terça-feira, 13 de outubro de 2026

O conhecimento saiu na frente, por Ivan Alves Filho*

Ele participou de dezenas de teses de doutorado e era considerado um dos grandes intelectuais franceses do seu tempo. No total, integrou mais de 150 bancas e defesas de tese na verdade. Não era para qualquer um. 

E, ainda por cima, foi o redator do projeto que daria origem à Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), uma das mais prestigiosas da França e da própria Europa, onde eu estudei por alguns anos, participando de sua primeira turma, em 1975. A EHESS era então dirigida por Claude Lévi-Strauss e Fernand Braudel, outros dois extraordinários intelectuais. 

Em 1977, coube a ele inaugurar, por seu turno, a cadeira de semiologia literária em outra prestigiosa escola, o Collège de France. A instituição foi criada em 1530 por Francisco I, o rei de França que se insurgiu contra o Tratado de Tordesilhas com uma tirada no mínimo espirituosa. Disse ele: “O sol brilha para mim como para os outros. Eu gostaria de conhecer a cláusula do testamento de Adão que me exclui da divisão do mundo.” 

Apresentado ao marxismo por volta de 1944-45, ele ainda se declarava marxista em um depoimento à revista Tel Quel, em 1971. Nascido em 1915, em plena Guerra Mundial, morreu aos 64 anos de idade, vítima de um atropelamento. Foi ator e escreveu em jornais ligados à Resistência francesa. Um deles, com o sugestivo título de Combat, era dirigido pelo franco-argelino Albert Camus. 

De qualquer maneira, seus livros correram o mundo, e poderíamos mencionar aqui os clássicos O prazer do texto, O grau zero da escrita, Mitologias e O sistema da moda. Dando grande atenção aos códigos internos, aos problemas da linguagem, na abordagem de uma obra literária, ele fez a cabeça, como se diz, de meio mundo universitário. Com um detalhe importante, contudo: o semiólogo francês Roland Barthes – pois é sobre ele que estamos escrevendo – nunca concluiu sua tese de doutoramento. Ou seja, o conhecimento saiu na frente e superou o diploma. 

*Ivan Alves Filho, historiador

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