Folha de S. Paulo
A democracia tem que saber em que acredita; e
dizê-lo
Se não dermos sentidos para o progresso e até
para a humanidade, não teremos vidas que valham a pena ser vividas
"Estamos fartos", diz um dos participantes nos protestos estudantis em França. "Não há futuro para nós", diz outro. As mesmas frases poderiam ser ditas —e foram— sobre outros protestos e revoltas na história; as mesmas frases têm sido usadas para descrever as reações de eleitorados em todo o mundo, a cada vez que uma eleição corre como não era previsto. Não é impossível que os protestos deste ano na França acabem por ajudar à eleição de Marine Le Pen no próximo ano. Mas será que o lugar-comum faz sentido?
A sensação de que "nada acontece"
tem sido usada como justificativa para uma tendência aceleracionista em
política, principalmente à direita, mas não só, na tentativa de provocar uma
transformação política e social extremada, qualquer que ela seja.
Mas olhem o mundo à nossa volta: alguém pode
dizer verdadeiramente que nada acontece? Temos várias guerras em simultâneo,
limpeza étnica e (por mais que alguns tentem evitar vê-lo) políticos que
aceitam ou até promovem ideias de limpeza étnica e genocídio, da Ucrânia
a Gaza.
O avanço tecnológico, em particular no campo
da inteligência artificial, é de natureza exponencial. Tivemos pandemias,
resultados inesperados em eleições e referendos, crises financeiras, golpes de
Estado. Alguém pode seriamente dizer que está aborrecido porque nada acontece?
O aborrecimento pode ser genuíno, mas a razão
tem de ser outra. E o mesmo se pode dizer desta sensação de "falta de
futuro". Na verdade, nunca os futuros foram tantos e tão divergentes: da
superabundância tecnológica ao colapso ecológico, do fim do trabalho à
sociedade em rede, escolha não falta. Mas a sensação de falta de futuro é real,
e não basta dizer a estes jovens: por que não se empenham numa destas versões
do futuro desejável e lutam por ela?
A questão não é, portanto, a da falta. Nem
falta de acontecimentos, nem falta de futuros possíveis. Mais plausível dizer
que vivemos num problema de excesso: excesso de acontecimentos dramáticos e
excesso de possibilidades de futuro, gerando confusão e pânico.
O problema é outro: o da falta de sentidos.
Por duas razões.
A primeira é a da dessensibilização,
fomentada em boa medida pelas redes sociais e pela mediação tecnológica entre
humanos e acontecimentos. Não é que aconteçam poucas coisas: nós é que estamos
como que entorpecidos e distantes. O sofrimento é lá longe; enquanto passamos
os polegares pelas telas dos celulares, a desgraça do mundo começa por
indignar, mas depois deprime e desmobiliza.
A segunda razão é a da crise de imaginação em
que estamos mergulhados: ela atravessa a política progressista, a cultura e até
as artes. A única imaginação que sobra é cínica e destrutiva. Democratas e
progressistas ficam limitados a responder à sua ofensiva, em vez de terem tempo
e espaço mental para inventar alternativas.
Discute-se muito se a pauta do campo
progressista deve estar focada na narrativa ou nas questões materiais. A
dicotomia é errada.
Nós podemos dar uma abundância de bens
materiais às pessoas. Mas se não lhes dermos sentidos —para a democracia, para
o progresso e até para a humanidade— não teremos vidas que valham a pena ser
vividas. O vazio que explica a revolta começa por aí. A humanidade busca
significados morais e não tem lideranças que lhos queiram dar.

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