segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Mulheres que querem voltar ao passado fazem barulho na política, por Ana Paula Araújo

O Globo

Antifeministas capturaram um movimento crescente, em que ‘influencers’ romantizam a dependência de marido

Meu único tio por parte de mãe fumou a vida inteira. Eu me dei conta do risco que ele corria quando tinha uns 7 anos e fizeram uma campanha antitabagismo na escola. Recolhi todos os panfletos e cheguei assertiva despejando a papelada em cima do meu tio querido, discorrendo sobre os males do cigarro e exigindo que ele parasse de fumar. Ele me ouviu com paciência, agradeceu, mas não pestanejou:

— Meu amor, se eu não puder viver do jeito que eu quero, de que adianta?

A pergunta dele me deixou com outras, que me acompanham até hoje, nas mais variadas situações. Admiro quem banca os próprios desejos e se dispõe a assumir os efeitos colaterais. Mas como discernir entre coragem e inconsequência? Quando o livre-arbítrio se transforma em autoengano? O que estou disposta a sacrificar?

O movimento de mulheres que querem voltar ao passado chegou fazendo barulho na política. Discursos retrógrados ganharam enxurradas de votos. Uma deputada eleita em São Paulo defende que feminicídio não existe e que é natural, até desejável, que homens sejam agressivos. Outra comemorou a reeleição de chicote em punho pelas ruas de Santa Catarina. Vejo isso e também quero voltar ao passado, mas um mais recente, em que pessoas públicas tinham um pouco mais de pudor em defender abertamente a violência.

As candidatas antifeministas capturaram um movimento crescente nas redes sociais, em que influencers romantizam a dependência de marido e pregam a submissão da mulher. A contradição é evidente: se acreditam que a existência da mulher deveria se restringir à vida privada, não deveriam buscar a vida pública. Mas o que me intriga é o outro lado. O que pensam as eleitoras que escolhem representantes com essa mentalidade?

Perguntei à doutora em sociologia e pesquisadora de antifeminismos Camila Galetti o que leva mulheres a cogitar abrir mão dos próprios direitos. A resposta passa por busca de identidade e pertencimento. Ser mulher não implica automaticamente ter consciência das dificuldades enfrentadas por todas nós por causa da desigualdade entre os gêneros. As antifeministas tratam essas desigualdades como algo natural, com papéis a ser desempenhados só por homens, outros só por mulheres. E vendem a ideia de que há mais segurança dentro dessa ordem social. Num país em que mulheres estão à frente da maioria dos lares e a sobrevivência depende da independência delas, é um discurso descolado da realidade. Mas capaz de conquistar muitas que estão exaustas pelas múltiplas jornadas de trabalho, se desdobrando entre empregos mal pagos, tarefas domésticas e cuidados com a família.

Do outro lado do espectro político, a campeã de votos em Minas Gerais, deputada Ana Elisa, ressaltou em entrevista à GloboNews a hipocrisia de candidatas que se dizem contra o voto feminino, mas têm título de eleitor. Desestimulam a entrada de outras mulheres na política enquanto recebem salário pago com dinheiro público e têm acesso a verbas de emendas parlamentares. A socióloga Camila lembra ainda que, no exercício de seus mandatos, elas também sofrem com a violência de gênero que dizem não existir. E, quando decidem denunciar e mudar a narrativa, dificilmente se reelegem.

Quem ocupa cargos públicos ganha o poder de interferir na vida de todos e de todas. Nossas escolhas individuais têm efeitos coletivos. De que jeito queremos viver?

 

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