Valor Econômico
Se o câmbio ficar mais pressionado, o governo
será compelido a adotar ajuste mais forte
O comportamento do câmbio nas próximas
semanas será crucial para definir as perspectivas para a política monetária e
para a resposta do governo às incertezas fiscais. Ontem, o dólar chegou a
superar R$ 5,60, fechando em 8,21%, a R$ 5,4027, em reação à vitória do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição, que pegou o mercado no
contrapé.
Ainda é cedo para saber em que nível a moeda vai se acomodar, mas um dólar que se estabilize num preço mais alto ou entre numa espiral de alta pode interromper ou mesmo reverter o ciclo de queda dos juros, por pressionar a inflação. Numa economia já sem fôlego, o risco seria transformar a desaceleração em recessão, castigando ainda mais famílias e empresas endividadas, um cenário que seria muito ruim para a popularidade de Lula.
Num quadro como esse, o governo tende a ser
compelido a anunciar medidas mais fortes de ajuste de contas públicas. A
questão é que Lula diminuiu a margem de manobra ao se comprometer nas eleições
com a manutenção de aumentos acima da inflação para aposentadorias e benefícios
assistenciais, por exemplo, além de ter anunciado uma série de medidas com
impacto fiscal, como o aumento do Bolsa Família, o perdão da dívida dos
Microempreendores Individuais (MEI) e um novo programa de renegociação de
débitos em atraso, o Desenrola 3.0.
Economista-chefe da Neo Investimentos,
Luciano Sobral diz que Lula “terá que trabalhar para debelar a crise com os
mercados que construiu ao longo dos últimos anos e na campanha eleitoral”. Para
ele, desamarrar esse nó começa pela escolha de uma equipe econômica que tenha
credibilidade e saiba dialogar com o mercado. A partir de agora, Lula terá que
“apagar um incêndio no mercado de câmbio, o preço que os políticos conseguem
entender”, afirma Sobral.
Um dólar mais alto causa desconforto imediato
para a população. A inflação sobe, o que afeta especialmente os mais pobres, e
encarece viagens internacionais, o que incomoda a classe média. Uma moeda
americana mais cara aumentaria ainda mais a enorme defasagem dos preços do óleo
diesel em relação às cotações externas, um problema que o governo terá de
resolver, com impacto inflacionário. Se o dólar subir muito, o efeito será
ainda maior.
Um câmbio mais pressionado pode levar o BC a
deixar de reduzir a Selic, hoje em 13,75% ao ano. No começo do ano, a taxa
estava em 15%. Num cenário de desvalorização mais acentuada do real, até mesmo
altas dos juros podem entrar no radar do BC, o que seria muito ruim para uma
economia fraca.
É por esses fatores que os políticos entendem
claramente o recado do comportamento do câmbio, como diz Sobral. “Não adianta
falar em curva de juros”, afirma ele. Nos últimos anos, o câmbio ficou
relativamente comportado, por causa do enfraquecimento do dólar no mercado
global, refletindo as incertezas sobre a economia americana provocadas pelas
políticas de Donald Trump, além da diferença expressiva entre os juros externos
e internos. Enquanto isso, o mercado de juros refletia a piora da percepção do
risco fiscal doméstico, o que não sensibiliza os políticos, ainda que a taxa
dos títulos do Tesouro de longo prazo corrigidos pela inflação tenha superado
7% ao ano.
Um ponto de eventual pressão para o câmbio é
que o cenário externo atual é menos favorável a moedas de emergentes como o
Brasil, devido à expectativa de juros estruturalmente mais altos em países
desenvolvidos como os EUA. Com isso, a redução das incertezas sobre as contas
públicas se torna ainda mais importante para evitar que o câmbio por aqui fique
desvalorizado.
Em relatório divulgado ontem, o Morgan
Stanley disse ver o dólar próximo de R$ 5,50 num primeiro momento, podendo
avançar para a casa de R$ 5,60 a R$ 5,70, com mais risco fiscal. Caso o governo
não apresentar medidas de consolidação fiscal nas próximas semanas, o dólar
pode bater em R$ 6, se houver a incorporação de riscos de dominância fiscal,
avaliam os estrategistas do banco. Esse problema ocorre quando o desequilíbrio
fiscal é tão grande que elevar os juros faz a inflação subir, em vez de cair.
Altas da Selic piorariam a situação fiscal, elevando a aversão ao risco e
desvalorizando o câmbio, o que causa inflação. Qualquer previsão para o câmbio
hoje, porém, é muito incerta.
Para deter uma desvalorização mais expressiva
do real, o governo precisa montar um pacote de medidas “que convença
minimamente o mercado de que a relação dívida/PIB vai parar de crescer logo”,
diz Sobral. O endividamento bruto passou de 71,7% do PIB no fim de 2022 para
82,9% do PIB em agosto deste ano.
A redução do ritmo de aumento de
aposentadorias e benefícios assistenciais é uma iniciativa que seria bem
recebida, embora seja muito improvável no governo Lula. Outra iniciativa com
impacto relevante seria desvincular os gastos com saúde e educação da variação
da receita. Sobral afirma que, além dessas medidas, seria importante reduzir os
subsídios tributários. A questão é que todas elas são impopulares e difíceis de
serem aprovadas politicamente. Um dólar mais caro e seus efeitos sobre a
economia, contudo, podem ser ainda mais impopulares.

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