O que está em jogo?
Por Revista Será?
Tem muita coisa em jogo nas eleições presidenciais deste domingo, quando concorrem Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, dois candidatos com trajetórias políticas e propostas muito diferentes para o futuro do Brasil. Mas tem uma questão central, anterior a todas as outras, que deve ser avaliada pelos eleitores na hora de digitar o seu voto na urna: a preservação das instituições democráticas, já tão fragilizadas pela polarização e pela politização do Judiciário.
O presidente Lula pode ter muitos defeitos,
nos editoriais desta Revista já fizemos várias críticas aos seus governos e a
algumas das suas atitudes e declarações inapropriadas, como o apoio explícito
que dava a governos autoritários da sua simpatia. A distribuição massiva de
benesses que o seu governo vem fazendo nos meses que antecedem as eleições,
embora não seja uma ilegalidade, constitui uma forma indevida de desequilíbrio
no jogo eleitoral e, portanto, é muito pouco democrática. No entanto, em toda a
sua longa história política, com presença ativa em vários os governos da
República, Lula sempre respeitou as regras e as instituições democráticas
brasileiras.
O mesmo não se pode dizer da família
Bolsonaro representada nessas eleições pelo Senador Flávio Bolsonaro. O seu
pai, Jair Bolsonaro, tentou dar um golpe de Estado em 2022 e fracassou apenas
porque não contou com o apoio das Forças Armadas e recebeu um veto contundente
do então presidente Joe Biden, dos Estados Unidos. A atual configuração
política nacional e internacional favorece o bolsonarismo e sua vocação
autoritária. Se for eleito, Flávio Bolsonaro começa com uma sólida base
política no Congresso, contará com o apoio total do presidente autoritário e
intervencionista Donald Trump e terá condições de formar maioria no Supremo
Tribunal Federal, na medida em que o futuro presidente deve indicar quatro ou
até cinco novos ministros (situação preocupante, considerando a forte
politização da Alta Corte de Justiça). Nestas condições, Flávio pode utilizar
as próprias instituições democráticas, a partir da Presidência da República,
para enfraquecer a democracia e compor um sistema de poder autoritário, o
Brasil seguindo modelos de democracias que fenecem de dentro para fora, de
forma lenta, gradual e sob fachada legal (como os exemplos citados no livro “Como
as democracias morrem” de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt).
Diante do delicado momento da história do Brasil, os democratas brasileiros de todas as tendências devem se unir para defender as instituições democráticas, de modo a garantir que, independentemente do futuro presidente, as divergências políticas e as diferenças de interesses na sociedade possam ser discutidas na imprensa livre, negociadas no Congresso Nacional e atestadas nas instâncias jurídicas. O que está em jogo nas eleições é, antes de tudo, a preservação da democracia brasileira, incluindo a recomposição e a despolitização das instituições jurídicas.
Campanha que divide país tem de manter
civilidade
Por O Globo
É preciso preservar a sensatez e o
comedimento na véspera de uma eleição que se prenuncia acirrada
A campanha do segundo turno para a
Presidência da República chega hoje ao fim com o país dividido, em clima de
intensa mobilização dos apoiadores do senador Flávio
Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT), tanto nas ruas quanto nas redes sociais. A despeito da
animosidade entre os dois grupos políticos que se enfrentam pela terceira
eleição consecutiva, é louvável que a disputa tenha ocorrido de modo pacífico e
que as guerras de narrativas tenham ficado restritas ao plano do discurso, sem
ataques violentos, demonstrando a maturidade de uma democracia que se renova a
cada pleito.
O resultado do primeiro turno revelou um
Brasil cindido. Flávio chegou à frente de Lula por menos de 2 pontos
percentuais, ou 2,2 milhões de votos. As mais recentes pesquisas sugerem que o
país assistirá amanhã a uma disputa acirrada. A divisão se reflete nas ruas, onde
as duas campanhas multiplicaram as manifestações e ampliaram a presença de
cabos eleitorais com bandeiras e adesivos.
Parte importante da disputa tem acontecido
nas redes sociais, terreno fértil para arregimentar apoio ou atacar
adversários. O Exército do Lula e a Tropa do Flávio, canais de WhatsApp que
reúnem milhões de seguidores, passaram a dar o tom da mobilização nas ruas. A
contenda por vezes desaguou em ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com
acusações de irregularidades de lado a lado. Seria uma lástima se, a esta
altura, a Corte derrubasse canais ou promovesse censura, por isso fez bem o
ministro Floriano de Azevedo Marques ao exigir que esse tipo de decisão só
possa ser tomada pelo plenário, e não por atos administrativos da presidência
do TSE.
