terça-feira, 20 de outubro de 2026

Flávio venceu na linguagem da fé, mas pode ter perdido o crente indeciso, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Apesar da postura arrogante, Flávio sai do debate com cortes para evangélicos

Campanha do bolsonarista conseguiu mais material para usar nas redes sociais

O Brasil tem pelo menos 40 milhões de evangélicos, e esse número cresce se incluirmos os católicos conservadores. Mas a fé apareceu só de raspão nas falas dos dois candidatos no debate da Band, no domingo (18). Qual deles se comunicou melhor com os cristãos indecisos?

Flávio Bolsonaro se apresentou como crente em apenas dois momentos. No primeiro bloco, quando Lula afirmou que venceria a disputa, Flávio respondeu: "Tá repreendido em nome de Jesus". E completou: "Só o Senhor é Deus. Está repreendido".

A expressão vem do vocabulário pentecostal. Ela é usada quando alguém ouve uma notícia ruim, tem um pensamento pessimista, presencia algo indesejado ou enfrenta um momento de opressão espiritual. Ali no debate, serviu principalmente para mostrar à audiência evangélica qual dos dois é o crente.

A outra menção explícita à fé veio no final do debate. Flávio reforçou a percepção de que o PT é oportunista nesse terreno: "Tinha que ter eleição toda semana, porque petista começa a ser a favor de redução da maioridade penal. Petista começa a ir para igreja, né? Petista começa a professar a sua fé. Olha que milagre!". Foi um comentário inteligente.

A disputa religiosa também apareceu de forma indireta, no debate sobre moralidade. Ao responder a uma pergunta sobre licença-maternidade, Flávio se apresentou como marido, pai e protetor do seu lar. "Eu vou dar sempre o meu melhor como presidente da República e como um homem para defender a minha família e fazer o melhor para elas." A família está entre os valores mais defendidos no meio evangélico.

Lula também jogou no terreno da moral. Ainda no primeiro bloco, mencionou a relação de Flávio com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e as festas que ele organizava: "Eu não sei se você participou, não vou fazer acusação, mas os bacanais que havia neste país com o dinheiro do Vorcaro. A quantidade de festas que ele fez. A quantidade de sacanagem, a quantidade de mulher, a quantidade de senadores, ministros".

Flávio acenou aos evangélicos ainda com o uso insistente da palavra "prosperidade", central na teologia de muitas igrejas. Falou em "Ministério da Prosperidade", em "Caixa como banco da prosperidade", em "você vai prosperar" e em "levar esperança para dentro da sua casa". E associou essas promessas à mulher e ao pequeno negócio feito em casa.

OK, mas quem venceu? Considerando apenas o debate, é provável que o evangélico indeciso tenha desligado a televisão diante de tanta agressividade.

Flávio Bolsonaro se comunicou com mais clareza e, em alguns momentos, deixou explícito quem é o candidato evangélico e conservador nos costumes. Mas o eleitor indeciso de igrejas que não estão polarizadas pode ter visto nele um jovem arrogante que imita a postura lacradora de Pablo Marçal, o influenciador que disputou a Prefeitura de São Paulo em 2024 e prega uma versão aguada do cristianismo.

Já em termos de cortes, a campanha dele sai do debate com mais material para usar nas redes durante a semana.

 

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