domingo, 11 de outubro de 2026

Hora última para Lula escolher a voz de comando: militar, militante ou política, por Paulo Fábio Dantas Neto*

Para tudo o que se pode ou escolhe escrever sobre política há, além de um prazo de validade como pensamento, um tempo de serventia para a ação. No caso de comentários, no calor da hora, sobre a campanha do segundo turno dessas eleições, o prazo de validade pode ir muito além do dia 25.10.26, seja como   balanço, interpretação, avaliação, lição ou debate do passado; seja como orientação (e novamente debate) para situações políticas futuras. Portanto, a validade de opiniões dadas agora permanecerá enquanto for possível (institucionalmente) e desejado (social e culturalmente) haver pensamento e debate entre nós. Esse é o critério decisivo para o voto de certas pessoas, inclusive este colunista.

Já o tempo de serventia das opiniões para esse momento presente pode ser mais longo ou mais curto do que seu prazo de validade. É sempre possível dar opiniões perenes e convictas que predizem o futuro. Mesmo que valham precariamente como compreensão da experiência do presente e passem a valer nada no futuro, podem continuar orientando o agir de pessoas e grupos por tempo indeterminado. Assim como certas opiniões podem ser mais elucidativas do momento atual, mas, se desconsideradas agora, perderão qualquer serventia para o agir ante o presente que se fixará daqui a duas semanas, mesmo que continuem tendo validade para o debate do que então será passado ou futuro.

Peço licença para supor que o artigo de hoje está precisamente situado neste último caso. A decisão de escrevê-lo, apesar da pouca chance de acolhimento por quem está envolvido num embate que considera fatal, partiu da noção intuitiva de que a realidade deste 10 de outubro é uma e a da noite de 25 de outubro será outra. Entre as duas conjunturas haverá nada menos do que a expressão do soberano, isto é, as falas plurais dos eleitores que se reúnem como voz do povo. Convencionamos chamá-la assim e acatá-la, em nome da necessidade de termos vida em comum numa sociedade plural. É por isso que desde a noite do último dia 4 vivemos em outra conjuntura política, assim como viveremos uma nova a partir da noite do dia 25, com qualquer resultado. É assim numa democracia e o Brasil é, felizmente, uma democracia. Esse sistema é precavido contra fatalidades agonísticas, processo que não garante, previamente, evitá-las. A garantia, sempre relativa, depende, em boa medida, da sociedade também se manter plural e democrática.

Do ponto de vista das duas metades do eleitorado, a realidade do pós-25.10 será considerada melhor pela que for maioria e pior pela minoria. Esse é um óbvio que tem sido ignorado no varejo da campanha, mas não pode ser ignorado por um esforço de pensamento politicamente comprometido a não incorrer em delírios ou em golpismos. Juízos dessa ordem podem compreender e aceitar seu papel secundário neste momento, mas não ser suspensos a ponto de deixar-se o ambiente entregue a imediatismo e desespero.

Colados horizontalmente em boa parte do eleitorado está um certo tipo de influenciadores que se dedica justamente a ocultar a realidade da controvérsia de percepções e a persuadir eleitores de que há um modo certo e um modo errado de pensar e agir que nada têm a ver com opiniões e sim com verdades contra as quais só pode haver mentiras. São exterminadores da política como atividade amiga do pensamento.

Pensando em sociedade civil, espera-se que ali estejam cidadãos e cidadãs que, assim como qualquer eleitor ou eleitora, são, também, pessoas que têm legítimos interesses pessoais e abraçam crenças, costumes e condutas comunitários ou de grupo, aos quais atribuem valor positivo. Ali estão as minorias ativas, cujos integrantes têm mais condições de influir sobre as opiniões populares, seja por seus poderes de organização e pressão de várias ordens, seja pela boa reputação de que gozam por sua conduta pública ou pela experiência; seja pelo acesso, em tese, a informações especializadas, como é o caso de certos profissionais, como juristas, economistas, jornalistas e professores. Espera-se, inclusive, desses agentes um esforço necessário para participar da nova sociabilidade digital, sem se revoltar, por intolerância, contra as suas redes nem deixar, por pressa, sua própria inteligência se guiar pela dos que as controlam.

O balanço da campanha eleitoral até aqui não é animador para quem se situa nessa ultima perspectiva. A pressão e a velocidade com que atuam os exterminadores da política pode induzir o pensamento político a prosseguir falando em sentido contrário, a calar a boca ou a aderir à gramática dos que parecem dar as cartas. Escrever esse artigo é rejeitar o terceiro caminho, evitar ao máximo o segundo e seguir o primeiro, reconhecendo as suas limitações. Parto dessa escolha feita dentro de tríplice opção e chego a outra trinca que está no titulo deste artigo. É um cardápio do qual até aqui serve-se em abundância as duas primeiras opções e sente-se falta da terceira, que era de esperar que fosse o carro-chefe do empreendimento.