Os estrategistas de ambas as campanhas
passaram a dedicar atenção especial a um conjunto de quase 500 municípios
propensos a mudar de voto a cada quatro anos, apelidados “cidades-pêndulo”.
Esses locais reúnem 9,2 milhões de habitantes e se concentram principalmente
nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. A maioria de seus eleitores votou no
ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018, migrou para Lula em 2022 e foi de Flávio
no primeiro turno de 2026. O histórico faz as campanhas intensificarem ações
para diminuir a abstenção e conquistar mais votos, tarefa sempre difícil num
eleitorado relativamente consolidado.
É verdade que, ao longo da campanha, a
propaganda eleitoral, tanto de Flávio quanto de Lula, resvalou para ataques
pessoais em detrimento de uma discussão madura sobre propostas, essenciais para
informar os eleitores e contribuir para eles tomarem sua decisão na urna. Não
que o perfil dos candidatos seja irrelevante, mas estabeleceu-se um vale-tudo
para desqualificar o adversário a qualquer preço. Nada disso contribui para a
democracia.
Espera-se que, nesta véspera do pleito,
quando ainda são permitidos caminhadas, carreatas e atos públicos, as campanhas
demonstrem comedimento e sensatez. Por mais que se anuncie uma disputa renhida
para definir o próximo presidente e que os concorrentes mantenham rivalidades,
candidatos e apoiadores devem conservar o tom pacífico que prevaleceu até aqui,
repudiando atos de violência, vandalismo e intolerância. Entende-se que os dois
lados queiram desesperadamente conquistar votos nesta reta final, mas esse
movimento deve ser feito de forma civilizada. Por meio da persuasão, não da
força ou da baderna.
Controvérsia no STF expôs deficiência crônica
do sistema tributário brasileiro
Por O Globo
Corte fez bem em excluir ISS da base de
cálculo de PIS e Cofins, mas conta poderá ficar cara para a União
Um dos efeitos mais perniciosos do pandemônio
tributário brasileiro é a quantidade de disputas que acabam na Justiça. Pela
última estimativa do Insper, o contencioso relativo a tributos somava perto de
R$ 5,7 trilhões em 2020, ou quase 75% do PIB. A reforma aprovada em 2023 criou
um sistema de impostos mais razoável, menos sujeito a desavenças na
interpretação da lei. Enquanto ela não entra plenamente em vigor, porém, a
Justiça continua a ser chamada a arbitrar conflitos de toda sorte.
Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal
(STF) concluiu um julgamento de grande impacto sobre uma das maiores
deficiências do sistema tributário: a soma de impostos já pagos à base de
cálculo de outros impostos, de modo a ampliar a arrecadação do Estado. A
controvérsia girava em torno da inclusão do ISS, imposto municipal, na base de
PIS e Cofins, contribuições federais. Por 6 votos a 5, prevaleceu a tese —
correta — de que não faz sentido pagar mais imposto sobre outro imposto já
recolhido. O mesmo entendimento já havia sido adotado em relação ao ICMS,
imposto estadual excluído da base de cálculo de impostos federais desde 2017.
No voto de desempate, o ministro Luiz Fux
constatou o óbvio: a parcela da receita auferida para pagar o ISS não se
incorpora ao patrimônio da empresa tributada, pois se trata de mero fluxo
financeiro entre o cliente, que paga o imposto embutido no preço do serviço, e
a fonte arrecadadora, o município. Seu voto adota exatamente o mesmo princípio
usado pela reforma
tributária ao determinar que os novos impostos criados sejam cobrados
apenas sobre o valor adicionado pela empresa, e não sobre os demais impostos já
recolhidos ao longo da cadeia produtiva, acabando com uma das maiores
aberrações tributárias brasileiras, a cobrança de impostos “em cascata”.
A decisão terá pouco efeito no futuro, já que
ambas as contribuições federais serão, a partir de 2027, substituídas pela
Contribuição de Bens e Serviços (CBS), criada pela reforma tributária, assim
como o próprio ISS e o ICMS serão substituídos pelo Imposto sobre Bens e
Serviços (IBS). No novo modelo, as empresas poderão descontar da base de
cálculo todos os créditos decorrentes do recolhimento de tributos nas fases
anteriores da cadeia de produção. Testados neste ano com uma alíquota baixa,
até 2033 os dois impostos estarão integralmente em vigor.
