quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O exitoso diversionismo da reforma constitucional, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Flávio Bolsonaro coloca a carta da ‘redemocratização’ na mesa num momento em que PT abandona o Master e vai pra cima de seus planos econômicos

O candidato do PL à Presidência, senador Flavio Bolsonaro, colocou na roda sua pretensão de fazer uma reforma constitucional para “redemocratizar” o país. Pautou a campanha. Numa hora encolhe o Supremo, noutra, o mandato presidencial para impedir reeleição. Colocou nesta reforma até a castração química e a redução da maioridade penal. Vai com tudo para “arregaçar com vagabundo”. Não se fala em outra coisa. Depois que a campanha adversária concluiu que o Master não rendeu voto e se mostra disposta a arrancar do senador seus planos econômicos, Flávio Bolsonaro decidiu colocar a carta da “redemocratização” na mesa.

Está claro que pretende mudar o foco. Seu limite, na economia, são mudanças na reforma tributária, sempre na linha de cortar impostos, sem mencionar como fará a reforma orçamentária de R$ 200 bilhões que o mercado espera. A estratégia tem método. Na tarde de segunda-feira, eleitores receberam em seu celular um vídeo de três minutos. O protagonista, sentado à mesa de um escritório, fez um apelo aos eleitores da terceira via.

“Você que votou pela mudança, termine o que começou”. Passava então a descrever o que aconteceu naquela manhã pós-primeiro turno. “O dólar é o trigo do pão, o diesel do caminhão, o adubo de sua lavoura, o remédio da sua mãe. Dólar barato segura a inflação e com a inflação contida o juro cai (...) O juro caindo, o pequeno contrata, a empresa investe, abre vaga e sua previdência rende”.

O protagonista é Tallis Gomes, CEO do G4, um grupo que ensina empresários a ganhar público e aumentar vendas no digital criando polêmicas. No seu caso, depois daquela que lhe deu fama (“Deus me livre de mulher CEO”), foi desligado do conselho da Hope, teve que pedir desculpas e colocar uma mulher à frente do G4. O vídeo pós-1º turno teve mais de 20 milhões de visualizações. Se impulsionou, driblou a lei eleitoral porque não citou o nome de Flávio Bolsonaro. Não é neófito. Está para o senador do PL como, em 2024, esteve para Pablo Marçal. Há um mês disse integrar o Rockbridge, grupo de JD Vance, vice-presidente dos EUA.

A polêmica criada por Flávio Bolsonaro em torno de uma nova reforma constitucional segue a cartilha que pauta o trumpismo. Coloca a democracia na roda para não falar dos programas sociais que estão em xeque. Vai levar jovens de classe média para as ruas em defesa da democracia? É possível, mas o país já viveu o efeito rebote de manifestações protagonizadas por estudantes a partir de junho de 2013. Deu em Jair Bolsonaro.

Na manhã desta quarta, outra distração entrou em pauta. A euforia resumida naquele vídeo de Tallis Gomes passou, mas o otimismo persiste, ainda que não sejam conhecidas as contas com as quais o candidato pretende fazer o ajuste. Começou, então, a circular o resumo de uma reunião entre a Eurasia e um ex-diretor do Itaú BBA, Luiz Felipe Trevisan, em que se detalhou que este ajuste viria de uma super PEC com reforma administrativa, digitalização, alienação patrimonial de imóveis da União, combate a fraudes e distorções na tributação de investimentos, além do corte de emendas parlamentares. Os gastos sociais e a Previdência seriam, inicialmente, evitados.

A Eurasia não se compromete com o relatório nem comenta a reunião, ocorrida em 9 de setembro. Nesta terça, porém, a consultoria publicou um relatório em que eleva a previsão de vitória de Flávio Bolsonaro para 70% e diz que a chance de uma reforma fiscal mais sólida aumenta. Sem citar Trevisan, argumenta que a meta de corte não é crível. Vai, porém, além do resumo apócrifo.

Ao mencionar as mudanças fiscais defendidas pelos assessores do candidato, avança na magnitude do corte: “As promessas de cortar gastos em até R$ 200 bilhões (2% do PIB), não parecem críveis, mas uma reforma constitucional que redefina as regras de crescimento dos gastos obrigatórios seria suficiente para gerar um superávit primário crescente ao longo dos próximos quatro anos”. O novo arcabouço fiscal a ser anunciado imporia um teto de gastos com corte automático de despesas. Quais? Ninguém sabe, ninguém viu.

Se Lula ganhar também terá que fazê-lo, mas a expectativa do mercado está no senador, não no presidente. Para manter a expectativa do mercado sem desiludir seu eleitor, Flávio tem manobrado com habilidade o diversionismo da pauta democrática. O ministro licenciado da Fazenda, Fernando Haddad, não vê como o candidato do PL possa atingir um corte de R$ 200 bilhões sem uma megaprivatização ou faca nas despesas sociais a partir da trinca desvinculação de gastos saúde/educação, reforma da Previdência e fim da política de valorização do salário mínimo.

O que o senador fala, porém, vai na mão inversa. Nesta quarta, disse que a Caixa Econômica Federal viraria o “banco da prosperidade”. Como? Com gastos. A Caixa compraria dívidas de pessoas físicas e jurídicas e as refinanciaria com prazos mais longos e juros menores.

Hoje teme afugentar o eleitor que sonha com serviços públicos sem fila. Se eleito, arrisca abespinhar a rede de governadores aliados. Ao lado do governador reeleito Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro desautorizou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que havia falado na volta de Jair em 2030. Só não disse como ficaria a rede hospitalar paulista se a União tiver que restringir os repasses do SUS, equivalentes a 62% do seu custeio se seu novo arcabouço reduzir as despesas obrigatórias.

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