O Estado de S. Paulo
O horizonte é de dificuldades, ruídos e tensões. Precisamos ingressar numa dimensão pós-bolsonarista e pós-lulista
Vitórias eleitorais não caem do céu. Vitórias
podem ser explicadas por mudanças circunstanciais, por abalos inesperados que
alteram a correlação de forças, truques de marketing, lufadas de sorte e acaso.
Porém, numa disputa acirrada como a que tivemos no Brasil, a vitória de Lula
não ocorreria sem mobilização e engajamento. O repúdio ao bolsonarismo levou
milhões de jovens, idosos, homens e mulheres às redes e às ruas. Foi uma
arrancada vigorosa, com emoções à flor da pele.
Não foi uma vitória da “esquerda”, mas do
conjunto dos democratas – dos socialistas aos liberais e conservadores –, dos
cidadãos sem partido e cheios de sonhos na cabeça.
Metade dos eleitores sufragou a candidatura da ultradireita, mantendo viva a base da polarização tóxica dos últimos anos. Como dissolver os laços que ligaram 60 milhões de cidadãos às fantasias bolsonaristas? A democracia não pode simplesmente descartá-los. Uma sociedade culturalmente rica e diversificada como a brasileira não pode ser refém de fanatismos e procedimentos de “ordem unida”. Parte da população não se sente acolhida pela democracia representativa e não aceita a esquerda, que é mais fechada e restrita do que fazem acreditar os discursos de Lula. A esquerda brasileira tem pouco poder de diálogo.
Vitórias empolgam, mas são exigentes. Criam
expectativas. Requerem cautela, realismo e generosidade. Não pedem conciliação,
mas um caminho de pacificação e despolarização. Dispensam bravatas e desejos de
vingança. Necessitam de inteligência política e cálculo estratégico.
Lula falou que governará de outra maneira,
mais ampla e mais sintonizada com a população. O que isso significará só o
tempo dirá. Ter um celular na palma da mão para falar “diariamente” com o povo
é uma frase populista. A sociedade espera para ver como se cuidará da economia,
do gigantesco déficit fiscal e do desenvolvimento, com qual plano e com qual
articulação. O próximo ministro da Fazenda será peça estratégica. E quanto à
segurança e ao crime organizado, o que será proposto de concreto? Nos
anteriores governos do PT, os benefícios sociais prevaleceram, o que melhorou a
distribuição de renda, mas não promoveu uma política vigorosa de
desenvolvimento. O País permaneceu estacionado num patamar econômico de baixa
produtividade e muita turbulência. O que haverá de novidade no quarto mandato?
Se o novo governo permanecer concentrado em
quadros petistas, repetirá um dos pontos fracos da gestão atual. Um ministério
que inclua e dê espaço de atuação a democratas de outras correntes mostrará a
disposição governamental de fugir do refrão nós contra eles, mantendo a
sintonia com a sociedade e facilitando a interação com o Congresso. O jogo está
a começar.
Da mesma forma, políticas que prestem a
devida atenção aos problemas derivados da revolução tecnológica – comunicação,
educação técnica de massa, utilização inteligente da inteligência artificial,
impactos ambientais, entre outros – darão nova energia ao governo e sustentarão
uma gestão mais afinada com os tempos. O novo governo terá de recuperar o tempo
perdido e assimilar as mudanças que estão a alterar a estrutura social, os
relacionamentos e o mundo do trabalho. O mesmo ocorre com o posicionamento do
Brasil no sistema internacional. A reorganização institucional e a credibilidade
do Supremo Tribunal Federal (STF) também estão a pedir passagem. Nada disso
poderá ser enfrentado com ideias rotineiras e cacoetes ideológicos.
O campo democrático apoiou Lula com coerência
e convicção. Mas fez isso sem coesão e organicidade própria. Se vier a
encorpar, estabelecer um programa de ação e voltar a ter voz pública, poderá
ajudar o governo a manter o prumo e a se corrigir, quando for o caso. Atuará
como uma corrente programática substantiva e com capacidade de pressão.
Será necessário atentar para a chamada
“direita”, com todos os seus matizes. A derrota de Flávio Bolsonaro foi
precedida da eleição de grandes bancadas na Câmara e no Senado, cujo perfil
terá de ser decifrado. A ultradireita perdeu uma batalha, mas continua viva. E
não será vencida por manipulações institucionais e batalhas retóricas. Sua
força está em sua base social, que está sem liderança. Abriu-se, assim, uma
janela para que as diferentes direitas se soltem do tronco chamuscado e se
mostrem com cara própria.
A narrativa vencedora precisa, agora, ser
recalibrada. Deve valorizar uma vitória que se deveu a um conjunto de fatores,
não ao protagonismo de um partido ou de um líder. A democracia política terá de
fluir por cima dessas ilusões e da agitação que a elas poderá se associar.
Menos obediência janonista, mais Alckmin. A política não pode ser um terreno de
lacrações e “missões” descoladas da realidade.
Não temos como saber que futuro virá. O
horizonte é de dificuldades, ruídos e tensões. Precisamos ingressar numa
dimensão pós-bolsonarista e pós-lulista. Se isso ocorrer, é porque soubemos nos
comportar com sabedoria e tolerância. Em suma, pensando, agindo e dialogando.
*Professor titular de Teoria Política da Unesp

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