Apesar de a questão estar resolvida no futuro, persiste a disputa sobre o que fazer em relação ao passado. Pelo cálculo apresentado na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) deste ano, o governo teria de devolver R$ 35,4 bilhões com a decisão do STF, caso seja obrigado a restituir às empresas os tributos já pagos indevidamente. A Corte ainda voltará a discutir o tema, para definir se o entendimento sobre a exclusão do ISS da base de cálculo valerá apenas a partir da decisão ou se será retroativo. Independentemente do que venha a decidir, a mera controvérsia deixa claro como o pandemônio tributário tem efeito pernicioso no equilíbrio das contas públicas.
Distância entre Flávio e Lula se torna quase
imperceptível
Por Folha de S. Paulo
Arredondamento do Datafolha mostra placar de
50% a 50% nos votos válidos; pleito será decidido por detalhes
É incerto o que será feito do país a partir
de segunda (26); qualquer que seja, o vencedor enfrentará severas dificuldades
na economia
Depois do primeiro turno, a distância entre
as intenções de voto em Flávio
Bolsonaro (PL)
e Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
caiu em três semanas de quatro pontos para um ponto percentual na pesquisa Datafolha
divulgada na quinta (22).
Dos votos
totais, Flávio tem 47%, e Lula, 46%. Em votos válidos, ou seja,
excluídos os em branco e nulos como faz a Justiça Eleitoral, o arredondamento
leva ao placar de 50% a 50% —se as cifras tivessem uma casa decimal, seriam
50,5% a 49,5%. O estreitamento da diferença configura empate nas margens de
possibilidades da estatística.
Dada a distância diminuta entre os
candidatos, se alguma, os motivos que levaram a essa aproximação são quase
imponderáveis, assim como os fatores que podem decidir o vencedor. De menos
incerto, sabe-se que o país sairá dividido de modo ainda mais acirrado desta
disputa e desinformado de planos a respeito de problemas urgentes.
A eleição entrou em alvoroço. Depois da
derrota no primeiro turno, a campanha de Lula foi tomada por atividade
frenética, e o governo entregou-se de modo mais desabusado à decretação de
medidas eleitoreiras. A militância petista rumou às ruas em grandes números e
por todo o país. Com o
"Exército de Lula", liderado pelo deputado André Janones
(Rede-MG), o lulismo foi às redes sociais de modo agressivo.
Já a campanha de Flávio pareceu ter se
acomodado com o que acreditou ser vitória já confirmada pelo sucesso inicial.
Além de escândalos, contradições do programa econômico e social podem ter
contribuído para o desgaste bolsonarista. O próprio candidato renegou ideias
que emanavam de sua equipe de assessores.
Nesse ambiente, houve ligeira melhora da
avaliação do governo Lula, que teve 36% de ótimo ou bom e 39% de ruim ou
péssimo. O saldo ainda é negativo, o que costuma ser mau indício de
possibilidade de reeleição, mas o menor desde dezembro de 2024.
A taxa de rejeição ao mandatário ficou
praticamente estável, ora em 45%, ante 46% dos dois levantamentos anteriores.
No caso de Flávio, passou de 43% para 44% e 46% na mesma sequência.
No que resta da campanha, há risco de mais
manobras na Justiça, manifestações de rua, o tumulto das redes e o efeito do
último debate televisivo, na Globo. Mencione-se
ainda o desafio teatral feito por Lula e aceito por Flávio para que
ambos abram mão de seus sigilos bancário e fiscal.
Prognósticos são temerários. Ao menos desde
2018, a votação de candidatos da direita tem apresentado crescimento expressivo
nos dias finais de campanha. O resultado pode depender de pequena mudança na
abstenção, dos agora raros indecisos e da difícil transferência de votos de um
candidato para outro.
Assim como é indefinida a disputa, é incerto
o que será feito do país a partir de segunda-feira (26). Qualquer que seja, o
vencedor enfrentará alta rejeição e severas dificuldades na economia.
Amazonas em chamas, Manaus sob fumaça
Folha de S. Paulo
Focos de fogo sobem 116% em relação a 2025, e
El Niño ajuda a concentrar poluição na capital
Governos se mobilizam para conter o problema,
mas o país precisa se preparar para a intensificação do fenômeno climático
As aulas na rede municipal de ensino em Manaus
estão
suspensas desde o dia 9 deste mês; na rede estadual, desde o dia 13.
