
buscarmos, já na sustentação do governo Lula e para 2030, ter o nosso campo
político unificado. Não dá para achar que, porque foi derrotada nas eleições, a
extrema-direita vai desaparecer. Quem achou isso depois de 2022 errou.
Valor: Quem poderia promover a união do campo?
Boulos: O presidente Lula
acabou de se reeleger, não faz sentido, neste momento, começar a dizer qual é o
nome em 2030. Faz sentido trabalhar para construir um grande governo para que a
esquerda chegue com força na eleição de 2030 e para manter uma hegemonia
política capaz de derrotar o risco social, cultural e civilizatório que o
bolsonarismo representa.
Valor: Como o senhor viu a fuga de Flávio Bolsonaro?
Acha que pode criar um novo entrave com os Estados Unidos?
Boulos: É uma piada, né,
gente? Flávio Bolsonaro fugiu porque ele perdeu a blindagem política depois de
20 anos. Ele não terá mais foro especial, e é uma pessoa investigada pela
Polícia Federal por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Em vez
de responder por esses crimes pelos quais ele é investigado, ele resolveu fugir
do país. Simples assim. Flávio Bolsonaro é uma questão hoje da Justiça e da
Polícia Federal. Está longe de ser perseguido, foi a pessoa mais blindada da
República nos últimos anos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário