Valor Econômico
A ideia de que o 2º turno é uma outra eleição foi confirmada por este que se encerra. A dúvida é se o eleitor também terá mudado. É desta mudança que, em grande parte, depende o resultado do domingo.
A mudança nas campanhas foi impulsionada, de
um lado, pela tensão provocada no entorno do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva em decorrência dos 2,2 milhões de votos a mais obtidos pelo adversário em
5 de outubro. E, de outro, pelo conforto suscitado na campanha do senador
Flávio Bolsonaro com a vantagem obtida. A tensão foi produtiva e o conforto,
enganador. Foi isso, em grande parte, que moveu a discreta aproximação nas
trajetórias de ambos nas pesquisas ao longo do 1º turno.
A tensão petista levou à incorporação do senador Camilo Santana (PT-BA) à coordenação de campanha, que acabou agindo como um catalisador das disputas que antagonizaram o ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Sidônio Palmeira, e o presidente do PT, Edinho Silva.
Ex-ministro da Educação, Camilo foi o
comandante da quarta vitória consecutiva de seu partido no governo do Ceará,
com a reeleição, em 1º turno de Elmano de Freitas. O PT da Bahia acumula seis
vitórias consecutivas, mas o envolvimento do senador Jaques Wagner com o banco
Master desaconselhou seu protagonismo neste 2º turno.
Se Edinho foi obrigado a engolir a avaliação
pública de Lula sobre a desorganização do 1º turno, Sidônio enfrentou o freio
de arrumação comandado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) que
promoveu a maior revolução na campanha petista com a criação do canal de
WhatsApp, “Exército de Lula”.
Se alguma dúvida havia sobre os danos
provocados no governo e na campanha pela resistência a ampliar as forças em
torno de Lula, a liderança de Janones a comprovou. Trata-se de um parlamentar
que nunca foi do PT e ingressou na política por um partido amorfo, o Avante, na
esteira da paralisação dos caminhoneiros de 2018, mesmo movimento que lastreou
a ascensão do bolsonarismo.
"A matemática da virada também depende de Lula tirar votos de Flávio” — Jairo Nicolau
Se Camilo enfrentou os dissensos internos do
PT e, com o respaldo de Lula, assumiu, no Senado, a defesa da redução da
maioridade penal para 16 anos em caso de crime hediondo, Janones foi além. Com
seu canal, forneceu um repertório compartilhado para que os jovens voltassem a
ocupar as ruas que a esquerda havia perdido. O espaço ficou cativo da direita
desde as manifestações de 2013, que se desdobraram no movimento que empurrou a
ex-presidente Dilma Rousseff para fora do Palácio do Planalto em 2016. Naquelas
avenidas, foi estendido o tapete vermelho para a ascensão de Jair Bolsonaro em
2018.
O domínio desta narrativa mais agressiva
permitiu que o PT se arvorasse a romper algumas fronteiras como a da redução da
maioridade penal que tirou Lula da defensiva mas não lhe deu estofo para
desafiar Flávio Bolsonaro na votação da PEC da segurança, pelo temor de que a
campanha adversária viesse a dominar o debate.
Nem a adesão do presidente do Senado, Davi
Alcolumbre (União-AP), deu esta garantia, mas assegurou a votação do fim da
jornada 6x1. Em grande parte, porque as urnas do 1º turno derrotaram Alcolumbre
nas eleições locais e colocaram o PL à frente da maior bancada da Casa,
dificultando sua recondução à Mesa caso Flávio Bolsonaro seja eleito.
Não parou por aí. O ritmo de Janones, quase
de sofreguidão, contaminou a pauta do 2º turno. Veio o perdão da dívida dos
microempreendedores individuais, a antecipação da entrada em vigor do reajuste
do Bolsa Família e ainda a PEC para garantir transporte público gratuito nos fins
de semana. Como a cesta de benefícios se aproxima dos R$ 300 bilhões, o governo
achou por bem anunciar que os recursos desta derradeira benesse viriam de
remanejamentos e emendas parlamentares.
Os benefícios advindos dessas medidas não
foram capazes de evitar que as mulheres fizessem um movimento surpreendente
numa reta final de migração para o voto indeciso. Por outro lado, as dúvidas
surgidas em relação ao futuro dos programas sociais numa eventual eleição de
Flávio Bolsonaro parecem ter sido o principal motor da elevação do medo da
volta da família ao poder.