Isso porque, a partir de setembro, a população da capital amazonense passou a
enfrentar episódios de poluição atmosférica provocados pela fumaça de queimadas,
com agravamento da situação em outubro.
Segundo dados do Programa Queimadas do
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe),
de janeiro a 12 de outubro deste ano, foram
registrados 7.815 focos de incêndio no Amazonas, mais do que o dobro
dos 3.611 no mesmo período de 2025. Apesar de o número estar 12% abaixo da
média histórica e 67% abaixo do mesmo intervalo de 2024, a alta recente de 116%
é expressiva.
O El Niño,
que altera o padrão de circulação atmosférica, contribui para o acúmulo de
fumaça em Manaus. Em vez de a fumaça ser empurrada ao oeste, em direção ao
Peru, é levada à capital.
Em 2024, a seca sem precedentes atingiu todo
o estado durante o pico de fogo. Agora, 31% dos focos registrados entre
setembro e outubro se concentram na região metropolitana da capital amazonense.
Para especialistas e o Ibama,
há indícios de que o incêndios são criminosos —têm origem intencional não
autorizada.
A proximidade dos focos de incêndio a
municípios ao longo da rodovia BR-319, que leva a Manaus, reforça a percepção
de causa humana possivelmente relacionada a ocupação de terras.
No sábado (17), a Polícia Militar do Amazonas
prendeu 11 pessoas por suposto envolvimento com as queimadas. O Ibama
aplicou R$ 2 milhões em multas por incêndios em 19 autuações
realizadas na região metropolitana de Manaus.
O governo Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
afirma ter mobilizado 11 aeronaves e 290 brigadistas, e a gestão estadual de Wilson Lima
(União Brasil)
diz atuar no local no combate às chamas.
É bem-vindo o pedido feito pelo Ministério
Público Federal de instalação de uma "sala de situação
interfederativa" na capital, além de uma força-tarefa e de suspensão de
autorizações para queima.
O governo federal também anunciou a
implantação de uma Força Nacional do SUS na capital,
dado o aumento de casos de problemas respiratórios.
Só a ação integrada, baseada em evidências e
monitoramento, pode prevenir e conter incêndios, além de minimizar seus
efeitos.
O fenômeno El Niño ainda se intensificará até o primeiro semestre de 2027. A situação em Manaus alerta o país para a necessidade de preparar infraestrutura, logística, serviços públicos e segurança para o que está por vir.
O obsceno uso eleitoral da máquina pública
Por O Estado de S. Paulo
Um presidente não deixa de sê-lo só porque é
candidato, mas o problema é quando o candidato usa escandalosamente a caneta do
presidente, como fez Lula. É preciso dar um fim nisso
Com uma voracidade incomum mesmo para os
padrões brasileiros, o governo Lula subverteu o calendário eleitoral numa
gincana de bondades. Reajustou em 15% o Bolsa Família e antecipou os pagamentos
de outubro para encerrá-los no dia 21, a quatro dias do segundo turno.
Prorrogou desonerações e subsídios aos combustíveis, editou o enésimo Desenrola
e acenou com perdões de dívidas e desembolsos diretos para microempreendedores.
Segundo o Gastômetro do Estadão, 51 medidas representam
mais de R$ 400 bilhões entre créditos, subvenções, renúncias tributárias e
benefícios sociais. A cifra mistura valores de naturezas e prazos muito
distintos, mas a escala da ofensiva salta aos olhos.
Qualquer candidato pode prometer aliviar
dívidas ou baratear combustíveis. Mas o incumbente assina decretos, oferece
crédito subsidiado e altera o dia em que o dinheiro entra na conta de milhões
de famílias. Governa enquanto pede votos, dispondo de instrumentos que nenhum
concorrente tem à mão. Alguns eleitores podem desfrutar o benefício antes da
eleição, e os contribuintes podem receber a conta muito depois. A vantagem da
incumbência é inevitável. Transformá-la em ferramenta de marketing, porém,
violenta a impessoalidade do Estado e a igualdade da disputa.
Essa tentação, obviamente, não é apanágio de
tal ou qual partido ou campo político. Em 2022, Jair Bolsonaro patrocinou a
emenda constitucional que, sob um alegado estado de emergência, autorizou mais
de R$ 40 bilhões em benefícios extraordinários em plena corrida pela reeleição.