São três até aqui os veios da campanha pela reeleição do presidente. O do “exército de Lula” comandado, em rede social orgânica, com pretensões verticais, por André Janones; o da militância lulopetista clássica, articulada a certos movimentos sociais e em associação com uma esquerda de extração universitária e, por fim, o veio do que se pode ver como orientação mais geral da comunicação oficial da campanha.

O terceiro veio é o que resta de política. O que deveria ser o espaço da inteligência e do enquadramento mobilizador, o cérebro e o coração políticos da campanha, virou apenas um veio entre outros. Nele há compreensível preocupação com a comunicação, que é dificultada pela imagem (rejeição) e a performance (saturada) do candidato e uma preocupação menos evidente (talvez por falta de solução a essa altura) com a estreiteza da margem de manobra na política institucional, pelo isolamento diante do balanço de forças no sistema político que emergiu do primeiro turno. Pairando sobre ambas as dificuldades, um indisfarçável vazio de liderança política, seja pessoal ou colegiada, uma ausência de comando perceptível que leva os outros dois veios da campanha (o militar e o militante), longe de se articularem numa estratégia objetiva, a funcionarem em paralelo, cada um na sua “banguela”, com lugar espaçoso franqueado a pieguices, nostalgias e moralismos, também a arrogância, doutrinarismos e histrionismos autoritários, gerando bate-cabeças explícitos.

Essas duas usinas produzem vozes diversas, mas igualmente agonísticas, inclusive de intelectuais reconhecidos e profissionais da educação e da ciência. A estes últimos o general Janones dá, aos berros, ordens exterminadoras do pensamento e enquadradoras da ação por intimidação, como a de enfiarem seus PHDs em algum lugar até o dia 25 e obedecerem.  Da usina da militância vem o mau uso costumeiro da energia cívica e libertária genuína da juventude estudantil, para converter o generoso e voluntarioso grito de “aqui o fascismo não se cria” em senha para veicular a consigna de cortar cabeças de fascistas. O resultado é um movimento que começa amplo e em campo aberto, animado pelo amor cívico à liberdade e pelo medo genuíno do advento de um governo autoritário no Brasil, poder se desdobrar em convocações a uma luta de trincheira, ao confronto faccioso que antepõe visões ideológicas apocalípticas à mobilização política. Dessa perspectiva surgem vozes, muitas respeitáveis, mas contaminadas por uma exasperação de improvável êxito eleitoral. Pior, em outros casos, veiculam fakenews e outras práticas retóricas, algumas até pueris, mas que nem por isso são menos fontes de aversão nas áreas que atingem, por emularem a habitual gramática do inimigo, sugerindo colonização, adesão e um aprendizado ineficaz.

Digo tudo isso não porque vejo a eleição perdida para o presidente e opto por mexer nas feridas da derrota. Claro que a situação é de provável insucesso pela extensão e profundidade da vitória que o adversário teve no primeiro turno e pelo vigor político que exibiu na primeira semana da campanha ao segundo turno.  Mas o adversário é um candidato fraco, sem história política positiva que lhe dê garantias de que pode de fato vencer e depois estar à altura de liderar a ampla frente que se formou para apoiá-lo. Essa frente se formou contra Lula não por perversidade moral ou por causa da campanha sofrível que Lula faz, mas pelo governo que ele deixou de fazer.  Leite derramado que, no entanto, não cancela a brecha da fraqueza do adversário, que pode fazer, mais uma vez, o personagem Lula manter-se vivo na presidência do país graças a um recall longínquo que há anos cada vez mais perde gás, mas que ainda pode fazer gol, batendo na trave antes. Vale a pena, se um Lula 4 terá governabilidade ainda mais difícil?  É dúvida, mas é possível considerar maiores os temores ligados a um cenário de Flavio Bolsonaro, sendo quem é, governar com folgada maioria no Congresso para mudar a Constituição e emparedar o Judiciário. E para fazer isso logo, antes da economia apresentar más notícias, quando o governo federal ainda estiver montado no apoio de um amplo leque de governadores e de um eleitorado desejoso de mudanças, do qual uma parte confia nele e outra parte nessa sua rede de apoios regionais, congressual e partidário.

