O Estado de S. Paulo
Governos na Argentina e Colômbia apostaram, de imediato, num ajuste profundo das contas
Olha o que o Milei fez! É assim – lembrando o austero programa de redução de gasto público do presidente argentino Javier Milei – que alguns analistas vêm descrevendo, nos últimos dias, suas expectativas sobre a magnitude do ajuste fiscal em um eventual governo Flávio Bolsonaro. Mas há quem também esteja olhando para o que acontece na Colômbia sob o comando de Abelardo De la Espriella, um advogado milionário de extrema direita, vitorioso numa apertada eleição presidencial em junho.
De la Espriella está prestes a enviar ao
Congresso um plano de recuperação fiscal com cortes de gastos de US$ 14
bilhões, ou 2,2% do PIB em 2027. Seria uma redução de despesas jamais vista na
Colômbia em um único ano. Nesse plano, o governo projeta que o esforço fiscal
em 2028 subirá para 4,5% do PIB, entre redução de despesas e aumento de
receitas. O problema é que De la Espriella enfrenta um Congresso profundamente
dividido.
A situação requer urgência. Em setembro, o
governo elevou a projeção de déficit fiscal de 2026 para 7,2% do PIB e
apresentou o Orçamento de 2027 prevendo um rombo recorde das contas públicas
(se nada for feito) de 9,4% do PIB, incluindo despesas extras em razão dos
danos causados pelo terremoto que atingiu o país em agosto. Ainda que o
Congresso aprove o corte de gastos de 2,2% do PIB em 2027, o governo colombiano
precisará de financiamento externo para fechar as contas. O presidente enviou a
Washington uma equipe de técnicos para negociar um empréstimo com o Fundo
Monetário Internacional.
Está na Argentina o precedente de um ajuste
tão draconiano. Milei assumiu em 2023 com um déficit primário de 2,9% do PIB e,
ao fim de 2024, já entregava um superávit primário de 1,8% do PIB. Essa
reversão de quase 5 pontos porcentuais aconteceu na esteira de um corte radical
de 30%, em termos reais, dos gastos do governo, com redução de ajuda financeira
às províncias e de subsídios estatais ao transporte e às contas de
eletricidade. A inflação despencou e a moeda se valorizou. Mas a pobreza chegou
a atingir quase 53% da população argentina em 2024. Hoje, essa taxa é de 32,3%.
Tanto na Argentina quanto na Colômbia, a situação era desastrosa quando seus líderes assumiram o poder. Esses governos da nova direita na América do Sul parecem seguir o mesmo receituário econômico: produzir, de imediato, um ajuste profundo das contas públicas, com duro impacto social. Em troca, o selo de aprovação dos investidores. E a promessa de dias melhores.

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