Já o tempo de serventia das opiniões para
esse momento presente pode ser mais longo ou mais curto do que seu prazo de
validade. É sempre possível dar opiniões perenes e convictas que predizem o
futuro. Mesmo que valham precariamente como compreensão da experiência do
presente e passem a valer nada no futuro, podem continuar orientando o agir de
pessoas e grupos por tempo indeterminado. Assim como certas opiniões podem ser
mais elucidativas do momento atual, mas, se desconsideradas agora, perderão
qualquer serventia para o agir ante o presente que se fixará daqui a duas
semanas, mesmo que continuem tendo validade para o debate do que então será
passado ou futuro.
Peço licença para supor que o artigo de hoje
está precisamente situado neste último caso. A decisão de escrevê-lo, apesar da
pouca chance de acolhimento por quem está envolvido num embate que considera
fatal, partiu da noção intuitiva de que a realidade deste 10 de outubro é uma e
a da noite de 25 de outubro será outra. Entre as duas conjunturas haverá nada
menos do que a expressão do soberano, isto é, as falas plurais dos eleitores
que se reúnem como voz do povo. Convencionamos chamá-la assim e acatá-la, em
nome da necessidade de termos vida em comum numa sociedade plural. É por isso
que desde a noite do último dia 4 vivemos em outra conjuntura política, assim
como viveremos uma nova a partir da noite do dia 25, com qualquer resultado. É
assim numa democracia e o Brasil é, felizmente, uma democracia. Esse sistema é
precavido contra fatalidades agonísticas, processo que não garante, previamente,
evitá-las. A garantia, sempre relativa, depende, em boa medida, da sociedade
também se manter plural e democrática.
Do ponto de vista das duas metades do eleitorado,
a realidade do pós-25.10 será considerada melhor pela que for maioria e pior pela
minoria. Esse é um óbvio que tem sido ignorado no varejo da campanha, mas não
pode ser ignorado por um esforço de pensamento politicamente comprometido a não
incorrer em delírios ou em golpismos. Juízos dessa ordem podem compreender e
aceitar seu papel secundário neste momento, mas não ser suspensos a ponto de deixar-se
o ambiente entregue a imediatismo e desespero.
Colados horizontalmente em boa parte do
eleitorado está um certo tipo de influenciadores que se dedica justamente a
ocultar a realidade da controvérsia de percepções e a persuadir eleitores de
que há um modo certo e um modo errado de pensar e agir que nada têm a ver com
opiniões e sim com verdades contra as quais só pode haver mentiras. São exterminadores
da política como atividade amiga do pensamento.
Pensando em sociedade civil, espera-se que
ali estejam cidadãos e cidadãs que, assim como qualquer eleitor ou eleitora,
são, também, pessoas que têm legítimos interesses pessoais e abraçam crenças,
costumes e condutas comunitários ou de grupo, aos quais atribuem valor
positivo. Ali estão as minorias ativas, cujos integrantes têm mais condições de
influir sobre as opiniões populares, seja por seus poderes de organização e
pressão de várias ordens, seja pela boa reputação de que gozam por sua conduta
pública ou pela experiência; seja pelo acesso, em tese, a informações
especializadas, como é o caso de certos profissionais, como juristas,
economistas, jornalistas e professores. Espera-se, inclusive, desses agentes um
esforço necessário para participar da nova sociabilidade digital, sem se
revoltar, por intolerância, contra as suas redes nem deixar, por pressa, sua
própria inteligência se guiar pela dos que as controlam.
O balanço da campanha eleitoral até aqui não
é animador para quem se situa nessa ultima perspectiva. A pressão e a
velocidade com que atuam os exterminadores da política pode induzir o
pensamento político a prosseguir falando em sentido contrário, a calar a boca
ou a aderir à gramática dos que parecem dar as cartas. Escrever esse artigo é
rejeitar o terceiro caminho, evitar ao máximo o segundo e seguir o primeiro,
reconhecendo as suas limitações. Parto dessa escolha feita dentro de tríplice
opção e chego a outra trinca que está no titulo deste artigo. É um cardápio do
qual até aqui serve-se em abundância as duas primeiras opções e sente-se falta
da terceira, que era de esperar que fosse o carro-chefe do empreendimento.
São três até aqui os veios da campanha pela
reeleição do presidente. O do “exército de Lula” comandado, em rede social
orgânica, com pretensões verticais, por André Janones; o da militância lulopetista
clássica, articulada a certos movimentos sociais e em associação com uma
esquerda de extração universitária e, por fim, o veio do que se pode ver como
orientação mais geral da comunicação oficial da campanha.