Se essa consciência autoriza a comunicação da campanha de Lula usar o medo como uma arma no segundo turno apertado, não quer dizer que a use de maneira tonta e exaustiva, atirando a esmo como se fosse a única coisa que restasse a dizer. A ponto de o candidato correr o país exasperado e enraivecido, agitador dos próprios comícios, batendo escanteios e correndo para cabecear, fazendo de seus parcos aliados meros figurantes, como se contasse de fato apenas com a militância ao seu lado. Ainda que haja algo de verdade na última cogitação, registrá-la em imagens, na voz e no gestual é sincericídio.

Além disso, a consciência realista do perigo da extrema-direita ter hegemonia no exercício fático do poder não autoriza a recusa do veio político da campanha de Lula a admitir que a extrema-direita se institucionaliza. Insistir na tecla de que o bolsonarismo é apenas subversão e criminalidade briga com o que os olhos de pessoas não engajadas estão vendo.  No horário eleitoral a propaganda está conseguindo aos poucos destacar o discurso da campanha da imagem pregressa do candidato. Guarda sua antiga expertise para as redes e rebate no discurso institucional as verdades e as fakenews da campanha rival com entonação didática, selecionando temas delicados para o adversário, como as politicas sociais e as enquadrando positivamente como moderadoras da ênfase paralela em corte de gastos e abstenção fiscal. Fazer o eleitor esquecer quem é Flavio é a trilha escolhida para legitimar a receita liberal em economia sem os delírios de Paulo Guedes. Transfere a fiação da governabilidade do voluntarismo pessoal para a ampla frente política que o apoia. O êxito eleitoral de tudo isso depende de visão política, que até aqui comparece ao comando político da sua campanha e da qualidade da madeira que faz a cara de pau do candidato parecer, até aqui, ser de lei. Já a concretização das promessas serão outros quinhentos que obviamente a campanha institucional não quer discutir. Mas o gato escondido com o rabo de fora apareceu duas vezes nos últimos dias por incontinências verbais do candidato. Uma quando, tagarela, ameaçou uma reforma da Constituição para “redemocratizar o Brasil”, outra, quando, face a um vazamento de ligações de Vorcaro com financiamento suspeito de um filme sobre Lula, recaiu em tentação e acusou o adversário de “pedir propina”. O candidato maquiado, que está na dianteira, entrou numa troca de acusações via factoides, típico das redes dos exterminadores da política. Mas no geral, a campanha de FB está conseguindo colocar em segundo plano o Zero Um e levar aos eleitores uma mensagem de mudança política relativamente crível por uma parte do eleitorado, pela demonstração de força política expressiva. Essa mesma força é o perigo institucional que precisa ser matéria-prima dos adversários principalmente-para lembrar o golpismo, a indiferença à dor social da pandemia, a milícia e a irresponsabilidade fiscal.

Acontece que a campanha de Lula estreou no horário eleitoral comprando finalmente a ideia da mudança, mas sem pagar o preço devido por ela, que seria o reconhecimento de que não virá da simples continuidade do Lula 3 no Lula 4 e sim de uma correção de rumos que precisa ser reconhecida como necessária, com realce e sem ambiguidades para, aí sim, talvez poder apontar a negociação de um novo pacto político com o centro e setores da centro-direita, como alternativa ao rolo compressor da extrema-direita. Mas, assim como esteve ausente no discurso de quatro anos de governo, a ideia não está nem de longe no discurso da campanha e o que de mais concreto aparece é mesmo a tática do medo. Com isso deixa de enfrentar outro medo real, presente no eleitorado: o medo de cair numa conversa oca sobre governo sem governabilidade, porque um Lula 4 estaria isolado e a força estaria com o outro lado.

Essa pode estar sendo uma percepção realista até do eleitor nordestino de Lula que, apesar de ter lhe dado a chance de ir ao segundo turno, votou menos com ele em 2026, levando o lulopetismo a poder eleger govenadores na região só nos estados em que detém a máquina estadual.  Essa situação estacionária insere-se no quadro mais geral em que a faixa dos muito interessados na campanha não ultrapassou os 40% até a véspera do primeiro turno. É isso que faz duplo o desafio de Lula de reduzir a abstenção e reverter sua desvantagem entre eleitores de Cury, Caiado, Renan e Zema que, segundo a primeira sondagem do DataFolha para o segundo turno, acrescenta um milhão e meio de votos na vantagem do adversário. Se por um lado o apelo à atitude de militância dos engajados - e à militância partidária e ativista em si - é fundamental para criar, como está criando, um clima de reação, também é preciso não perder de vista a necessidade de que a redução da abstenção implica em não errar o alvo positivo, que não são os já convertidos, mas os potenciais eleitores que não compareceram, nem a pontaria da artilharia do medo, que precisa apontar aos agentes da extrema-direita e não a seus eleitores. 

