O Globo
Antifeministas capturaram um movimento
crescente, em que ‘influencers’ romantizam a dependência de marido
Meu único tio por parte de mãe fumou a vida
inteira. Eu me dei conta do risco que ele corria quando tinha uns 7 anos e
fizeram uma campanha antitabagismo na escola. Recolhi todos os panfletos e
cheguei assertiva despejando a papelada em cima do meu tio querido, discorrendo
sobre os males do cigarro e exigindo que ele parasse de fumar. Ele me ouviu com
paciência, agradeceu, mas não pestanejou:
— Meu amor, se eu não puder viver do jeito
que eu quero, de que adianta?
A pergunta dele me deixou com outras, que me acompanham até hoje, nas mais variadas situações. Admiro quem banca os próprios desejos e se dispõe a assumir os efeitos colaterais. Mas como discernir entre coragem e inconsequência? Quando o livre-arbítrio se transforma em autoengano? O que estou disposta a sacrificar?
O movimento de mulheres que querem voltar ao
passado chegou fazendo barulho na política. Discursos retrógrados ganharam
enxurradas de votos. Uma deputada eleita em São Paulo defende que feminicídio
não existe e que é natural, até desejável, que homens sejam agressivos. Outra
comemorou a reeleição de chicote em punho pelas ruas de Santa Catarina. Vejo
isso e também quero voltar ao passado, mas um mais recente, em que pessoas
públicas tinham um pouco mais de pudor em defender abertamente a violência.
As candidatas antifeministas capturaram um
movimento crescente nas redes sociais, em que influencers romantizam a
dependência de marido e pregam a submissão da mulher. A contradição é evidente:
se acreditam que a existência da mulher deveria se restringir à vida privada,
não deveriam buscar a vida pública. Mas o que me intriga é o outro lado. O que
pensam as eleitoras que escolhem representantes com essa mentalidade?
Perguntei à doutora em sociologia e
pesquisadora de antifeminismos Camila Galetti o que leva mulheres a cogitar
abrir mão dos próprios direitos. A resposta passa por busca de identidade e
pertencimento. Ser mulher não implica automaticamente ter consciência das
dificuldades enfrentadas por todas nós por causa da desigualdade entre os
gêneros. As antifeministas tratam essas desigualdades como algo natural, com
papéis a ser desempenhados só por homens, outros só por mulheres. E vendem a
ideia de que há mais segurança dentro dessa ordem social. Num país em que
mulheres estão à frente da maioria dos lares e a sobrevivência depende da
independência delas, é um discurso descolado da realidade. Mas capaz de
conquistar muitas que estão exaustas pelas múltiplas jornadas de trabalho, se
desdobrando entre empregos mal pagos, tarefas domésticas e cuidados com a
família.
Do outro lado do espectro político, a campeã
de votos em Minas Gerais, deputada Ana Elisa, ressaltou em entrevista à
GloboNews a hipocrisia de candidatas que se dizem contra o voto feminino, mas
têm título de eleitor. Desestimulam a entrada de outras mulheres na política
enquanto recebem salário pago com dinheiro público e têm acesso a verbas de
emendas parlamentares. A socióloga Camila lembra ainda que, no exercício de
seus mandatos, elas também sofrem com a violência de gênero que dizem não
existir. E, quando decidem denunciar e mudar a narrativa, dificilmente se
reelegem.
Quem ocupa cargos públicos ganha o poder de
interferir na vida de todos e de todas. Nossas escolhas individuais têm efeitos
coletivos. De que jeito queremos viver?

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