O terceiro veio é o que resta de política. O
que deveria ser o espaço da inteligência e do enquadramento mobilizador, o
cérebro e o coração políticos da campanha, virou apenas um veio entre outros.
Nele há compreensível preocupação com a comunicação, que é dificultada pela imagem
(rejeição) e a performance (saturada) do candidato e uma preocupação menos
evidente (talvez por falta de solução a essa altura) com a estreiteza da margem
de manobra na política institucional, pelo isolamento diante do balanço de
forças no sistema político que emergiu do primeiro turno. Pairando sobre ambas as
dificuldades, um indisfarçável vazio de liderança política, seja pessoal ou
colegiada, uma ausência de comando perceptível que leva os outros dois veios da
campanha (o militar e o militante), longe de se articularem numa estratégia
objetiva, a funcionarem em paralelo, cada um na sua “banguela”, com lugar espaçoso
franqueado a pieguices, nostalgias e moralismos, também a arrogância, doutrinarismos
e histrionismos autoritários, gerando bate-cabeças explícitos.
Essas duas usinas produzem vozes diversas, mas
igualmente agonísticas, inclusive de intelectuais reconhecidos e profissionais
da educação e da ciência. A estes últimos o general Janones dá, aos berros,
ordens exterminadoras do pensamento e enquadradoras da ação por intimidação,
como a de enfiarem seus PHDs em algum lugar até o dia 25 e obedecerem. Da usina da militância vem o mau uso costumeiro
da energia cívica e libertária genuína da juventude estudantil, para converter
o generoso e voluntarioso grito de “aqui o fascismo não se cria” em senha para
veicular a consigna de cortar cabeças de fascistas. O resultado é um movimento
que começa amplo e em campo aberto, animado pelo amor cívico à liberdade e pelo
medo genuíno do advento de um governo autoritário no Brasil, poder se desdobrar
em convocações a uma luta de trincheira, ao confronto faccioso que antepõe
visões ideológicas apocalípticas à mobilização política. Dessa perspectiva
surgem vozes, muitas respeitáveis, mas contaminadas por uma exasperação de
improvável êxito eleitoral. Pior, em outros casos, veiculam fakenews e outras
práticas retóricas, algumas até pueris, mas que nem por isso são menos fontes de
aversão nas áreas que atingem, por emularem a habitual gramática do inimigo,
sugerindo colonização, adesão e um aprendizado ineficaz.
Digo tudo isso não porque vejo a eleição
perdida para o presidente e opto por mexer nas feridas da derrota. Claro que a
situação é de provável insucesso pela extensão e profundidade da vitória que o
adversário teve no primeiro turno e pelo vigor político que exibiu na primeira
semana da campanha ao segundo turno. Mas
o adversário é um candidato fraco, sem história política positiva que lhe dê
garantias de que pode de fato vencer e depois estar à altura de liderar a ampla
frente que se formou para apoiá-lo. Essa frente se formou contra Lula não por
perversidade moral ou por causa da campanha sofrível que Lula faz, mas pelo
governo que ele deixou de fazer. Leite
derramado que, no entanto, não cancela a brecha da fraqueza do adversário, que
pode fazer, mais uma vez, o personagem Lula manter-se vivo na presidência do
país graças a um recall longínquo que há anos cada vez mais perde gás, mas que
ainda pode fazer gol, batendo na trave antes. Vale a pena, se um Lula 4 terá
governabilidade ainda mais difícil? É dúvida,
mas é possível considerar maiores os temores ligados a um cenário de Flavio
Bolsonaro, sendo quem é, governar com folgada maioria no Congresso para mudar a
Constituição e emparedar o Judiciário. E para fazer isso logo, antes da
economia apresentar más notícias, quando o governo federal ainda estiver
montado no apoio de um amplo leque de governadores e de um eleitorado desejoso de
mudanças, do qual uma parte confia nele e outra parte nessa sua rede de apoios
regionais, congressual e partidário.
Se essa consciência autoriza a comunicação da
campanha de Lula usar o medo como uma arma no segundo turno apertado, não quer
dizer que a use de maneira tonta e exaustiva, atirando a esmo como se fosse a
única coisa que restasse a dizer. A ponto de o candidato correr o país exasperado
e enraivecido, agitador dos próprios comícios, batendo escanteios e correndo
para cabecear, fazendo de seus parcos aliados meros figurantes, como se
contasse de fato apenas com a militância ao seu lado. Ainda que haja algo de
verdade na última cogitação, registrá-la em imagens, na voz e no gestual é
sincericídio.
