Valor Econômico
Regra elementar do poder dita que, em Brasília, manda quem tem votos
O ano era 2012. A imprensa aguardava, com
desânimo, o resultado de uma reunião do PT com o então ministro da Fazenda,
Guido Mantega, prevista para 16h, que definiria se a votação de um projeto de
interesse do governo no Senado ocorreria naquele dia ou na semana seguinte.
Passava das 17h quando o então líder do partido, senador Walter Pinheiro, da
Bahia, cruzou o cafezinho do plenário do Senado em direção ao elevador, com a
tranquilidade dos baianos, para se deslocar à Esplanada.
Alertado que o ministro o aguardava havia mais de uma hora, Pinheiro se voltou aos jornalistas e questionou: “Quantos votos o Mantega tem?” A resposta era nenhum. E prosseguiu: “Eu tenho 3,6 milhões, por isso, é ele que deve me esperar”. Em 2010, ele obteve 31% dos votos válidos. Mais do que o alcançado nesse domingo (4) pelo ex-ministro Rui Costa (PT), que conquistou 4,3 milhões de votos, equivalentes a 30% do total.
A resposta de Walter Pinheiro naquele dia resume
uma regra elementar do poder: em Brasília, manda quem tem votos. Não é o único
ativo, mas impõe respeito, em especial, aos campeões das urnas. O outro ativo é
a influência, associada à capacidade de articulação e de diálogo. Com esses
atributos, mesmo com menos votos, um político pode alçar voos mais altos, à
presidência de uma das Casas, cargos na Mesa Diretora, à direção ou liderança
de um partido.
No domingo, as urnas revelaram que a política
nas plataformas digitais ganhou relevância e projetou novos quadros nacionais.
Mesmo assim, a sinalização é de que a fórmula, ainda recente, conviverá por
algum tempo com a velha política, que elegeu ou reelegeu, com votações menos
expressivas, dirigentes e líderes partidários, bem como familiares de quem acumula
mandatos no Congresso há mais de uma década.
Um fenômeno dessa eleição foi a ampliação dos
votos dos políticos que se forjaram nas redes sociais. Campeão nacional de
votos pela segunda vez, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), dobrou a votação,
saltando de 1,47 milhão de votos em 2022 para 3,1 milhões neste ano. A deputada
Erika Hilton (Psol-SP), mais votada entre as mulheres, alcançou 1,58 milhão de
votos - seis vezes mais que os 256,9 mil do pleito anterior. E o deputado Kim
Kataguiri (Missão-SP) quase dobrou o desempenho, passando de 295 mil votos em
2022 para 520 mil. Ele também cresceu na esteira da candidatura presidencial de
Renan Santos, que buscava alavancar o Missão.
Salta aos olhos que os dez deputados federais
mais votados no país tenham se projetado nas redes sociais. Além de Nikolas,
Erika e Kataguiri, completam a lista: Lucas Pavanato (PL-SP), André Fernandes
(PL-CE), Júlia Zanatta (PL-SC) e Jeffrey Chiquini (Novo-PR), ligados ao
bolsonarismo. Sâmia Bomfim (Psol-SP) e Tabata Amaral (PSB-SP), reeleitas, e Ana
Elisa (PT-MG).
Deputada eleita mais jovem do país, com 21
anos, e 524 mil votos, ela roubou a cena. Para esse resultado, fez campanha,
prioritariamente, nas redes, e gastou R$ 630 mil dos R$ 670 mil repassados pela
federação PT-PV-PCdoB. Em contraste, a deputada eleita Gleide Andrade, também
do PT mineiro - e secretária nacional de Finanças da sigla - teve o triplo de
gastos: R$ 1,8 milhão. Uma das dirigentes mais influentes do PT, conquistou 130
mil votos.
Apesar do crescimento da bancada dos
“influencers”, a velha política não deixou de dar as cartas. Sem o desempenho
dos concorrentes do campo digital, o líder do PSD, Antônio Brito (BA),
reconhecido pela atuação junto às Santas Casas de Misericórdia, ficou entre os
mais votados pelos baianos, que o reconduziram para o sexto mandato
consecutivo, com mais de 205 mil votos.
Entretanto, a Paraíba é exemplo de como a
política digital - dominada pelo bolsonarismo - ameaça a tradicional. O mais
votado no Estado foi o deputado Cabo Gilberto Silva (PL), reeleito com mais que
o dobro dos votos: com 267 mil votos, ele superou os 126 mil obtidos em 2022.
Tio do governador reeleito Lucas Ribeiro
(PP), Aguinaldo Ribeiro, cacique do PP, ficou em segundo lugar, com 180,7 mil
votos - foram 135 mil no pleito anterior. O presidente da Câmara dos Deputados,
Hugo Motta (Republicanos), ficou em quinto lugar, com 124 mil votos - menos do
que os 158 mil obtidos em 2022.
Cabo Gilberto não tem a influência nem o
traquejo identificados em Hugo Motta, favorito para continuar no cargo em 2027.
Ele pode se reeleger com os votos do Centrão e dos deputados do PL, que o
apoiariam em troca da eleição de Rogério Marinho (PL-RN) para a Presidência do
Senado, apoiado pelo centro.
Também faltam ao bolsonarista a experiência e
o trânsito político de Aguinaldo Ribeiro, relator de pautas complexas como a
reforma tributária, e, atualmente, a Lei de Inteligência Artificial. Mesmo
assim, Cabo Gilberto avançou algumas casas, é o atual líder da oposição na
Câmara.
Outra fórmula da velha política que vem sendo
reeditada foi a eleição de parentes. Prática comum ao campo da direita, também
foi abraçada pela esquerda, e até pelos políticos que se apresentam como “outsiders”.
O governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), se
consagrou na urna junto com irmãos Gleidson e Eduardo, eleitos deputados
federal e estadual, respectivamente.
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