O Congresso compactuou. Em 2024, o Supremo declarou parte da emenda
inconstitucional por ferir a igualdade eleitoral, mas limitou os efeitos da
decisão ao futuro. O caso mostra como parlamentares podem preferir participar
da distribuição de favores a contê-la. Uma censura judicial, quando chega
depois da eleição, não restaura as condições em que o voto foi disputado.
Por isso, a legislação eleitoral já impõe
restrições ao uso de bens públicos e à distribuição de certos benefícios em ano
eleitoral. O arsenal econômico do Executivo, porém, vai além da velha cena do
político distribuindo cestas básicas e inaugurando obras. Ao reduzir tributos,
o governo pode baratear produtos sem entregar dinheiro a ninguém. Pode também
aliviar dívidas ou abrir linhas de crédito que criam expectativas de ganho
antes mesmo da execução. Sua capacidade de influenciar a disputa alcança ainda
decisões de imenso impacto que nem sequer passam pelo Tesouro – como a PEC da
escala de trabalho 5x2. Cumprir leis e ritos é indispensável, mas não encerra a
discussão sobre o oportunismo dessas iniciativas.
Em países como Canadá e Austrália, por
exemplo, convenções eleitorais orientam governos a adiar grandes decisões,
compromissos financeiros e nomeações enquanto o Parlamento está dissolvido. A
rotina da administração prossegue. São sistemas parlamentares, em que esses
limites dependem em boa medida da responsabilidade política dos governantes.
Sua transposição ao Brasil exigiria outro desenho. Ainda assim, a experiência convida
a examinar se decisões econômicas extraordinárias, sobretudo aquelas que podem
esperar, deveriam ficar sujeitas a contenção temporária. Uma emenda
constitucional, por exemplo, não é, por definição, urgente.
Um sistema de contenções é necessário, mas
desenhá-lo não é trivial. O Estado não pode baixar as portas durante as
eleições. Uma calamidade ou uma crise de abastecimento podem exigir
providências imediatas; programas regulares precisam continuar. Quem separaria
a urgência real da conveniência eleitoral? Proibições muito amplas ameaçariam a
capacidade de governar. Exceções vagas tornariam o freio decorativo. Tampouco é
simples escolher quem será o fiscal. Em 2022, o Congresso ajudou a abrir a
exceção. Se coubesse aos juízes decidir a oportunidade de políticas econômicas,
eles acabariam governando por liminares.
Até onde vai o direito de governar durante
uma campanha? Que decisões podem esperar algumas semanas? Quem teria
legitimidade para impor essa espera? As respostas exigem reflexão e muito debate.
Mas a dificuldade de encontrar os remédios certos não faz desaparecer a doença.
Tratar esse desequilíbrio como parte inevitável do jogo eleitoral é a maneira
mais cômoda de perpetuá-lo.
Receita para recuperar o grau de investimento
Por O Estado de S. Paulo
Reduzir a relação dívida/PIB e promover
reformas estruturais que destravem crescimento potencial são essenciais para
que agências melhorem a nota de crédito do Brasil
Há uma década, a agência de classificação de
risco Moody’s somava-se às suas principais concorrentes, Standard & Poor’s
(S&P) e Fitch, e retirava do Brasil o status de grau de investimento, uma
espécie de atestado de que um emissor de dívida – uma nação ou uma empresa, por
exemplo – é menos propenso a dar calote.
Como muitos fundos globais só podem investir
em ativos considerados de baixo risco, ter o chamado investment grade é importante para
atrair mais recursos. Logo, recuperar a classificação da qual o Brasil
desfrutou por um curto espaço de tempo (entre 2008 e 2016) é de grande
interesse do País e de suas companhias.
As notas variam a depender da agência, mas,
atualmente, poucas empresas, caso da Embraer, têm rating igual ou superior a
Baa3/BBB-, que são o piso da categoria grau de investimento. Por ser amplamente
integrada à cadeia global de comércio, o que lhe assegura diversificação de
receitas, a Embraer consegue desvincular-se da nota soberana do Brasil. Mas,
para a grande maioria das empresas, inclusive algumas com boa geração de caixa
e baixa alavancagem (relação dívida/Ebitda), a classificação do Brasil acaba
sendo um limitador.
Não bastasse tudo isso, economias menores e
bem menos diversificadas do que a brasileira têm classificação grau de investimento.
