sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Lula e o desafio de sua vida, por Vera Magalhães

O Globo

Se conseguir operar a virada inédita, presidente terá diante de si um Congresso mais hostil que o atual

Muito já se cantou, em prosa e verso, quanto Luiz Inácio Lula da Silva subverteu as probabilidades para descrever uma trajetória biográfica e política inédita na História brasileira: primeiro retirante a virar o maior líder sindical do país e a fundar um partido; primeiro líder oriundo das classes populares a, tendo perdido três disputas presidenciais, se tornar presidente; primeiro a ocupar a Presidência três vezes pelo voto, a terceira delas depois de ter sido condenado e preso por corrupção.

Agora, ele se vê diante da circunstância de tentar ser o primeiro incumbente a passar ao segundo turno de uma eleição presidencial em desvantagem no placar, precisando operar uma virada épica, conquistando votos não só de quem se absteve ou votou branco e nulo, mas também de eleitores do adversário, para se reeleger.

A alternativa a isso, probabilisticamente mais provável, diga-se, é encerrar sua carreira política aos 80 anos tendo sido derrotado pelo filho de um ex-presidente condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, apontado por um “dedaço” do pai e com índice de rejeição comparável ao seu. Um fim melancólico para quem chegou a ver em Flávio Bolsonaro o oponente dos sonhos para a sétima disputa presidencial.

Se conseguir operar a virada inédita, terá diante de si um Congresso mais hostil que o atual, que lhe ofertará governabilidade ainda mais acidentada, além da oposição de amplos setores da economia, que fecharam com Flávio a despeito das múltiplas evidências de casos de corrupção, do histórico de retrocessos e instabilidade do governo do pai, da promessa de embates institucionais ferrenhos e das ambiguidades de sua agenda econômica.

Terá, portanto, de fazer todas as concessões que prometeu em 2022 e nunca entregou ao centro político e aos agentes econômicos, se não quiser estrear o sétimo mandato numa crise semelhante à enfrentada por sua pupila Dilma Rousseff em 2015 e 2016.

O chacoalhão que sofreu ao ser suplantado por Flávio no primeiro turno parece ter mexido com a soberba de quem não achava necessário fazer campanha, se dedicar à comunicação digital, dialogar com os novos empreendedores (ou aspirantes a empreendedores) ou com a centro-direita.

Graças à mobilização deste segundo turno quente, ganhará um reforço de peso para governar, que fez muito pouco para merecer: a juventude de esquerda de volta às ruas e às redes. Tanto a faixa etária quanto os dois ambientes haviam virado monopólio da direita e da extrema direita, e o susto tomado com a cara radical do Congresso parece ter feito a esquerda acordar da letargia.

Caso, ao contrário, se confirme o favoritismo de Flávio, para o que o candidato do PL praticamente precisa apenas não errar nestes últimos três dias, uma vez que nem as revelações mais cabeludas parecem causar estragos na sua intenção de votos, será uma derrota deprimente para alguém que renasceu tantas vezes das cinzas e um baque que forçará o PT e a esquerda não petista a operar na escassez a renovação que seu líder supremo deliberadamente adiou.

Ela será urgente para evitar que haja desmobilização dos “exércitos” que foram às ruas e às redes exigir nenhum direito a menos e a defesa da democracia. Isso porque Flávio contará com um poderio jamais concedido pelo voto democrático a um só grupo político — mais especificamente, a uma mesma família.

Só uma oposição permanentemente mobilizada e uma imprensa vigilante poderão cobrar que as demais instituições — Polícia Federal, Forças Armadas, Ministério Público, agências reguladoras e Judiciário — não cedam à tentação fácil da adesão acrítica a tamanho poder e à já demonstrada, em discursos e promessas, sede de revanche diante daqueles que contiveram Bolsonaro em seu governo.

Não haverá, portanto, tempo para lamber as feridas. Lula precisará reconhecer a derrota e sua parcela de culpa por ela, sem as terceirizações de praxe, e finalmente passar o bastão à nova geração da esquerda e do centro praticamente extinto desde 2016.

 

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