O Estado de S. Paulo
Não há como chamar a direita e a extrema
direita antidemocrática pelo mesmo nome. Os dois fenômenos são distintos,
jamais poderiam ter se embaralhado no discurso jornalístico
E, de repente, não menos que de repente, a
coisa não coube mais no próprio nome, o fato escapou ao relato e o objeto
discrepou do conceito. Parecia haver um problema com os eventos da realidade,
mas não era isso. O problema não estava nas coisas, nos fatos e nos objetos,
mas no modo como o jornalismo os nomeava. Recapitulemos.
Enquanto a campanha eleitoral pegava fogo, gente de direita começou a dizer que não estava à vontade na direita. Personagens expressivos do chamado campo conservador, ou seja, personagens notoriamente da direita, passaram a atacar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que vinha sendo qualificada nos órgãos de imprensa, com poucas exceções, como a chapa de direita. O general Santos Cruz, a ex-deputada Joice Hasselmann e até João Amoêdo, entre várias outras pessoas, todas de direita, passaram a repudiar a candidatura que representaria a direita no segundo turno. Mas como assim, perguntava o cidadão? Não eram todos igualmente de direita? O público se sentia tragado por uma dissonância cognitiva. Se Flávio Bolsonaro era o representante da direita, como diziam os jornais, o rádio e a TV, por que tanta gente da direita o rejeitava?
A explicação teria sido muito simples, embora
até hoje não tenha sido assimilada por uma parcela expressiva das redações. Os
personagens de direita não se reconheciam na candidatura da direita não porque
tivessem desistido de ser o que eram, ou seja, de direita, mas porque não
queriam mais abaixar a cabeça para a extrema direita antidemocrática, que o
discurso jornalístico insistia em designar como de “direita”, sem outros
qualificativos.
Os personagens lembrados aqui há dois
parágrafos, exatamente por se reconhecerem de direita, não se dispunham mais a
bater continência para uma coagulação que namorava o golpismo, chafurdava no
entreguismo, estreitava laços de camaradagem com gangues armadas e, de resto,
sabotava a Justiça (parece que um dos seus se esmerou em escafederse, em fugir
das autoridades).
Pois bem. Ao dar a essa aberração o rótulo
singelo de “direita”, pura e simplesmente, muitas das narrativas da imprensa
atrapalharam o discernimento do público. O objeto não coube no conceito e, como
resultado, o que seria fácil de explicar assumiu o aspecto de mistério
insondável.
O jornalismo deveria ter prestado mais
atenção. Nas páginas e nas telas noticiosas, nós não devemos chamar muriçoca de
varejeira, arcebispo de cardeal e promotor de magistrado. Não podemos escrever
que juiz dá parecer. Pelas mesmas razões, não há como chamar a direita e a
extrema direita antidemocrática pelo mesmo nome. Os dois fenômenos são
distintos, jamais poderiam ter se embaralhado no discurso jornalístico. A
direita valoriza o respeito às instituições republicanas, enquanto a extrema
direita antidemocrática não hesita em conspirar contra a alternância no poder.
A primeira preza a urbanidade e a convivência pacífica; a segunda hostiliza a
dissidência e autoriza a violência. Uma coisa não é igual à outra coisa, mas,
infelizmente, uma parte considerável do discurso jornalístico as igualou.
A chapa de Flávio Bolsonaro não era, nunca
foi e jamais poderia ter sido tratada como se fosse uma composição de direita,
pois nunca se pautou pelos princípios liberais ou pela sobriedade conservadora.
Longe disso, tinha origem na celebração do golpe de 1964, na idolatria de
torturadores, no culto das garruchas (de preferência desviadas das Forças
Armadas) e no obscurantismo. Por definição, era uma anormalidade política –
anormalidade que, ao ser chamada candidamente de “direita”, saiu por aí
desfilando com uma roupagem semântica de normalidade.
Foi então que, de repente, não menos que de
repente, a retórica da normalidade foi varrida pelos ventos factuais. A coisa
não cabia mais no próprio nome, o fato escapou ao relato e o objeto discrepou
do conceito. Com a terminologia que dava ao aberrante um aspecto benigno de
eventualidade cotidiana, não havia como demonstrar o que levou tanta gente
identificada com a direita a recusar seu voto para Bolsonaro.
Foi um tropeço, um descuido, uma imprecisão.
Se as redações, desde o início, tivessem chamado a extrema direita
antidemocrática pelo seu nome devido, seu nome objetivo, a explicação teria
sido mais fácil, ou mesmo óbvia.
A designação irrefletida – e incorreta –
trouxe um segundo desvio: a tentativa de tratar como simétricas as duas
candidaturas que disputavam o segundo turno. Entre ambas, contudo, não havia
nenhuma homologia, nenhuma paridade. Uma, a de Lula, apesar de todos os
defeitos, tinha compromisso provado e já testado com as instituições
democráticas e com o respeito à Justiça. A outra desdenhava dos ordenamentos do
Estado de Direito. As duas eram de naturezas distintas. Por sorte, ou por
milagre, o eleitorado, intuitivo, enxergou a distinção de natureza. Uma boa
parte do jornalismo não viu até agora.
Em nota pública, o Instituto Vladimir Herzog,
do qual sou conselheiro, alertou sobre o tema, sem maiores repercussões. Por
dever de ofício, volto ao ponto, sem maiores esperanças.

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