Valor Econômico
Candidato que se tornará presidente eleito no
domingo (25) tem um encontro marcado com a verdade
Em uma magistral coluna publicada no Valor em fevereiro de 2015, cerca de quatro meses depois da recondução da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) ao Palácio do Planalto e já com a crise que a levaria ao impeachment no horizonte, o ex-ministro Antonio Delfim Netto lamentou que as eleições exigissem os votos dos cidadãos que, hipnotizados pelo marketing, acabavam induzidos a comprar na véspera uma magnífica piscina azul para, no dia seguinte, acordar com ela vazia.
Delfim referia-se a um texto publicado dias
antes pelo jornalista Gustavo Patu, da Folha de S.Paulo, que sentenciava:
“Todos os presidentes vitoriosos nas urnas após o fim da ditadura militar
cometeram estelionatos eleitorais. Trata-se de regra, portanto, não de
exceção”. Nas palavras de Delfim, o recorrente 171 eleitoral deveria passar a
se chamar “Lei de Patu”.
A exceção que confirma a regra é Itamar
Franco. O mineiro assumiu a presidência após o impeachment de Fernando Collor
de Mello prometendo assegurar as condições para a estabilização da moeda.
Cumpriu.
Com o humor que lhe era característico,
Delfim Netto escreveu: “Não enganou ninguém. Provavelmente é por isso que
continuará esquecido”.
Mas a história começa com José Sarney.
Manteve o congelamento de preços que viabilizou expressiva vitória do PMDB, seu
partido, nas eleições seguintes. Logo depois do pleito, lançou um pacote com
aumento de impostos e preços.
Fernando Collor de Mello apresentou-se na
campanha de 1989 como o candidato que representava a modernização econômica,
associando a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva ao risco de confisco de
bens e poupanças. Pois foi exatamente o que ele próprio fez após a eleição:
anunciou um pacote econômico que bloqueou por meses grande parte dos valores
depositados em contas bancárias e na poupança.
Na campanha à reeleição, em 1998, Fernando
Henrique Cardoso representava a estabilidade econômica conquistada pelo Plano
Real. No entanto, logo depois da vitória anunciou medidas de ajuste fiscal e
alterou a política cambial, provocando forte desvalorização do real.
É controverso o enquadramento de Lula 1 à
“Lei de Patu”. O petista chegou ao poder colecionando críticas às políticas
econômicas de FHC. Seu partido foi contra o Plano Real e a Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF), aprovada em 2000. Durante a campanha de 2002,
contudo, Lula divulgou à nação a “Carta ao Povo Brasileiro”, para se
comprometer com o respeito aos contratos e a estabilidade econômica. E de fato
manteve elevados os juros e a meta de superávit primário. Promoveu, inclusive,
uma reforma previdenciária. Manteve a palavra escrita na carta, mas surpreendeu
negativamente setores da esquerda e do funcionalismo público.
Lula se reelegeu e na sequência emplacou
Dilma como sucessora. Ela enfrentou em 2013 forte turbulência social, as
chamadas “jornadas de junho”, e os escândalos de corrupção que atingiram grande
parte da classe política e levaram à Operação Lava-Jato. Na campanha à
reeleição, a então presidente criticou as propostas econômicas dos adversários
e as associou a medidas recessivas e a cortes de direitos. Mas acabou ela
própria executando o necessário ajuste fiscal após a eleição, fazendo o
contrário do que prometera.
Mesmo sem o poder de prever o futuro, o
ex-ministro Delfim Netto escreveu naquela coluna de fevereiro de 2015 que
restava ao Brasil conformar-se, ainda que “com um certo mal-estar moral”, que
Dilma era como os que a antecederam. Ou seja, uma “estelionatária” eleitoral,
mas que ela pelo menos tivera a coragem de mudar. Caberia a partir de então,
portanto, se a opção fosse a construção de uma sociedade civilizada, agir com
inteligência e tolerância para apoiar o novo programa de governo.
Mas o governo Dilma sucumbiu em 2016 e, feito
o impeachment, Michel Temer assumiu com a promessa de construir uma “ponte para
o futuro”. Avançou com a agenda reformista, mas acabou abatido por denúncias
que tiraram o foco e a força de seu mandato.
Jair Bolsonaro surfou no sentimento
antissistema. Prometeu atuar “nas quatro linhas da Constituição”, mas entregou
uma tentativa de golpe de Estado. E Lula retornou ao Palácio do Planalto pela
terceira vez prometendo picanha. Hoje, candidato mais uma vez à reeleição,
precisa reconhecer que o poder de compra do eleitor é menor do que gostaria.
O próximo presidente, seja ele quem for, é
grande candidato a reforçar a Lei do Estelionato Eleitoral “criada” por Gustavo
Patu e “promulgada” por Delfim.
Lula prometeu transporte público gratuito aos
finais de semana, mas depende da concordância do Congresso para levar a ideia
adiante. O financiamento da medida seria feito com emendas parlamentares ao
Orçamento, o que dificilmente senadores e deputados aceitarão. O petista aposta
na mobilização popular para pressioná-los.
Flávio Bolsonaro (PL) nega o ajuste fiscal
que seus emissários têm apresentado ao mercado. Seus aliados dizem que tentarão
reverter o fim da escala 6x1, embora o senador tenha votado a favor da PEC
patrocinada pelos seus adversários e evite a discussão.
Não é um bom sinal, diante da perspectiva de
o país sair dividido das urnas e a desaceleração da economia estar contratada.
Ambos os lados vêm demonstrando capacidade de ocupar as ruas e manter o
ambiente tensionado, em um momento de grave crise institucional e um novo
escândalo de corrupção arrastando nomes importantes dos três Poderes. O
candidato que se tornará presidente eleito no domingo (25) tem um encontro
marcado com a verdade.

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