Petista dobrou a aposta na “economia do afeto”:
anunciou um Desenrola para os microempreendedores e que ainda dará um Pix de R$
5 mil para compra de equipamentos
O prussiano Carl von Clausewitz (1780-1831) tornou-se célebre sobretudo por
explicar a lógica dos conflitos. Militar desde os 12 anos, enfrentou as forças
napoleônicas, serviu no Exército russo, na batalha de Borodino, e participou da
campanha de Waterloo, combatendo em Wavre. Morreu de cólera e deixou os
manuscritos de Da Guerra, publicados por sua mulher, Marie von Brühl. “A guerra
como continuação da política por outros meios”, seu conceito mais conhecido,
subordina a ação militar ao objetivo político.
Clausewitz compreendeu que superioridade material não assegura vitória. Moral,
capacidade de comando, concentração de forças e acontecimentos imprevistos
podem mudar uma batalha. A estratégia exige identificar o centro de gravidade
do adversário: aquilo que sustenta sua capacidade de resistir.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Lula faz “guerra de movimento” enquanto Flávio aposta na “guerra de posições”, por Luiz Carlos Azedo
Neste segundo turno, essa reflexão ajuda a compreender como o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, que disputa a reeleição, e Flávio Bolsonaro, que chegou à
frente no primeiro turno, procuram explorar vulnerabilidades e recuperar ou
manter a iniciativa política.
O jornalista e pensador marxista Antonio Gramsci (1891-1937) fez o caminho
inverso, ao transportar conceitos militares para a disputa política. Preso pelo
fascismo, nos Cadernos do Cárcere elaborou conceitos de poder político que
combinam coerção e consentimento. Segundo ele, nas sociedades ocidentais,
partidos, igrejas, associações e instituições culturais constituem defesas
profundas da ordem social. Por isso, como estamos vendo agora, a conquista do
governo não basta para ter a direção da sociedade.
No conceito gramsciano, a guerra de movimento é a ofensiva política direta,
enquanto a guerra de posições é a disputa prolongada por organização, alianças
e hegemonia. Não se trata de fazer passeatas ou jogar parado. Por analogia, no
segundo turno, Lula tenta modificar rapidamente a dinâmica eleitoral, enquanto
Flávio procura consolidar as vantagens políticas e sociais que o levaram à
dianteira. Ambos combinam movimento e posição, mas com prioridades diferentes.
O resultado do primeiro turno impôs ao presidente a necessidade de sair da
defensiva. Flávio obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O
petista precisou romper a impressão de derrota antecipada, reanimar sua base e
busca alcançar eleitores que não escolheram nenhum dos finalistas. Seu
adversário pretende transformar a vantagem inicial em maioria de votos válidos
e evitar um julgamento dos riscos de seu próprio programa.
A retomada das ruas é parte da ofensiva de Lula. A manifestação na Avenida
Paulista, no domingo, e o ato em Copacabana, na segunda-feira, acompanhado de
mobilizações em outras cidades, devolveu ao petista a força das ruas. Essa
mobilização produz imagens para as redes e estimula conversas fora dos círculos
partidários. A aposta é transformar entusiasmo em comparecimento e persuasão.
Multidões reunidas, porém, por si mesmas, não medem a transferência de votos.
Conflito de mensagens
A pesquisa PoderData/Aya, divulgada ontem, oferece um sinal favorável a Lula: o
presidente passou de 47% para 49% dos votos válidos, enquanto Flávio recuou de
53% para 51%. A distância caiu de seis para dois pontos percentuais. A pesquisa
ouviu 3 mil eleitores, entre 10 e 12 de outubro, com margem de erro de 1,8
ponto. A reação é compatível com a retomada da iniciativa petista, mas
atribuí-la somente às manifestações seria precipitado. As entrevistas ocorreram
durante os atos.
A Nexus, realizada no mesmo período, registra Flávio com 52% e Lula com 48% dos
votos válidos. Ouviu 2.002 eleitores, com margem de dois pontos. Mais revelador
é que 92% declaram ter decidido o voto e apenas 7% admitem mudar. Como esta é a
primeira rodada da Nexus depois do primeiro turno, ela não oferece uma
comparação equivalente à da PoderData. A diferença entre os institutos não
comprova que um captou o efeito das ruas e o outro deixou de percebê-lo.
Flávio pretende consolidar suas posições ao adotar como estratégia de campanha
a “guerra de posições”, com apoio de governadores, prefeitos e estruturas
locais de poder. O encontro em São Paulo com Tarcísio de Freitas e Ricardo
Nunes ilustra uma campanha orientada a organizar apoios, reduzir abstenções e
disputar indecisos, agora com apoio de aliados eleitos que ficaram neutros no
primeiro turno.
Ao negar que eliminará benefícios sociais ou reajustes do salário mínimo,
Flávio procura impedir que a ofensiva de Lula abra uma brecha entre o eleitor
conservador e o eleitor economicamente vulnerável. Por essa razão, resolveu
apoiar a aprovação do fim da jornada 6 x 1, em votação no Senado. Ontem, Lula
dobrou a aposta na sua “economia do afeto”: anunciou que fara um Desenrola para
os microempreendedores individuais (MEIs) e ainda dará um Pix de R$ 5 mil para
cada um deles comprar equipamentos, a fundo perdido.
No WhatsApp, a disputa está acirrada. O crescimento do Exército do Lula,
organizado por André Janones, levou o bolsonarismo a reagir com a Tropa do
Flávio e ações judiciais. A suspensão do canal petista por Kassio Nunes
Marques, posteriormente revertida, transformou a circulação de mensagens em
batalha institucional. Para Lula, preservar esse instrumento é vital para o
êxito da “guerra de movimento”. Neutralizar essa iniciativa, para Flávio,
porém, desloca o centro da disputa eleitoral para a “guerra de posições”, onde
está em boa vantagem.

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