O Globo
A 17 dias da eleição, nada está definido. A distância não é grande, há vantagens para Flávio Bolsonaro e possibilidades para o Lula
O país viverá os próximos 17 dias em emoção na intensidade máxima. A eleição não acabou, nem está definida, até porque o eleitor faz o que quer com o voto. O que tenho ouvido de especialistas é que a distância não é grande, há vantagens para Flávio Bolsonaro e possibilidades para o presidente Lula. Para além dos cálculos dos políticos, há uma dúvida mais aguda: quais são as intenções de Flávio Bolsonaro em relação à democracia? A fala dele sobre usar a maioria conservadora e mudar a Constituição para “redemocratizar o país”, assustou. E assustou exatamente por ele ser quem é e filho de quem é.
O ministro Celso de Mello considerou “grave e
inquietante” a declaração do candidato. “A sociedade tem o direito de conhecer
o alcance do projeto”. Em mensagem que me enviou, o ministro aposentado do
Supremo Tribunal Federal, conhecido por seu saber jurídico, disse que “causa
estranheza a promessa de ‘redemocratizar’ o Brasil, na medida em que nosso país
vive, plenamente, sob regime democrático, com eleições competitivas, pluralismo
político, oposição legítima e liberdade de crítica”. Ontem, Flávio tentou
atenuar o que tinha dito. Disse que se referia a mudanças no Judiciário, maioridade
penal e reforma tributária. Mas a dúvida permanece porque evidentemente, se
fosse apenas uma PEC, ele não usaria a expressão “redemocratizar".
A campanha de Flávio Bolsonaro já se
considera vitoriosa. Um observador do mundo político avalia que o otimismo tem
ajudado a campanha bolsonarista porque deu ânimo e estímulo. Na campanha do
presidente Lula, é preciso superar o desânimo inicial, que ficou estampado na
primeira foto após o resultado, ter mais engajamento e mudanças de tom.
– Não acho pouco tempo para virar, existe
caminho, precisa acertar na campanha. A diferença é pequena, se virar 1%,
empatou. Porém, Lula precisa mudar o discurso, porque está com o discurso
errado — disse esse observador.
Sobre a necessidade de um sinal para o
centro, o que eu ouvi de um interlocutor é que, quando Lula se elegeu a
primeira vez, tinha como vice o empresário José Alencar, que na época era do
PL. O próprio PL era centro e não de extrema direita como agora. Depois, a
presidente Dilma se elegeu com um vice-presidente do MDB, que também
representava o centro. Na terceira vez, a aposta foi em Geraldo Alckmin por ter
boa articulação no setor produtivo, mesmo após mudar do PSDB para o PSB. Mas a
avaliação é que, durante o mandato, Lula não fez gestos para quem o apoiou na
campanha de 2022. Na área econômica e fiscal, Lula teve, nos outros mandatos,
pessoas como o então ministro Antonio Palocci e o presidente do Banco Central
Henrique Meirelles para modular o discurso e controlar as medidas fiscais.
O mercado financeiro está dando um cheque em
branco ao candidato Flávio Bolsonaro, aceitando pela fé, sem qualquer
materialidade, que ele fará um ajuste fiscal. O candidato não se comprometeu
com coisa alguma. Fez declarações vagas e anedóticas como “vou dar uma
tesourada”, ou diminuir impostos sem dizer quais, cortar gastos sem especificar
onde.
Na campanha de Lula já se vê algumas
mudanças. Uma delas foi chamar os jovens digitais para “disputar a juventude”,
como define Ana Elisa, deputada eleita por Minas Gerais. É preciso falar com
todos os públicos, os eleitores que se distanciaram por raiva ou decepção, e
que podem voltar. Os que não foram votar. O próprio Lula terá muito a fazer.
Flávio tem a seu favor a vantagem de ter
chegado na frente na disputa do primeiro turno e ter recebido apoio dos
derrotados. Mas Romeu Zema
é um candidato que foi rejeitado até em Minas Gerais e terminou com quase
traço. Ronaldo
Caiado é um apoio pessoal, o PSD permanece neutro. O apoio do
centrão é uma faca de dois gumes. Afinal, Flávio, que já está pessoalmente
envolvido com casos de corrupção, terá ao seu lado políticos como Antonio
Rueda, Ciro Nogueira
e outros igualmente enrolados.
Lula tem contra si o peso da crise de imagem
do STF, da qual ele tenta se afastar, só que não tem conseguido. Flávio
Bolsonaro tem contra si o fato de que ele e sua família defenderam em inúmeras
ocasiões o AI-5, a ditadura militar, a tortura, enalteceram o mais notório dos
torturadores e, indo das palavras à ação, Jair
Bolsonaro tentou um golpe de Estado. Agora, Flávio Bolsonaro fala em
mudar a Constituição para “redemocratizar o Brasil”. Antes de seguir, é preciso
pedir ao candidato que defina democracia.

Amo a esquerda e a direita,somos todos irmãos,fiquem na paz.
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