É o caso do Paraguai, cujo rating é Baa3 na Moody’s e BBB- na S&P. A Fitch
avalia o Paraguai como BB+, mas como a nota tem perspectiva positiva, o país
tem boas chances de conquistar o grau de investimento também com essa agência.
Além do Paraguai, Chile, Peru e Uruguai são considerados investment grade por pelo menos uma
das três grandes agências globais.
Já o Brasil tem nota BB com perspectiva
estável – ou seja, nível especulativo – tanto na S&P quanto na Fitch,
estando assim a dois degraus do desejado grau de investimento. Um pouco mais
generosa que as rivais, a Moody’s classifica o País como Ba1 com perspectiva
estável, apenas um degrau abaixo do investment
grade.
De um modo geral, países com bons indicadores
de crescimento, histórico de superávits primários e relação dívida/PIB
confortável são os que ostentam a condição de grau de investimento. Alterações
em uma dessas variáveis não levam, necessariamente, à perda da nota, mas sinais
de alerta em todas elas definitivamente impedem ratings mais elevados.
E é justamente por ser um sinal amarelo em
transição para o vermelho que o Brasil segue empacado na zona de grau
especulativo. O crescimento está muito aquém do potencial de uma nação com o
tamanho e os recursos naturais e humanos que o Brasil possui – para 2027, o
Fundo Monetário Internacional (FMI) já projeta incremento inferior a 2% para o
PIB brasileiro.
Há ainda a armadilha da dívida pública, hoje
em patamares proibitivos para economias de médio porte como a brasileira. É
praticamente impossível que o País atraia capital de longo prazo se a relação
dívida/PIB se aproxima dos 90%, como se prevê. Não bastasse isso, boa parte
dessa dívida está indexada a uma taxa Selic de dois dígitos. Quando observa um
endividamento desse tamanho, somado a juros tão altos, tudo o que o investidor
quer é evitar o Brasil.
Existe também a velha questão das reformas
estruturais que não decolam. As agências de classificação de risco soam até
repetitivas ao alertar sobre a necessidade de reduzir a rigidez do Orçamento –
quase todo comprometido com despesas previdenciárias, programas sociais e
salários do funcionalismo. Desindexar gastos obrigatórios da inflação é um
gatilho, no jargão das agências, para um upgrade.
O desequilíbrio entre arrecadação e gastos e até mesmo as emendas parlamentares
também estão na mira dos avaliadores internacionais.
A vantagem da receita para a retomada do grau
de investimento é que ela é basicamente a mesma que, se adotada, permitirá ao
País crescer mais, com juros mais civilizados e com superávits críveis. Mas
para isso é preciso que o próximo governo tenha mentalidade de “investment grade”. Do contrário, o
País flertará seriamente com um futuro junk
(lixo).
Cuidado com o que se deseja
Por O Estado de S. Paulo
Fim da escala 6x1 vai acelerar a automação,
resultando na dispensa de trabalhadores
A aprovação do fim da escala 6x1 pelo
Congresso pode acelerar mudanças na economia e causar impactos ainda não
mensurados no mercado de trabalho brasileiro. A incorporação de novas
tecnologias que, por exemplo, permitam ao consumidor fazer compras sem o
auxílio de operadores de caixa pode se tornar o “novo normal” e, eventualmente,
se estender a outros tipos de serviços em todo o País.
Não se trata de exagero. Como mostrou uma
reportagem do Estadão há
poucos dias, uma indústria de Diadema (SP) especializada em caixas de
autoatendimento para supermercados, atacados e atacarejos está trabalhando
dobrado para atender à demanda. A empresa dobrou a produção de um ano para o
outro e está com 3 mil pedidos em carteira – e isso tudo antes de a emenda
constitucional ser promulgada.
Ainda são poucas as empresas que oferecem
tecnologia amigável e moderna o suficiente para dispensar interferência humana
na finalização de compras. No entanto, basta frequentar supermercados das
grandes capitais para verificar o crescimento das áreas de autoatendimento e
observar como um único operador é capaz de auxiliar vários clientes
simultaneamente.
Com a mudança na escala de trabalho, quem não
tem capital de giro nem acesso a crédito barato simplesmente reduzirá o horário
de funcionamento de seus negócios e repassará o aumento de custo ao consumidor.