Além disso, a consciência realista do perigo
da extrema-direita ter hegemonia no exercício fático do poder não autoriza a
recusa do veio político da campanha de Lula a admitir que a extrema-direita se
institucionaliza. Insistir na tecla de que o bolsonarismo é apenas subversão e
criminalidade briga com o que os olhos de pessoas não engajadas estão
vendo. No horário eleitoral a propaganda
está conseguindo aos poucos destacar o discurso da campanha da imagem pregressa
do candidato. Guarda sua antiga expertise para as redes e rebate no discurso
institucional as verdades e as fakenews da campanha rival com entonação
didática, selecionando temas delicados para o adversário, como as politicas
sociais e as enquadrando positivamente como moderadoras da ênfase paralela em
corte de gastos e abstenção fiscal. Fazer o eleitor esquecer quem é Flavio é a
trilha escolhida para legitimar a receita liberal em economia sem os delírios
de Paulo Guedes. Transfere a fiação da governabilidade do voluntarismo pessoal
para a ampla frente política que o apoia. O êxito eleitoral de tudo isso
depende de visão política, que até aqui comparece ao comando político da sua
campanha e da qualidade da madeira que faz a cara de pau do candidato parecer,
até aqui, ser de lei. Já a concretização das promessas serão outros quinhentos
que obviamente a campanha institucional não quer discutir. Mas o gato escondido
com o rabo de fora apareceu duas vezes nos últimos dias por incontinências
verbais do candidato. Uma quando, tagarela, ameaçou uma reforma da Constituição
para “redemocratizar o Brasil”, outra, quando, face a um vazamento de ligações
de Vorcaro com financiamento suspeito de um filme sobre Lula, recaiu em
tentação e acusou o adversário de “pedir propina”. O candidato maquiado, que
está na dianteira, entrou numa troca de acusações via factoides, típico das
redes dos exterminadores da política. Mas no geral, a campanha de FB está
conseguindo colocar em segundo plano o Zero Um e levar aos eleitores uma
mensagem de mudança política relativamente crível por uma parte do eleitorado, pela
demonstração de força política expressiva. Essa mesma força é o perigo
institucional que precisa ser matéria-prima dos adversários principalmente-para
lembrar o golpismo, a indiferença à dor social da pandemia, a milícia e a
irresponsabilidade fiscal.
Acontece que a campanha de Lula estreou no
horário eleitoral comprando finalmente a ideia da mudança, mas sem pagar o
preço devido por ela, que seria o reconhecimento de que não virá da simples
continuidade do Lula 3 no Lula 4 e sim de uma correção de rumos que precisa ser
reconhecida como necessária, com realce e sem ambiguidades para, aí sim, talvez
poder apontar a negociação de um novo pacto político com o centro e setores da
centro-direita, como alternativa ao rolo compressor da extrema-direita. Mas,
assim como esteve ausente no discurso de quatro anos de governo, a ideia não está
nem de longe no discurso da campanha e o que de mais concreto aparece é mesmo a
tática do medo. Com isso deixa de enfrentar outro medo real, presente no
eleitorado: o medo de cair numa conversa oca sobre governo sem governabilidade,
porque um Lula 4 estaria isolado e a força estaria com o outro lado.
Essa pode estar sendo uma percepção realista
até do eleitor nordestino de Lula que, apesar de ter lhe dado a chance de ir ao
segundo turno, votou menos com ele em 2026, levando o lulopetismo a poder eleger
govenadores na região só nos estados em que detém a máquina estadual. Essa situação estacionária insere-se no
quadro mais geral em que a faixa dos muito interessados na campanha não ultrapassou
os 40% até a véspera do primeiro turno. É isso que faz duplo o desafio de Lula
de reduzir a abstenção e reverter sua desvantagem entre eleitores de Cury,
Caiado, Renan e Zema que, segundo a primeira sondagem do DataFolha para o
segundo turno, acrescenta um milhão e meio de votos na vantagem do adversário.
Se por um lado o apelo à atitude de militância dos engajados - e à militância
partidária e ativista em si - é fundamental para criar, como está criando, um
clima de reação, também é preciso não perder de vista a necessidade de que a
redução da abstenção implica em não errar o alvo positivo, que não são os já
convertidos, mas os potenciais eleitores que não compareceram, nem a pontaria
da artilharia do medo, que precisa apontar aos agentes da extrema-direita e não
a seus eleitores.
