Valor Econômico
As pesquisas de opinião eleitoral lidam
insuficientemente com a complexidade sociológica da realidade política e suas
determinações antropológicas e, em grau menor, econômicas e mesmo políticas
A eleição do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, na noite de 25 de outubro, às 9 horas da noite, para um quarto mandato
presidencial, envolveu um conjunto de fato extenso de surpresas e revelações de
natureza histórica. Pendências, irracionalidades e injustiças acumuladas desde
o golpe militar de abril de 1964 agravaram-se durante a ditadura e emergiram
aos poucos durante o cansativo regime de Jair Messias Bolsonaro, foram se
depositando na consciência social e explodiram em atitudes do seu governo
durante a pandemia.
As pesquisas eleitorais não levaram em conta o que é próprio da realidade política que não aparece nelas, mas aparecem no resultado das eleições. Mesmo com o recurso preventivo do chamado cálculo do erro amostral.
O adversário do atual presidente aparecia
ligeiramente atrás de seu opositor nas investigações de vários e diferentes
institutos, cada qual com seu método e suas identificações com os candidatos.
As certezas dos cálculos e das amostras estatísticas ficavam à mercê das regras
imprecisas da realidade.
Os acertos dos resultados de pesquisas desse
tipo, no que diz respeito à realidade social, dependem do desacerto eventual do
que é provável em casos assim. A realidade não é métrica nem probabilística.
Eventualmente e até acidentalmente pode sê-las. Mas não necessariamente. Há um
conjunto de ocultações que não podem ser medidas nem estimadas.
A sociedade é uma construção social que pode
envolver, como neste caso, milhões de atores, dotados de uma consciência cambiante
do que estão vivendo e do que estão compreendendo. A consciência social é
expressão de uma pluralidade de percepções compartilhadas, no mais das vezes
superficiais, com extensa gama de invisibilidades “armazenadas” na consciência
social profunda de cada um.
Numa extensa pesquisa de mais de 2 mil casos
de linchamentos e tentativas de linchamentos no Brasil, apesar de repetições de
alguns padrões de conduta, o conjunto de cada ocorrência envolvia
peculiaridades e singularidades que explicavam o único e também o todo.
As pesquisas de opinião, sobretudo de opinião
eleitoral, lidam insuficientemente com a complexidade sociológica da realidade
política e suas determinações antropológicas e, em grau muito menor, econômicas
e mesmo políticas. Em países atrasados e diversificados como o Brasil, nelas se
lida mal com o conhecimento cotidiano e de senso comum e seus mistérios. O
brasileiro comum é irredutível a uma concepção genérica e abstrata de
brasileiro, como a que equivocadamente se supõe protagonizar em pesquisas desse
tipo.
A propósito, isso ocorre também com os
candidatos. No Brasil há uma espécie de boçalidade endêmica distribuída entre
as diferentes categorias sociais, especialmente das elites, cujo conhecimento
social se limita ao diálogo cotidiano com suas empregadas domésticas. Devido às
diferenças culturais, os trabalhadores, mulheres e homens, crianças e adultos,
são no geral falantes de uma dupla linguagem e portadores de uma dupla
identidade, o que lhes permite compreender o outro, aquele que julga neles
mandar e a eles dominar, sem no entanto os compreender.
As verdadeiras elites são educadas, e como
pessoas educadas conhecem regras de civilidade, regras para respeitar e ser
respeitadas. O candidato que, em consequência, acabaria derrotado, como o pai
dele e outros membros da família, revelou-se apenas malcriado e sem respeito
pelos outros, sem reconhecimento da condição humana do outro, também pelos
ouvintes, isto é, eleitores, os diferentes, e não só pelo destinatário do
insulto.
O brutal equívoco do candidato de extrema
direita, nesta eleição, foi a postura de supor-se maior do que é, no deboche
sobre o defeito físico de Lula, o do dedo que lhe falta numa das mãos,
decorrente de acidente de trabalho, no fim da adolescência, às 3 horas da
madrugada, quando era operário numa metalúrgica na região da Vila Carioca, em
São Paulo, e teve que esperar 4 horas para ser levado a um hospital ali perto.
No mundo do trabalho, o ato destes dias do
candidato que veio a ser derrotado é ato indevido de humilhação intencionalmente
dirigido à vítima das adversidades da vida. É inútil fingir-se de evangélico
porque esse ato de explícito e maldoso desrespeito anula numa fração de momento
todos os “cristianismos” de aluguel, aqui abundantes, que se compra nos
supermercados da fé, reduzidos aos fingimentos rituais e treinamentos para
enganar eleitores e crentes.
Esse ato revelou no candidato agressor aquilo
que Mário de Andrade chamava de “herói sem nenhum caráter”. Para ele, a suposta
margem de erro a seu favor nas pesquisas de opinião terminou ali, antecipou sua
derrota.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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