sábado, 24 de outubro de 2026

O futuro não é mais como antigamente, por Elimar Pinheiro do Nascimento*

Revista Será?

Nesses dias, estou terminando de ler o livro 2041 – Como a inteligência artificial vai mudar sua vida nas próximas décadas, dos chineses Kai-Fu Lee, CEO da Sinovation Ventures (depois de ser executivo da Microsoft e da Apple), e Chen Qiufan, escritor e fundador do Thema Mundi. É uma coletânea de contos de ficção científica, comentados pelo especialista em IA. O formato e o conteúdo são muito intrigantes.

Ultimamente, tenho dedicado parte do meu tempo a estudar a Inteligência Artificial e suas consequências sobre nossas vidas. Em particular, do ponto de vista psicossocial: a pensar, portanto, nas consequências das inovações tecnológicas sobre nossa forma de trabalhar, conviver, criar, pensar, amar e nos divertirmos. Mudanças em nossos comportamentos, mas também em nossas percepções e valores. Fazer isso, do ponto de vista do futuro, significa trabalhar com hipóteses, ou seja, cenários.

Uma coisa tem me chamado a atenção: as diferenças de percepção do futuro entre ocidentais e orientais. Há um ponto em comum em ambos os lados do mundo: a disrupção é uma constante. Imagina-se que as inovações tecnológicas irão provocar mudanças substantivas do ponto de vista econômico, social, político e psíquico. Porém, a convergência acaba aqui.

O passo seguinte é ocupado pelas divergências. Não de forma uniforme no Ocidente e no Oriente. A divergência maior é quando resumimos o Oriente à parte do Oeste e do Sudoeste asiático — do Japão até a Índia e a Indonésia, passando pela China, Coreia do Sul, Vietnã etc. —, e a parte do Ocidente, restrita à Europa e aos Estados Unidos.

No segundo caso (Ocidente), há um leve predomínio em pensar o futuro de forma distópica. Os cenários são majoritariamente negativos, repletos de riscos e ameaças: massa de trabalhadores sem emprego, regimes democráticos fenecendo, degradação ambiental crescendo, risco de guerra nuclear, de novas pandemias e, sobretudo, de aumento dos eventos climáticos extremos com altos custos econômicos e humanos. Sociedades sem coesão social, com criminalidade se alastrando, sem tolerância para conviver com os diferentes: um mundo de ansiedade e medo, com liberdades cerceadas. Um futuro em que o “primeiro mundo” caminha para se transformar, gradativamente, no “terceiro mundo”, com desigualdades abissais, pobreza visível e violência crescente.

Claro que há exceções, particularmente entre os intelectuais ligados ao Vale do Silício, à corrente dos “aceleracionistas”. Contudo, mesmo nesses casos, a desigualdade resta entalada na garganta, com o risco daquilo que Cristovam Buarque um dia denominou de apartação, numa dupla alegoria: ao apartheid da África do Sul e ao ato de apartar o gado. Em resumo, um mundo em que a cissiparidade dará lugar a duas espécies: os super sapiens (com maior poder cognitivo e longevidade) e os sub sapiens (famintos).

Em contrapartida, no Oriente, acima definido, a visão de futuro que parece predominar está associada à prosperidade, à utopia de um mundo melhor, em que aos poucos os humanos se libertam do trabalho penoso para se dedicar às atividades inteligentes e lúdicas, em que o tempo de trabalho se reduz gradativamente e cresce o tempo do lazer, da criatividade. Um mundo em que os bens materiais básicos estarão à disposição de todos os humanos.

Há uma base material para essa diferença. No Oriente, aqui circunscrito, a degradação ambiental se reduz e a pobreza se enclausura ou encolhe. A renda média dos trabalhadores aumenta, o tempo livre também. A educação de qualidade é cada vez mais acessível, e o acesso aos serviços de saúde aumenta. Os indivíduos são mais autônomos, sem se desligar de seu grupo de pertencimento. Seus países, antes submetidos ao jugo do imperialismo ocidental, emancipam-se e ganham protagonismo. É um mundo de futuro para seus filhos, sem ansiedade e sem depressão. Quase o inverso ocorre atualmente no Ocidente aqui definido: perda de poder aquisitivo da classe média, redução da oferta de empregos, relativa queda na dinâmica econômica (mais na Europa), déficit habitacional crescente, com aumento visível das pessoas morando na rua.

Claro que acentuei as cores de um e outro lado quanto ao futuro, mas na essência a distinção é real e clara. O lado desse Ocidente afunda, está em crise; seu poderio econômico e tecnológico se reduz relativamente. O inverso ocorre no Oriente que defini.

E por mais que tenhamos o treino de nos distanciar do presente, dos movimentos conjunturais, não conseguimos nos eximir dessas influências circunstanciadas. O desafio é nos colocarmos no meio, entre o pessimismo de uns e o otimismo dos outros. Porque as coisas no real não são nem uma coisa nem outra; otimismo e pessimismo são simples pontos de vista, percepções, fatos psíquicos e não materiais. São expectativas e não processos factuais. Depende do dono do olhar,do lugar do sujeito. Podemos, perfeitamente, evitar o olhar predominante no Ocidente em crise.

Por isso, o distanciamento do que se passa hoje em nosso país é essencial. Qualquer que seja o resultado das urnas, não teremos um país fácil. Os problemas, imensos e graves, persistirão: a educação de má qualidade, a violência urbana, o acesso difícil ao mínimo de serviços de saúde, a degradação ambiental, a falta de bons empregos para os jovens, o congestionamento das grandes cidades, o feminicídio absurdo, a precariedade da moradia, o racismo e outras formas de discriminação. Tudo isso perdura e deverá ser enfrentado. Mas o será de formas distintas segundo o vencedor das eleições. Na vitória de um, as condições de vida dos mais pobres e dos trabalhadores manuais serão agravadas, a democracia poderá ser extinta e a soberania, enfraquecida. No caso da vitória do outro, os problemas continuarão com pequenas soluções que nos deixam impacientes e insatisfeitos, mas estarão sendo enfrentados em busca de soluções em um regime democrático, no qual podemos opinar, discordar e mudar os governantes.

Qual lado o povo vai escolher? De qual lado você estará?

*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

Nenhum comentário:

Postar um comentário