quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Janela para rearranjos das forças de esquerda e direita, por Fernando Exman

Valor Econômico

Nos bastidores, há também uma cobrança para que Lula prestigie novas lideranças locais

Concluída a eleição, esquerda e direita devem passar por processos de reorganização de suas forças políticas. À esquerda, o que se espera é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidere pessoalmente o processo e não repita o “erro” dos últimos quatro anos de não aproveitar o comando do governo central para fortalecer novas lideranças e partidos aliados - não apenas o PT. A avaliação é que, em caso de derrota no domingo (25), a esquerda só voltaria ao poder em um horizonte de longo prazo, o que não ocorreu por muito pouco. Em relação à direita, o desafio é distinto: aproveitar a fuga de Flávio para os Estados Unidos e abrir caminho a uma liderança que não tenha o sobrenome nem dependa do crivo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

No PT, o revés do primeiro turno gerou cobranças para que o partido inicie uma fase de autorreflexão, inclusive realizando uma reforma interna. Alguns dirigentes querem um reforço das estruturas municipais da legenda em todo o país, por exemplo, mas há um debate mais profundo que precisará ser enfrentado. O partido foi criado em 1980, conectado ao sindicalismo e a setores da Igreja Católica, como as Comunidades Eclesiais de Base, a Teologia da Libertação e pastorais sociais. Igreja e classe trabalhadora são estruturas sociais “parrudas”, nas palavras de um aliado de Lula, mas que enfrentam intensas mudanças desde então.

O eleitorado religioso mudou. Houve um fortalecimento das lideranças evangélicas, que têm demonstrado capacidade de mobilização para reduzir a abstenção desse segmento da população e direcionar votos majoritariamente para a direita. PT e Lula pensaram para as eleições deste ano uma nova estratégia para se aproximar dos evangélicos, mas no fim das contas aproveitaram uma polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida para atacar a candidatura adversária.

Outra aposta de Lula foi a aprovação da emenda constitucional que acaba com a escala 6x1. Apesar dos alertas feitos por especialistas para o impacto da PEC na produtividade e na inflação, a proposta avançou e ajudou Lula a dar uma arrancada final no segundo turno. Mas o PT, que surgiu junto com o avanço do novo sindicalismo e as discussões para a fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), permanece tendo dificuldades para criar pontes com os trabalhadores por aplicativo, autônomos e microempreendedores individuais.

Trata-se de uma nova classe de trabalhadores. Há tempos pesquisas de opinião que circulam no governo e na iniciativa privada mostram uma maior identificação dos trabalhadores por aplicativo com a oposição: em 2022, a regulamentação da atividade chegou a ser um tema da campanha e o governo Lula até tentou avançar com a discussão no Congresso mais recentemente, porém o projeto empacou.

Em outra frente, contudo, o Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte anunciou durante a campanha um conjunto de medidas que pode alcançar cerca de 17,6 milhões de microempreendedores individuais em todo o país. O pacote prevê o perdão de dívidas, a ampliação do limite de faturamento para se enquadrar no regime tributário especial, a permissão de contratação de mais funcionários e a concessão de até R$ 5 mil para investimentos.

Minoritária no Congresso e com menos governadores eleitos, a esquerda precisará rever a estratégia para as próximas eleições parlamentares. Muitos deputados federais do PT que se reelegeram perderam votos, em relação à disputa de 2022. Além disso, PDT, Psol e Rede não passaram a cláusula de barreira. Sem acesso ao fundo partidário e a tempo de televisão, terão dificuldades para funcionar. A criação de uma grande federação pode ser uma saída.

Nos bastidores, há também uma cobrança para que Lula prestigie novas lideranças locais - e não apenas as que podem sucedê-lo como candidato a presidente da República, em 2030. O Distrito Federal é citado como exemplo: o candidato do PT ao governo, Leandro Grass, foi nomeado para a presidência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e passou o terceiro mandato com poucas ferramentas para se projetar. Perdeu para Celina Leão (PP) por 57,18% a 42,82%.

A direita perdeu a Presidência, mas encerra 2026 com capital eleitoral robusto. O senador Flávio Bolsonaro (PL) obteve 59.826.041 votos no segundo turno - um número que demonstra a disposição de uma parcela relevante do eleitorado em apoiar qualquer um que esteja no campo oposto ao PT.

A direita também elegeu bancadas fortes no Senado e na Câmara dos Deputados, além de diversos governadores. Possui um número considerável de prefeitos, vereadores e deputados estaduais, e isso sem falar no fato de contar com os políticos mais populares em Estados estratégicos: o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo, e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo.

O PL elegeu, proporcionalmente, os deputados federais mais bem votados em Minas Gerais, Espírito Santo, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo e Ceará. Republicanos, PL e PP governarão, juntos, Estados que somam 64,4% do eleitorado brasileiro.

Flávio pode até dizer que saiu do país por supostamente ser um perseguido político e, agora, irá guiar a oposição do “exílio”. No entanto, sua fuga representa uma oportunidade única para que lideranças e eleitores de direita construam um caminho próprio, independente do clã Bolsonaro.

 

 

 

Um comentário:

  1. Muito bom! Sobram poucos bolsonaros viáveis... O Brasil está melhorando!

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