quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Nada decidido até o eleitor falar, por Míriam Leitão

O Globo

A 17 dias da eleição, nada está definido. A distância não é grande, há vantagens para Flávio Bolsonaro e possibilidades para o Lula

O país viverá os próximos 17 dias em emoção na intensidade máxima. A eleição não acabou, nem está definida, até porque o eleitor faz o que quer com o voto. O que tenho ouvido de especialistas é que a distância não é grande, há vantagens para Flávio Bolsonaro e possibilidades para o presidente Lula. Para além dos cálculos dos políticos, há uma dúvida mais aguda: quais são as intenções de Flávio Bolsonaro em relação à democracia? A fala dele sobre usar a maioria conservadora e mudar a Constituição para “redemocratizar o país”, assustou. E assustou exatamente por ele ser quem é e filho de quem é.

O ministro Celso de Mello considerou “grave e inquietante” a declaração do candidato. “A sociedade tem o direito de conhecer o alcance do projeto”. Em mensagem que me enviou, o ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal, conhecido por seu saber jurídico, disse que “causa estranheza a promessa de ‘redemocratizar’ o Brasil, na medida em que nosso país vive, plenamente, sob regime democrático, com eleições competitivas, pluralismo político, oposição legítima e liberdade de crítica”. Ontem, Flávio tentou atenuar o que tinha dito. Disse que se referia a mudanças no Judiciário, maioridade penal e reforma tributária. Mas a dúvida permanece porque evidentemente, se fosse apenas uma PEC, ele não usaria a expressão “redemocratizar".

A campanha de Flávio Bolsonaro já se considera vitoriosa. Um observador do mundo político avalia que o otimismo tem ajudado a campanha bolsonarista porque deu ânimo e estímulo. Na campanha do presidente Lula, é preciso superar o desânimo inicial, que ficou estampado na primeira foto após o resultado, ter mais engajamento e mudanças de tom.

– Não acho pouco tempo para virar, existe caminho, precisa acertar na campanha. A diferença é pequena, se virar 1%, empatou. Porém, Lula precisa mudar o discurso, porque está com o discurso errado — disse esse observador.

Sobre a necessidade de um sinal para o centro, o que eu ouvi de um interlocutor é que, quando Lula se elegeu a primeira vez, tinha como vice o empresário José Alencar, que na época era do PL. O próprio PL era centro e não de extrema direita como agora. Depois, a presidente Dilma se elegeu com um vice-presidente do MDB, que também representava o centro. Na terceira vez, a aposta foi em Geraldo Alckmin por ter boa articulação no setor produtivo, mesmo após mudar do PSDB para o PSB. Mas a avaliação é que, durante o mandato, Lula não fez gestos para quem o apoiou na campanha de 2022. Na área econômica e fiscal, Lula teve, nos outros mandatos, pessoas como o então ministro Antonio Palocci e o presidente do Banco Central Henrique Meirelles para modular o discurso e controlar as medidas fiscais.

O mercado financeiro está dando um cheque em branco ao candidato Flávio Bolsonaro, aceitando pela fé, sem qualquer materialidade, que ele fará um ajuste fiscal. O candidato não se comprometeu com coisa alguma. Fez declarações vagas e anedóticas como “vou dar uma tesourada”, ou diminuir impostos sem dizer quais, cortar gastos sem especificar onde.

Na campanha de Lula já se vê algumas mudanças. Uma delas foi chamar os jovens digitais para “disputar a juventude”, como define Ana Elisa, deputada eleita por Minas Gerais. É preciso falar com todos os públicos, os eleitores que se distanciaram por raiva ou decepção, e que podem voltar. Os que não foram votar. O próprio Lula terá muito a fazer.

Flávio tem a seu favor a vantagem de ter chegado na frente na disputa do primeiro turno e ter recebido apoio dos derrotados. Mas Romeu Zema é um candidato que foi rejeitado até em Minas Gerais e terminou com quase traço. Ronaldo Caiado é um apoio pessoal, o PSD permanece neutro. O apoio do centrão é uma faca de dois gumes. Afinal, Flávio, que já está pessoalmente envolvido com casos de corrupção, terá ao seu lado políticos como Antonio Rueda, Ciro Nogueira e outros igualmente enrolados.

Lula tem contra si o peso da crise de imagem do STF, da qual ele tenta se afastar, só que não tem conseguido. Flávio Bolsonaro tem contra si o fato de que ele e sua família defenderam em inúmeras ocasiões o AI-5, a ditadura militar, a tortura, enalteceram o mais notório dos torturadores e, indo das palavras à ação, Jair Bolsonaro tentou um golpe de Estado. Agora, Flávio Bolsonaro fala em mudar a Constituição para “redemocratizar o Brasil”. Antes de seguir, é preciso pedir ao candidato que defina democracia.

 

Um comentário: