sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O quarto mandato de Lula, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

As pesquisas de opinião eleitoral lidam insuficientemente com a complexidade sociológica da realidade política e suas determinações antropológicas e, em grau menor, econômicas e mesmo políticas

A eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na noite de 25 de outubro, às 9 horas da noite, para um quarto mandato presidencial, envolveu um conjunto de fato extenso de surpresas e revelações de natureza histórica. Pendências, irracionalidades e injustiças acumuladas desde o golpe militar de abril de 1964 agravaram-se durante a ditadura e emergiram aos poucos durante o cansativo regime de Jair Messias Bolsonaro, foram se depositando na consciência social e explodiram em atitudes do seu governo durante a pandemia.

As pesquisas eleitorais não levaram em conta o que é próprio da realidade política que não aparece nelas, mas aparecem no resultado das eleições. Mesmo com o recurso preventivo do chamado cálculo do erro amostral.

O adversário do atual presidente aparecia ligeiramente atrás de seu opositor nas investigações de vários e diferentes institutos, cada qual com seu método e suas identificações com os candidatos. As certezas dos cálculos e das amostras estatísticas ficavam à mercê das regras imprecisas da realidade.

Os acertos dos resultados de pesquisas desse tipo, no que diz respeito à realidade social, dependem do desacerto eventual do que é provável em casos assim. A realidade não é métrica nem probabilística. Eventualmente e até acidentalmente pode sê-las. Mas não necessariamente. Há um conjunto de ocultações que não podem ser medidas nem estimadas.

A sociedade é uma construção social que pode envolver, como neste caso, milhões de atores, dotados de uma consciência cambiante do que estão vivendo e do que estão compreendendo. A consciência social é expressão de uma pluralidade de percepções compartilhadas, no mais das vezes superficiais, com extensa gama de invisibilidades “armazenadas” na consciência social profunda de cada um.

Numa extensa pesquisa de mais de 2 mil casos de linchamentos e tentativas de linchamentos no Brasil, apesar de repetições de alguns padrões de conduta, o conjunto de cada ocorrência envolvia peculiaridades e singularidades que explicavam o único e também o todo.

As pesquisas de opinião, sobretudo de opinião eleitoral, lidam insuficientemente com a complexidade sociológica da realidade política e suas determinações antropológicas e, em grau muito menor, econômicas e mesmo políticas. Em países atrasados e diversificados como o Brasil, nelas se lida mal com o conhecimento cotidiano e de senso comum e seus mistérios. O brasileiro comum é irredutível a uma concepção genérica e abstrata de brasileiro, como a que equivocadamente se supõe protagonizar em pesquisas desse tipo.

A propósito, isso ocorre também com os candidatos. No Brasil há uma espécie de boçalidade endêmica distribuída entre as diferentes categorias sociais, especialmente das elites, cujo conhecimento social se limita ao diálogo cotidiano com suas empregadas domésticas. Devido às diferenças culturais, os trabalhadores, mulheres e homens, crianças e adultos, são no geral falantes de uma dupla linguagem e portadores de uma dupla identidade, o que lhes permite compreender o outro, aquele que julga neles mandar e a eles dominar, sem no entanto os compreender.

As verdadeiras elites são educadas, e como pessoas educadas conhecem regras de civilidade, regras para respeitar e ser respeitadas. O candidato que, em consequência, acabaria derrotado, como o pai dele e outros membros da família, revelou-se apenas malcriado e sem respeito pelos outros, sem reconhecimento da condição humana do outro, também pelos ouvintes, isto é, eleitores, os diferentes, e não só pelo destinatário do insulto.

O brutal equívoco do candidato de extrema direita, nesta eleição, foi a postura de supor-se maior do que é, no deboche sobre o defeito físico de Lula, o do dedo que lhe falta numa das mãos, decorrente de acidente de trabalho, no fim da adolescência, às 3 horas da madrugada, quando era operário numa metalúrgica na região da Vila Carioca, em São Paulo, e teve que esperar 4 horas para ser levado a um hospital ali perto.

No mundo do trabalho, o ato destes dias do candidato que veio a ser derrotado é ato indevido de humilhação intencionalmente dirigido à vítima das adversidades da vida. É inútil fingir-se de evangélico porque esse ato de explícito e maldoso desrespeito anula numa fração de momento todos os “cristianismos” de aluguel, aqui abundantes, que se compra nos supermercados da fé, reduzidos aos fingimentos rituais e treinamentos para enganar eleitores e crentes.

Esse ato revelou no candidato agressor aquilo que Mário de Andrade chamava de “herói sem nenhum caráter”. Para ele, a suposta margem de erro a seu favor nas pesquisas de opinião terminou ali, antecipou sua derrota.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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