Mais importante ainda é fazer o veio da
atitude política assumir o comando e deixar Janones no lugar lateral de onde
não deveria ter saído. Se a duas semanas das urnas, for tarde para fazer um
movimento de pacificação da política em vez de rebaixá-la a uma guerra, será
tarde também para deter a maré da extrema-direita, na eleição ou no futuro
governo, se ele cair do céu como a estrela derradeira de Lula.
Para começar a terminar permitam-me
transmitir uma intepretação sobre uma motivação de fundo que pode estar
engessando o necessário movimento de Lula em direção à sua direita. Um medo
espectral que preocupa o lulopetismo e o PT como partido, quando pensa no seu
futuro, após o ingresso do PL na cena como o partido que está
institucionalizando, ao menos por ora, a politica da extrema-direita. É o medo
de não ter, no governo de Flavio Bolsonaro, o protagonismo na oposição como
teve no de Jair. Vou desdobrar.
A eleição que consagrou o bolsonarismo e o PL
está sendo lida pela campanha da esquerda, através do seu veio político rouco e
residual, como se fosse um movimento de fora para dentro de uma força criminosa
engolindo o que ela, esquerda, chama de “direita”. A alusão é clara e
complementar a uma narrativa insistente que está na boca também da deputada
federal eleita Ana Elisa, uma das personalidades midiáticas com que a esquerda
oficial passa a contar para enfrentar suas equivalentes da extrema-direita.
Consiste em dizer que no Brasil só há três campos políticos, dois legais - a
esquerda e a “direita” - e o bolsonarismo, campo delinquente e ponto final. Já
seria um negacionismo do fato de que o PL se tornou representante sistêmico de
uma coalizão bolsonarista, reduzindo com isso, inclusive a força parlamentar do
centrão. Até aí entende-se essa versão como parte também da tática do medo,
aqui já vista como legítima para fins meramente eleitorais, mas controversa como
descrição mais profética do que realista dos novos termos da política brasileira,
após as eleições de 2026.
Vejo, no entanto, um problema mais sério com
essa narrativa. Emanações do veio militante da campanha ilustram e complementam
a narrativa, colando o rótulo de direita em ninguém menos do que um político
com a trajetória de José Serra, num material de campanha em suas redes sociais,
em que Serra aparece nessa condição, Lula na de esquerda e na de criminoso um
bolsonarista armado. Com isso apaga-se da cena, por encanto, qualquer centro
democrático que obviamente Serra e vários outras figuras (inclusive algumas que
estão no governo) representam no Brasil. Pouco importa para os engajados na
guerra a incoerência entre a narrativa e a ilustração, que mostra que das duas
uma, ou Serra foi engolido pelo bolsonarismo (portanto, seria adversário) ou ele
não é de direita, mas não sendo, não conta, a não ser como farsa. Impossível
não conectar essa atitude com a que predominou - não sem nuances, é verdade -
no governo. Quem aderiu a ele virou coadjuvante,
linha auxiliar da esquerda e quem não aderiu foi tratado como poeira que não
servia nem para alianças pontuais, apenas para votar por gravidade. Não pretendo culpar Lula nem o PT pela
pulverização do centro democrático, que várias vezes aqui já atribuí à sua
falta de estratégia, coragem e personalidade política. Apenas registro a visão
da esquerda para desdobrar, como prometi, a ideia do medo espectral que ronda o
PT diante do cenário possível da derrota.
O primeiro turno de 2026 dá razões para esse
receio aumentar. O recuo relativo do centrão em favor do PL pode dar lugar a um
ensaio de bipartidarismo, ou quase isso, tendo como âncoras o PL e o PT. É uma hipótese, mas outra é que os partidos
do núcleo duro do centrão (PP e Republicanos) busquem uma aglutinação interna e
para fora, em sotaque distinto do eleitoral. Têm conexão com o União e já
receberam sinal neste sentido de Gilberto Kassab, do PSD, um antigo mix de
rival e interlocutor, que foi derrotado no domingo e que logo se apressou em
dizer que impeachment de ministro do STF não pode ser matéria de pauta. Recado
dado à sua direita, ao MDB - que compete consigo pelo centro, mas também
compartilha iniciativas e à sua esquerda. Por outro lado, de olho no Senado e
na Câmara estará o governador Tarcísio de Freitas, cujo projeto presidencial
enfraquecerá se Flavio vencer, mas não sairá dos radares do PIB - a depender do
rumo da economia - e do próprio centrão, se não quiser seguir sendo canibalizado
pelo PL.