A campanha do PL colheu, em grande parte, o
que plantou no início do 1º turno ao sentar na cadeira antes do previsto com a
disputa interna por cargos na Esplanada e, principalmente, com os encontros de
emissários da campanha junto a bancos e consultorias econômicas para detalhar
os planos para um ajuste fiscal de R$ 200 bilhões.
Foi uma arapuca que o PL armou para sua
própria campanha. Os cortes apresentados para se alcançar este volume não
resistiram às contas de economistas independentes, uníssonos em afirmar que,
sem a revisão da política de reajuste real do salário mínimo, a desvinculação
dos benefícios da Previdência daqueles do SM e, ainda, a revisão do teto
constitucional das despesas com saúde e educação, não se alcançaria este
patamar de contenção fiscal. O senador passou a dizer que o otimismo nos
mercados, com sua campanha, derrubariam, numa tacada o ônus dos juros sobre a
dívida pública.
Acossada ainda pelo “Exército do Lula”, a
campanha do PL franqueou mais espaço para empresário e influenciador Pablo
Marçal e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) na estratégia bolsonarista
para as redes sociais e apelou, de maneira mais incisiva, para os ministros do
Tribunal Superior Eleitoral indicados no governo Jair Bolsonaro, Nunes Marques
e André Mendonça.
Nunes Marques, que preside o TSE, tirou do ar
o “Exército do Lula”, contrariando parecer técnico do tribunal, às vésperas da
aprovação do fim da jornada 6x1. Cobrou registro do canal na campanha petista,
exigência que não havia sido feita ao congênere, “Tropa do Flávio”. A investida
não impediu que o canal se refizesse e já tenha superado a marca de 8 milhões
de seguidores. Em grande parte porque se configurou, em torno de Lula, a aura
de perseguido pelo “sistema”, que fazia a festa do bolsonarismo.
Na última semana, foi a vez de Mendonça
propor uma minuta equiparando o canal às regras de impulsionamento e
estendendo-lhe a vedação para as 48 horas que antecedem a eleição e às 24 horas
que sucedem. O partidarismo da iniciativa ficou patente e a minuta acabou
abortada. Ultrapassou uma fronteira que ainda não foi comprovada nem mesmo para
a atuação da Meta que admitiu, formalmente, um prejuízo maior para a campanha
de Lula decorrente de falhas no impulsionamento. A empresa atribuiu o percalço
a problemas técnicos e não à partidarização na atuação de suas redes sociais
(Facebook, Instagram e WhatsApp).
O embate nas 48 horas que antecedem a votação
se dará em duas frentes: a abertura de sigilo e o debate da TV Globo na sexta.
A abertura de sigilo não se restringe àquela proposta por Lula para ser
entregue por ambos candidatos ao TSE mas também àquela que paira como uma
ameaça sobre o candidato do PL como decorrência dos desdobramentos do inquérito
que investiga o advogado Willer Tomaz e o próprio senador por suposta lavagem
de dinheiro envolvendo casas de apostas.
É no debate que as arengas derradeiras vão
desaguar. A retirada de cena de Marçal sugere que a postura agressiva de Flávio
Bolsonaro foi reprovada pelo eleitor. Os grupos focais mostraram que o litígio
não rende voto, levando ambos os candidatos a um embate mais propositivo.
Parece até inverossímil que a campanha mais acirrada da história seja concluída
pela tentativa de ambos de convencer o eleitor de que é seu governo que vai
melhorar sua vida.
Repousa sobre as últimas 48 horas a pergunta
sobre a viabilidade deste 2º turno vir a virar a vantagem registrada por Flávio
Bolsonaro no primeiro. Jairo Nicolau, o pesquisador brasileiro com maior
quilometragem em eleições, fez todas as simulações possíveis em torno da
redução da alienação eleitoral, aí incluídos a abstenção e os votos em branco e
nulos. Chegou à conclusão de que a matemática da virada depende também de Lula
ser capaz de tirar votos do adversário, desafiando a polarização extremada das
últimas décadas.

Excelente análise! Parabéns à colunista, e obrigado ao blog por divulgar seu trabalho!
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