Mais importante ainda é fazer o veio da atitude política assumir o comando e deixar Janones no lugar lateral de onde não deveria ter saído. Se a duas semanas das urnas, for tarde para fazer um movimento de pacificação da política em vez de rebaixá-la a uma guerra, será tarde também para deter a maré da extrema-direita, na eleição ou no futuro governo, se ele cair do céu como a estrela derradeira de Lula.

Para começar a terminar permitam-me transmitir uma intepretação sobre uma motivação de fundo que pode estar engessando o necessário movimento de Lula em direção à sua direita. Um medo espectral que preocupa o lulopetismo e o PT como partido, quando pensa no seu futuro, após o ingresso do PL na cena como o partido que está institucionalizando, ao menos por ora, a politica da extrema-direita. É o medo de não ter, no governo de Flavio Bolsonaro, o protagonismo na oposição como teve no de Jair. Vou desdobrar.

A eleição que consagrou o bolsonarismo e o PL está sendo lida pela campanha da esquerda, através do seu veio político rouco e residual, como se fosse um movimento de fora para dentro de uma força criminosa engolindo o que ela, esquerda, chama de “direita”. A alusão é clara e complementar a uma narrativa insistente que está na boca também da deputada federal eleita Ana Elisa, uma das personalidades midiáticas com que a esquerda oficial passa a contar para enfrentar suas equivalentes da extrema-direita. Consiste em dizer que no Brasil só há três campos políticos, dois legais - a esquerda e a “direita” - e o bolsonarismo, campo delinquente e ponto final. Já seria um negacionismo do fato de que o PL se tornou representante sistêmico de uma coalizão bolsonarista, reduzindo com isso, inclusive a força parlamentar do centrão. Até aí entende-se essa versão como parte também da tática do medo, aqui já vista como legítima para fins meramente eleitorais, mas controversa como descrição mais profética do que realista dos novos termos da política brasileira, após as eleições de 2026.

Vejo, no entanto, um problema mais sério com essa narrativa. Emanações do veio militante da campanha ilustram e complementam a narrativa, colando o rótulo de direita em ninguém menos do que um político com a trajetória de José Serra, num material de campanha em suas redes sociais, em que Serra aparece nessa condição, Lula na de esquerda e na de criminoso um bolsonarista armado. Com isso apaga-se da cena, por encanto, qualquer centro democrático que obviamente Serra e vários outras figuras (inclusive algumas que estão no governo) representam no Brasil. Pouco importa para os engajados na guerra a incoerência entre a narrativa e a ilustração, que mostra que das duas uma, ou Serra foi engolido pelo bolsonarismo (portanto, seria adversário) ou ele não é de direita, mas não sendo, não conta, a não ser como farsa. Impossível não conectar essa atitude com a que predominou - não sem nuances, é verdade - no governo.  Quem aderiu a ele virou coadjuvante, linha auxiliar da esquerda e quem não aderiu foi tratado como poeira que não servia nem para alianças pontuais, apenas para votar por gravidade.  Não pretendo culpar Lula nem o PT pela pulverização do centro democrático, que várias vezes aqui já atribuí à sua falta de estratégia, coragem e personalidade política. Apenas registro a visão da esquerda para desdobrar, como prometi, a ideia do medo espectral que ronda o PT diante do cenário possível da derrota.

O primeiro turno de 2026 dá razões para esse receio aumentar. O recuo relativo do centrão em favor do PL pode dar lugar a um ensaio de bipartidarismo, ou quase isso, tendo como âncoras o PL e o PT.  É uma hipótese, mas outra é que os partidos do núcleo duro do centrão (PP e Republicanos) busquem uma aglutinação interna e para fora, em sotaque distinto do eleitoral. Têm conexão com o União e já receberam sinal neste sentido de Gilberto Kassab, do PSD, um antigo mix de rival e interlocutor, que foi derrotado no domingo e que logo se apressou em dizer que impeachment de ministro do STF não pode ser matéria de pauta. Recado dado à sua direita, ao MDB - que compete consigo pelo centro, mas também compartilha iniciativas e à sua esquerda. Por outro lado, de olho no Senado e na Câmara estará o governador Tarcísio de Freitas, cujo projeto presidencial enfraquecerá se Flavio vencer, mas não sairá dos radares do PIB - a depender do rumo da economia - e do próprio centrão, se não quiser seguir sendo canibalizado pelo PL.

