O Globo
A perda da democracia rondou a campanha de
2026. Para não ver o perigo seria preciso esquecer a história recente do país
A frase de Flávio Bolsonaro parecia ter sido treinada na preparação do candidato e não um chiste que saiu no calor do debate. Era isso mesmo que ele queria dizer. Quando falou dos nove dedos do presidente Lula, a plateia que ele levou ao debate riu. O candidato queria humilhar Lula, mas, na verdade, revelou quem é e no que acredita. É a exaltação da cultura que machuca quem tem alguma limitação física, que exalta apenas os fortes, os definidos como “normais”. A cultura que exclui e espalha cicatrizes em crianças tratadas com desprezo nas escolas, por qualquer diferença que tenha em relação ao padrão dominante. A perversidade que fere milhões e que precisou de uma palavra em inglês para ser definida. É o “bullying”.
Os nove dedos não definem Lula. Lembram que,
sem a proteção das leis e dos equipamentos adequados, o mundo do trabalho
produz mutilações. O que define Lula é sua trajetória vitoriosa, da pobreza à
presidência. Mas a fala de Flávio Bolsonaro esta, sim, o define. Em novembro de
2015, durante campanha eleitoral, na Carolina do Sul, o presidente Donald Trump
debochou do jornalista Serge Kovaleski, imitando seus movimentos afetados por
uma condição congênita que atinge as articulações. Parecem fatos diferentes,
mas têm a mesma matriz, o desprezo pelo outro e a arrogância dos que se sentem
superiores por achar que não têm limitações. Isso não é aceitável. Isso não é
cristão.
O candidato Flávio Bolsonaro está a um passo
da presidência. Se ele vencer, com que valores governará? Em outro momento
revelador, ele chamou Cristiane de Ana Clara. Ana Clara é a menina morta.
Cristiane, a mãe que estava ali na plateia. As mortes de inocentes por
policiais que entram atirando nas periferias são uma chaga nacional. Flávio tem
tido sucesso na defesa do policial acusado de ter atirado. “Ele conseguiu
anular duas vezes o júri só este ano”, contou Cristiane. O que revela essa
troca de nomes é que ele sequer leu com atenção a causa que defendeu, do
contrário saberia o nome da vítima. O ex-presidente Jair
Bolsonaro defendia o excludente de ilicitude. Os policiais que cometem
crime nem responderiam pelos seus atos, se isso tivesse sido aprovado. Não é,
portanto, uma falha, uma simples troca de nomes, é uma escolha já feita pelo
grupo político ao qual Flávio pertence.
Se olharmos a economia, e se formos tomar
como verdade o que os candidatos prometeram, nenhum dos dois está olhando com
seriedade a necessidade de equilíbrio nas contas públicas. A cada promessa ou
ato de Lula, o candidato Flávio Bolsonaro diz que fará o mesmo e vai até além.
A confiança que os operadores do mercado financeiro depositam em Flávio está
baseada no que ouviram dele e de seus assessores. É uma candidatura de duas
falas na área econômica. Uma a portas fechadas, outra para os eleitores.
O equilíbrio das contas públicas não é um
capricho do mercado, uma ortodoxia dos economistas. É a base de uma economia
saudável, indispensável para uma política social de inclusão e de combate às
desigualdades. Vimos a hiperinflação. Ela empobrecia os pobres e engordava a
remuneração das aplicações financeiras. A estabilidade é o único ambiente
saudável para qualquer economia. E foi conquista da democracia. Todo o projeto
de inclusão que veio depois é tributário dessa escolha do país de trazer a
inflação de 5.000% ao ano para 5%. Num livro que escrevi eu chamei de “saga
brasileira” essa travessia atrás de uma moeda estável. E defini assim porque vi
como foram intensas as batalhas que nos trouxeram a uma inflação controlada.
Portanto, não é possível ser descuidado com esse legado.
Mas o que realmente rondou o país durante
toda essa campanha eleitoral foi o risco da perda de um bem muito maior: a
democracia. Seria preciso ignorar a história recentíssima do país para achar
que esse perigo não existe. Seria preciso esquecer também a história mais
antiga que marcou a minha geração. Num 25 de outubro, no II Exército, morreu
sob tortura Vladimir Herzog. Seria preciso não lembrar o alerta de Ulysses:
“conhecemos o caminho maldito”. A democracia sempre foi e sempre será o mais
vulnerável dos regimes porque está aberta a todos, até aos seus inimigos. Mas
ela não se esgota no ato de votar. A democracia inclui e acolhe. Ela aponta
numa única direção: o respeito a todas as pessoas, independentemente das muitas
diferenças. Esse é o seu marco civilizatório.

Não devemos criminalizar o exercício da democracia. A democracia esteve ameaçada com o mensalão, petrolao e o abusos de alguns ministros do STF. Foi Lula que recebeu maduro com tapete vermelho e prestigiou o regime do irá, ortega e cuba. Luiz Roberto
ResponderExcluirNão devemos criminalizar o exercício da advocacia l. Luiz Roberto
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