O Globo
O ano que vem será difícil para qualquer
vencedor. Os economistas acham que faltará dinheiro, e o El Niño vem pesado com
seus eventos extremos
Minha menina: o Brasil vive sua última semana
de campanha. Só agora, no segundo turno, assume os traços interessantes do
passado.
Há gente na rua, gente fazendo o L, dizendo “vamos virar”, manifestações estudantis, shows. Para dizer a verdade, a animação envolve os dois lados. Vi uma espécie de comício em Capelinha, com milhares de pessoas. É uma cidade de Minas na entrada do Vale do Jequitinhonha, onde estive recentemente. Enfim, há luta eleitoral em toda parte.
Acho ótimo que as pessoas façam as campanhas.
Os candidatos deveriam agradecer a elas não só por carregarem o piano nesta
fase final, em que estão já de língua de fora. O ano que vem será difícil para
qualquer vencedor. Os economistas acham que faltará dinheiro, além disso o El
Niño vem pesado com seus eventos extremos.
Os últimos dias são interessantes também pelo
esforço dos candidatos. O nome da direita acabou, para não perder votos,
votando numa pauta de esquerda, o fim da escala 6x1, sem dúvida um avanço
civilizatório. O candidato da esquerda afirmou que apoia a redução da
maioridade penal, uma pauta clássica da direita. Chamo isso de efeito sertão
virando mar, mar virando sertão, verso consagrado de nossa música popular.
O governo tem tido vitórias no Parlamento. O
dado mais importante é que o desmatamento na Amazônia caiu ao nível mais baixo
da História. Há queimadas por causa da seca e também porque os desmatadores se
vestem de incendiários. Faz parte de seu show macabro.
Se um dia fosse escrever a história desta
campanha, destacaria a grande quantidade de declarações de voto na internet.
Conhecidas ou não, as pessoas traçam ligeiramente sua biografia e concluem
dizendo em quem votarão.
Lembra aquele português que fomos visitar no
Alentejo? Ele me escreveu dizendo que em seu país costumam eleger um Congresso
de direita e um presidente de esquerda, ou vice-versa. Só para equilibrar. Os
brasileiros fariam o mesmo? Não sei, aqui é presidencialismo, e não há muito
esse tipo de cálculo.
Há muitas encruzilhadas, daqui até 2030. Não
sei se verei todas. Espero que essa rígida divisão nacional se atenue com o
tempo. A derrota da direita na Hungria mostrou que, mesmo com poderes quase
absolutos, Viktor Orbán foi para o espaço. As próximas eleições americanas
sugerem que Trump perderá pelo menos uma das duas Casas do Parlamento.
O que não significa caminho tranquilo para a
esquerda. Nesta fase, o capitalismo é um cavalo bravo que ninguém consegue cavalgar
por muito tempo. Será preciso um longo trabalho de revisão, suportando a dor de
saber que não se é dono da verdade e que nem existe resposta científica para o
rumo da História.
Não importa o resultado, depois da emoção da
reta final, uma grande tarefa nos espera. As multidões nas ruas não podem
abandonar a cena política, embora tenham de voltar para suas atividades
cotidianas. Elas serão um grande termômetro.

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