Na outra ponta do espectro que a narrativa da esquerda chama de direita estão quadros do atual governo que por essa condição estão provisoriamente poupados do rótulo, dentre os quais políticos de centro como Alckmin, Tebet e Marina, cujos posicionamentos (se as urnas, depois de os terem derrotado no primeiro turno, derem por encerradas também as suas atuais missões de cooperação institucional com Lula), serão levados a contabilizar o que sobrou dos seus capitais políticos e a repensar os seus destinos para reiterar, diminuir ou encerrar a cooperação a depender também do que digam e façam Lula e o PT.  E na franja da base parlamentar do atual governo está até mesmo o PSB, partido de centro-esquerda onde estão, além de Alckmin, jovens políticos promissores como Tabata Amaral e João Campos, que o preside.

Entre o campo do centrão e seus próximos e o dos aliados de centro no governo existe a névoa hoje paralítica do centro democrático, formada por órfãos de Simone Tebet que em 2022 se chamava terceira via. Quase inexistem ali políticos com visibilidade, mas não é desprezível a capacidade de aglutinação de intelectuais públicos e formuladores políticos especialmente na área económico-social, como é o caso dos integrantes da equipe do Plano Real nos governos FHC, uma memória ativa do tucanato inaugural e de toda uma lógica política da transição democrática que pode vir em socorro de um programa de oposição a um governo de Flavio Bolsonaro tanto em política social como em defesa das instituições democráticas.

Além da névoa, uma possível nuvem já em movimento, permitida pelas óbvias neutralidades no segundo turno do governador gaúcho ainda em exercício Eduardo Leite e da governadora reeleita de Pernambuco, Raquel Lyra. Como salientou, em recente entrevista, o publicitário Igor Paulin, responsável por suas duas campanhas exitosas em 2022 e 2026, passa por ela um vislumbre de alternativa política num cenário pós-Lula, que possa levar também a um cenário pós-Bolsonaro em 2030. Para isso teria que cuidar diligentemente da política do seu estado e chamar seu adversário de domingo para um entendimento político que resguarde o estado liberto dos dois polos atuais como um plano seguro para um vôo nacional dessa natureza. Um acordo de grande política, que precisaria encontrar tradução partidária, dando a Kassab a chance de rever a posição que levou o PSD ao refluxo eleitoral e consequente perda de força parlamentar, justo o que quis evitar bloqueando a candidatura presidencial do governador Eduardo Leite, a qual poderia ter sido o dique que faltou ao avanço avassalador da extrema-direita nessas eleições.

Todas essas possibilidades estão longe de serem probabilidades. Mas são um conjunto de alternativas de uma política democrática pluralista que pode renascer num cenário que é antecipado pela esquerda como profecia de uma mutilação grave ou de destruição da democracia. É o risco de o medo passar a funcionar não só como tática eleitoral contra o adversário de hoje e voltar como bumerangue na forma de um medo espectral que vira linha de conduta política permanente. Seria muito importante a esquerda brasileira perder esse medo da volta de uma política mais pluralista, mesmo que não possa ser agora nessa eleição.

Seria bom para o país que alguma esquerda relevante participasse disso. Mas, melhor ainda será se começar agora, a duas semanas de um novo encontro com as urnas. Essa não será a chamada bala de prata que pode reeleger o presidente, mas ela em nada atrapalha a reeleição e é uma gramática imprescindível ao país, qualquer que seja o resultado do dia 25. Lula tem duas semanas para vencer o bloqueio mental que o paralisa. Ele faz supor que o candidato já entregou os pontos e que seu desespero é para registrar que o líder lutou até o fim e garantiu ao seu partido, mais uma vez, o lugar de partido-chefe da oposição e a si mesmo o de mártir da imprudência das “elites” e da ingratidão dos eleitores brasileiros, noves fora os do Nordeste.  Se houver, esse é um cálculo medroso, que não está à altura do seu real desafio que é o de tentar ganhar, mais essa vez, a eleição presidencial e depois governar junto com o centro democrático que ele e seu partido temem, por um atavismo político que chegou ao fim da linha.

Evitar a hegemonia da extrema-direita sobre si é missão da direita democrática. Construir uma oposição democrática à extrema-direita é missão do centro democrático. A missão da esquerda é perder o medo espectral e escolher entre propor um caminho à parte, sem protagonismo, ou participar do segundo.  Qualquer das duas será legítima e preferível a um desfecho melancólico, afundada no pântano do populismo. Evitar isso é a última chance que Lula precisa pedir para cumprir a sua promessa de 2022.

*Cientista político e professor da UFBA

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