Na outra ponta do espectro que a narrativa da
esquerda chama de direita estão quadros do atual governo que por essa condição
estão provisoriamente poupados do rótulo, dentre os quais políticos de centro
como Alckmin, Tebet e Marina, cujos posicionamentos (se as urnas, depois de os
terem derrotado no primeiro turno, derem por encerradas também as suas atuais
missões de cooperação institucional com Lula), serão levados a contabilizar o
que sobrou dos seus capitais políticos e a repensar os seus destinos para reiterar,
diminuir ou encerrar a cooperação a depender também do que digam e façam Lula e
o PT. E na franja da base parlamentar do
atual governo está até mesmo o PSB, partido de centro-esquerda onde estão, além
de Alckmin, jovens políticos promissores como Tabata Amaral e João Campos, que
o preside.
Entre o campo do centrão e seus próximos e o
dos aliados de centro no governo existe a névoa hoje paralítica do centro
democrático, formada por órfãos de Simone Tebet que em 2022 se chamava terceira
via. Quase inexistem ali políticos com visibilidade, mas não é desprezível a
capacidade de aglutinação de intelectuais públicos e formuladores políticos
especialmente na área económico-social, como é o caso dos integrantes da equipe
do Plano Real nos governos FHC, uma memória ativa do tucanato inaugural e de
toda uma lógica política da transição democrática que pode vir em socorro de um
programa de oposição a um governo de Flavio Bolsonaro tanto em política social
como em defesa das instituições democráticas.
Além da névoa, uma possível nuvem já em
movimento, permitida pelas óbvias neutralidades no segundo turno do governador
gaúcho ainda em exercício Eduardo Leite e da governadora reeleita de
Pernambuco, Raquel Lyra. Como salientou, em recente entrevista, o publicitário
Igor Paulin, responsável por suas duas campanhas exitosas em 2022 e 2026, passa
por ela um vislumbre de alternativa política num cenário pós-Lula, que possa
levar também a um cenário pós-Bolsonaro em 2030. Para isso teria que cuidar
diligentemente da política do seu estado e chamar seu adversário de domingo
para um entendimento político que resguarde o estado liberto dos dois polos
atuais como um plano seguro para um vôo nacional dessa natureza. Um acordo de
grande política, que precisaria encontrar tradução partidária, dando a Kassab a
chance de rever a posição que levou o PSD ao refluxo eleitoral e consequente
perda de força parlamentar, justo o que quis evitar bloqueando a candidatura
presidencial do governador Eduardo Leite, a qual poderia ter sido o dique que
faltou ao avanço avassalador da extrema-direita nessas eleições.
Todas essas possibilidades estão longe de
serem probabilidades. Mas são um conjunto de alternativas de uma política
democrática pluralista que pode renascer num cenário que é antecipado pela
esquerda como profecia de uma mutilação grave ou de destruição da democracia. É
o risco de o medo passar a funcionar não só como tática eleitoral contra o
adversário de hoje e voltar como bumerangue na forma de um medo espectral que
vira linha de conduta política permanente. Seria muito importante a esquerda
brasileira perder esse medo da volta de uma política mais pluralista, mesmo que
não possa ser agora nessa eleição.
Seria bom para o país que alguma esquerda
relevante participasse disso. Mas, melhor ainda será se começar agora, a duas
semanas de um novo encontro com as urnas. Essa não será a chamada bala de prata
que pode reeleger o presidente, mas ela em nada atrapalha a reeleição e é uma
gramática imprescindível ao país, qualquer que seja o resultado do dia 25. Lula
tem duas semanas para vencer o bloqueio mental que o paralisa. Ele faz supor
que o candidato já entregou os pontos e que seu desespero é para registrar que o
líder lutou até o fim e garantiu ao seu partido, mais uma vez, o lugar de
partido-chefe da oposição e a si mesmo o de mártir da imprudência das “elites”
e da ingratidão dos eleitores brasileiros, noves fora os do Nordeste. Se houver, esse é um cálculo medroso, que não
está à altura do seu real desafio que é o de tentar ganhar, mais essa vez, a
eleição presidencial e depois governar junto com o centro democrático que ele e
seu partido temem, por um atavismo político que chegou ao fim da linha.
Evitar a hegemonia da extrema-direita sobre
si é missão da direita democrática. Construir uma oposição democrática à
extrema-direita é missão do centro democrático. A missão da esquerda é perder o
medo espectral e escolher entre propor um caminho à parte, sem protagonismo, ou
participar do segundo. Qualquer das duas
será legítima e preferível a um desfecho melancólico, afundada no pântano do
populismo. Evitar isso é a última chance que Lula precisa pedir para cumprir a sua
promessa de 2022.
*Cientista político e professor da UFBA

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