Folha de S. Paulo
Auxiliares são economistas de segunda divisão
e só prometem bondades; conta não fecha de jeito nenhum
Candidato pode defender programa econômico
que achar melhor, mas não pode passar brasileiros para trás
Flávio
Bolsonaro está mentindo sobre seu programa econômico. Não sabemos para
quem. Meu palpite é que é para você.
Daniella
Marques e Adolfo Sachsida, os dois auxiliares que Flávio designou para
defender suas propostas para a economia, são economistas de segunda divisão que
foram escalados para mentir durante a campanha eleitoral.
Só prometem bondades: um ajuste fiscal grande e completamente indolor, sem cortes de salários, aposentadorias, programas sociais, benefícios fiscais para os ricos, enfim, nada além de salários de funcionários públicos acima de R$ 200 mil, fraudes e ineficiências.
Mais: além de não cortar nada de que o
pessoal goste, prometem
cortar impostos e criar programas de incentivos ao empreendedorismo feminino,
aos pequenos negócios, e a essa altura você já deve ter entendido que essa
conta não fecha de jeito nenhum.
Quando Flávio terminou o primeiro turno das eleições em
primeiro lugar, a Bolsa subiu e o dólar caiu. Eram os ricos brasileiros apostando
que Daniella Marques e Adolfo Sachsida estão mentindo, e que o programa
verdadeiro, a ser implementado por ministros completamente diferentes, são os
cortes que a turma de Flávio defende nas festas de rico (com ou sem roupa)
que frequentam.
A "turma de Flávio" é um pessoal da
série B da Faria Lima que foi meio desprezado pelos tucanos (parabéns por isso,
tucanos). Acham que a turma do Jair pode lhes dar aquele empurrãozinho, legal
ou ilegalmente, para ajudá-los a subir de divisão. Afinal, a vaga de
"banco oficial do ladrão de direita" está aberta desde que Vorcaro
foi preso.
Na linguagem bolsonarista de 2026, há uma
palavra-código que tenta fazer a ponte entre o que Flávio diz para o Brasil e o
que diz para os ricos: "Milei", que Flávio diz que será sua grande
inspiração como presidente.
Para a base bolsonarista, "Milei"
quer dizer a motosserra, e motosserra quer dizer cortar desperdícios,
fraudes etc. Para os ricos bolsonaristas, "Milei" quer dizer algo
completamente diferente: motosserra nos salários e nas aposentadorias, como
aconteceu na Argentina.
Os dois presidentes brasileiros da Nova
República que aplicaram estelionatos eleitorais desse porte, Fernando Collor em
1989 e Dilma Rousseff em 2014, sofreram impeachment. Mas Flávio não pretende
manter a democracia viva por tempo suficiente para receber a conta de seu
estelionato eleitoral, ou dos inúmeros estelionatos financeiros que pretende
aplicar se for eleito.
No segundo turno de 2018, fiz campanha de rua
para Fernando Haddad contra Jair Bolsonaro. Durante uma panfletagem na Quinta
da Boa Vista, no Rio de Janeiro, encontrei um piquenique de mulheres
evangélicas.
Uma delas me disse que era funcionária
pública. Acreditava que Bolsonaro, por ter sido militar (funcionário público,
portanto), a favoreceria.
O salário do funcionalismo público não foi
reajustado durante o governo Bolsonaro.
Ao contrário dos ricos que então ouviam os
planos de Guedes em reuniões reservadas, a evangélica da Quinta da Boa Vista
não tinha como ligar para o Planalto cobrando. Você terá?
Flávio Bolsonaro pode defender o programa econômico
que achar melhor. Mas não pode passar os brasileiros para trás como Jair passou
para trás o piquenique de mulheres evangélicas.

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