terça-feira, 20 de outubro de 2026

Fundo do poço, por Merval Pereira

O Globo

Foi um debate de nível muito baixo um show de horrores. Não é à toa que os dois têm os mais altos níveis de rejeição

Desde que a ditadura militar acabou com os partidos políticos que já tinham história no Brasil, como PTB, PSD, UDN, e criou Arena e MDB, os eleitores brasileiros perderam a vinculação com as legendas e passaram a votar mais em pessoas do que em partidos. PT e PSDB, junto com o PDT de Leonel Brizola, nasceram nesse vácuo, inclusive porque o PTB foi transferido, num golpe judicial, para Ivete Vargas, para que Brizola não tivesse uma legenda forte. A partir desse desmonte histórico, deu-se a desconexão entre eleitor e partido, reforçada com a descoberta dos partidos de que seria fácil arrecadar votos com a filiação de nomes populares na música, no futebol, no rádio e na televisão.

O importante era o voto de legenda, que elegeria vários candidatos por meio do chamado puxador de votos. Tivemos um avanço nos últimos anos, pois em vez de Tiririca ser o puxador de votos, neste ano ele não se elegeu, e o campeão foi Nikolas Ferreira, que teve mais de 3 milhões de votos. Um político, de qualquer maneira. Continuamos quase sem ter eleitos com votos de opinião, e o voto continua sendo mais pessoal do que partidário. O PL passou a ser o maior partido do país graças à franquia Bolsonaro, e o PT mantém-se vivo por causa de Lula.

O país está claramente dividido, como mostram as pesquisas eleitorais, mas o Congresso saiu das urnas francamente à direita. O Senado transformou-se na casa do impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, não importa a legenda do eleito. Ninguém liga o voto de deputado federal e senador ao de presidente da República. O peso do nome Lula faz com que a esquerda mantenha-se no jogo eleitoral. A votação não leva em conta o fato de que o futuro presidente da República, sendo Flávio Bolsonaro, poderá nomear pelo menos quatro ministros do STF em seu mandato de quatro anos. Mais, se aumentarem o mandato para seis anos, como é provável. Sendo Lula, o STF continuará sendo seu esteio político, o que manterá o desequilíbrio de Poderes da República.

Mas Lula terá de negociar seus indicados ao STF com um Senado oposicionista. Todos esses “defeitos” de nosso sistema político-partidário desaguaram no debate da noite de ontem na Band. Foi um debate de nível muito baixo. Acho que nunca houve nada igual, um show de horrores. Não é à toa que os dois têm os mais altos níveis de rejeição. Para o debate de sexta-feira na Globo, acho que Lula precisa se acalmar, e Flávio tem de ficar menos agressivo e arrogante. Ele arriscou muito a diferença de idade entre ele e Lula — explorou várias vezes essa diferença, com gestos, movimentos e postura, que não ajudam. A diferença pode ser evidenciada com as perguntas respondidas, o que ele não consegue fazer em muitos casos.

A entrevista da Roberta Luchsinger na véspera foi muito ruim para Lula — e muito explorada. Ele precisa se preparar melhor para responder às provocações. Acho que Flávio ganhou por não ter perdido, um raciocínio meio dilmista, mas que serve à perfeição desta vez. Todos esperavam que Lula desse um banho, principalmente por fatos anteriores, sua experiência política, e o desmaio de Flávio num debate para prefeito do Rio. Todos achavam que fraquejaria diante de Lula, mas não foi o que aconteceu. Ele estava mais tranquilo, e Lula muito mais nervoso do que deveria estar. Os dois foram desrespeitosos — se chamaram o tempo todo de rapaz e cara. Lula não teve postura presidencial, deixou-se levar pelas pegadinhas de Flávio, e o debate se nivelou por baixo.

Nenhum dos dois teve a grandeza que o momento exige. Lula não impôs sua presença presidencial em nenhum momento, provavelmente porque já tenha perdido a majestade diante de mais uma onda de descrédito que os novos escândalos trazem para seu governo. O senador Flávio Bolsonaro, por seu lado, esteve perto de ultrapassar a linha que separa a ironia do deboche, pois não tem a fineza nem o conhecimento necessários para um debate em alto nível. O envolvimento com as milícias no Rio de Janeiro, berço do bolsonarismo, não foi explorado por Lula, que preferiu tachá-lo de “malandro carioca”, criando uma antipatia com os eleitores fluminenses.

 

Um comentário:

  1. o pesadelo do Lula é a Roberta que todo dia escancara pra todo mundo que ele é um mau caráter mentiroso e covarde por atacá-la de forma violenta e perversa
    Queimou o filme do Presidente
    Seu filho também Hoje é o tendão de Aquiles , escondido quietinho na Espanha, fugindo da justiça Brasileira, até hoje não prestou um depoimento e Lula defendendo o
    filho botando a mão no fogo , vai queimar!

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