terça-feira, 27 de outubro de 2026

Nível do dólar terá influência na definição da resposta fiscal, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Se o câmbio ficar mais pressionado, o governo será compelido a adotar ajuste mais forte

O comportamento do câmbio nas próximas semanas será crucial para definir as perspectivas para a política monetária e para a resposta do governo às incertezas fiscais. Ontem, o dólar chegou a superar R$ 5,60, fechando em 8,21%, a R$ 5,4027, em reação à vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição, que pegou o mercado no contrapé.

Ainda é cedo para saber em que nível a moeda vai se acomodar, mas um dólar que se estabilize num preço mais alto ou entre numa espiral de alta pode interromper ou mesmo reverter o ciclo de queda dos juros, por pressionar a inflação. Numa economia já sem fôlego, o risco seria transformar a desaceleração em recessão, castigando ainda mais famílias e empresas endividadas, um cenário que seria muito ruim para a popularidade de Lula.

Num quadro como esse, o governo tende a ser compelido a anunciar medidas mais fortes de ajuste de contas públicas. A questão é que Lula diminuiu a margem de manobra ao se comprometer nas eleições com a manutenção de aumentos acima da inflação para aposentadorias e benefícios assistenciais, por exemplo, além de ter anunciado uma série de medidas com impacto fiscal, como o aumento do Bolsa Família, o perdão da dívida dos Microempreendores Individuais (MEI) e um novo programa de renegociação de débitos em atraso, o Desenrola 3.0.

Economista-chefe da Neo Investimentos, Luciano Sobral diz que Lula “terá que trabalhar para debelar a crise com os mercados que construiu ao longo dos últimos anos e na campanha eleitoral”. Para ele, desamarrar esse nó começa pela escolha de uma equipe econômica que tenha credibilidade e saiba dialogar com o mercado. A partir de agora, Lula terá que “apagar um incêndio no mercado de câmbio, o preço que os políticos conseguem entender”, afirma Sobral.

Um dólar mais alto causa desconforto imediato para a população. A inflação sobe, o que afeta especialmente os mais pobres, e encarece viagens internacionais, o que incomoda a classe média. Uma moeda americana mais cara aumentaria ainda mais a enorme defasagem dos preços do óleo diesel em relação às cotações externas, um problema que o governo terá de resolver, com impacto inflacionário. Se o dólar subir muito, o efeito será ainda maior.

Um câmbio mais pressionado pode levar o BC a deixar de reduzir a Selic, hoje em 13,75% ao ano. No começo do ano, a taxa estava em 15%. Num cenário de desvalorização mais acentuada do real, até mesmo altas dos juros podem entrar no radar do BC, o que seria muito ruim para uma economia fraca.

É por esses fatores que os políticos entendem claramente o recado do comportamento do câmbio, como diz Sobral. “Não adianta falar em curva de juros”, afirma ele. Nos últimos anos, o câmbio ficou relativamente comportado, por causa do enfraquecimento do dólar no mercado global, refletindo as incertezas sobre a economia americana provocadas pelas políticas de Donald Trump, além da diferença expressiva entre os juros externos e internos. Enquanto isso, o mercado de juros refletia a piora da percepção do risco fiscal doméstico, o que não sensibiliza os políticos, ainda que a taxa dos títulos do Tesouro de longo prazo corrigidos pela inflação tenha superado 7% ao ano.

Um ponto de eventual pressão para o câmbio é que o cenário externo atual é menos favorável a moedas de emergentes como o Brasil, devido à expectativa de juros estruturalmente mais altos em países desenvolvidos como os EUA. Com isso, a redução das incertezas sobre as contas públicas se torna ainda mais importante para evitar que o câmbio por aqui fique desvalorizado.

Em relatório divulgado ontem, o Morgan Stanley disse ver o dólar próximo de R$ 5,50 num primeiro momento, podendo avançar para a casa de R$ 5,60 a R$ 5,70, com mais risco fiscal. Caso o governo não apresentar medidas de consolidação fiscal nas próximas semanas, o dólar pode bater em R$ 6, se houver a incorporação de riscos de dominância fiscal, avaliam os estrategistas do banco. Esse problema ocorre quando o desequilíbrio fiscal é tão grande que elevar os juros faz a inflação subir, em vez de cair. Altas da Selic piorariam a situação fiscal, elevando a aversão ao risco e desvalorizando o câmbio, o que causa inflação. Qualquer previsão para o câmbio hoje, porém, é muito incerta.

Para deter uma desvalorização mais expressiva do real, o governo precisa montar um pacote de medidas “que convença minimamente o mercado de que a relação dívida/PIB vai parar de crescer logo”, diz Sobral. O endividamento bruto passou de 71,7% do PIB no fim de 2022 para 82,9% do PIB em agosto deste ano.

A redução do ritmo de aumento de aposentadorias e benefícios assistenciais é uma iniciativa que seria bem recebida, embora seja muito improvável no governo Lula. Outra iniciativa com impacto relevante seria desvincular os gastos com saúde e educação da variação da receita. Sobral afirma que, além dessas medidas, seria importante reduzir os subsídios tributários. A questão é que todas elas são impopulares e difíceis de serem aprovadas politicamente. Um dólar mais caro e seus efeitos sobre a economia, contudo, podem ser ainda mais impopulares.

 

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