Mas quem está em situação mais confortável e ainda hesitava em testar essa
tecnologia em seus negócios ganhou um impulso adicional pela primeira opção. A
mão de obra, que já está escassa, vai encarecer ainda mais com a redução da
jornada, enquanto as despesas para aquisição ou aluguel desses equipamentos
podem até ser elevadas no curto prazo, mas tendem a cair conforme sua massificação.
A bem da verdade, o Brasil já está bastante
atrasado em relação a outros países. Se por aqui a automação ainda engatinha e
o número de entregadores que prestam serviços por meio de aplicativos disparou,
entregas feitas por drones e carros automatizados já são realidade em alguns
lugares dos Estados Unidos e da China. O autoatendimento no comércio é regra há
anos, assim como serviços mais simples, como o abastecimento de veículos em
postos de combustíveis e o despacho de bagagens em aeroportos.
A tecnologia, a automação e a inteligência
artificial podem transformar a economia e alavancar nossa produtividade, mas
não virão sem dores nem consequências. Essa transformação eliminará milhões de
empregos de baixa qualificação, que são justamente os que mais têm crescido,
segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad
Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Os novos postos de trabalho que surgirão a partir dessa revolução tecnológica exigirão um nível de escolaridade e de treinamento que a grande maioria dos trabalhadores brasileiros, por ora, não tem. De que forma o País lidará com isso é uma incógnita. Mas esse é um problema que fica para depois das eleições.
A democracia não pode ficar refém dos algoritmos
Por Correio Braziliense
Suspeitas de favorecimento eleitoral nas
plataformas digitais ameaçam a legitimidade do voto e podem comprometer o
reconhecimento do resultado das urnas
Preocupa muito ver a eleição brasileira ser
afetada pela atuação de uma empresa privada, sob suspeita de manipular as
manifestações políticas da população. As explicações apresentadas pela Meta,
controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp, não convenceram os candidatos,
o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Ministério Público Eleitoral (MPE) e até
parlamentares norte-americanos, que enviaram uma carta ao empresário Mark
Zuckerberg, controlador do conglomerado. É inadmissível que a democracia
brasileira seja contaminada por suspeitas de fraude ou interferência indevida.
Esse desvio prejudica a legitimidade do voto, com danos tanto para vencedores
quanto para perdedores.
A gravidade do problema aumenta com a
proximidade do segundo turno, neste domingo. A disputa acirrada transformou as
redes sociais num campo decisivo da campanha. Nesse ambiente, a Meta exerce um
poder extraordinário sobre a circulação das informações políticas, por meio de
algoritmos que selecionam conteúdos, recomendam perfis, distribuem publicidade
e restringem publicações. Nenhuma empresa privada deveria exercer tamanha
influência sobre o debate democrático sem transparência e fiscalização efetiva.
As suspeitas não surgiram do nada. Reportagem
da Folha de S.Paulo, baseada em mensagens internas de funcionários da Meta,
revelou restrições que prejudicaram a campanha de Lula, inclusive a
impossibilidade de impulsionar publicações durante quase 24 horas, em 9 de
outubro. Ao mesmo tempo, o perfil de Flávio Bolsonaro aparecia em recomendações
no Instagram e seu canal era sugerido em buscas no WhatsApp, contrariando
regras eleitorais. A empresa reconheceu falhas técnicas, mas negou qualquer
favorecimento deliberado.
Entretanto, a explicação de que tudo decorreu
de erros operacionais não encerra a questão. O MPE acrescentou um elemento
institucional à controvérsia. Em parecer encaminhado ao TSE na quarta-feira, o
vice-procurador-geral Eleitoral, Alexandre Espinosa, apontou descumprimento
parcial das 17 medidas determinadas pela Justiça para assegurar igualdade entre
as campanhas.
A Meta deixou de apresentar informações
individualizadas sobre anúncios suspensos, relatórios sobre denúncias
eleitorais e estatísticas do funcionamento de sua inteligência artificial. O
parecer também mencionou respostas diferentes da Meta AI a solicitações
semelhantes envolvendo os dois candidatos e traduções automáticas capazes de
alterar o sentido de manifestações políticas. Ontem, o corregedor-geral
eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, deu 24 horas para a Meta e o X
apresentarem esclarecimentos técnicos sobre distribuição de conteúdos, IA e
propaganda eleitoral.
A preocupação ultrapassou as fronteiras
brasileiras. Doze deputados democratas norte-americanos e o senador independente
Bernie Sanders enviaram carta a Zuckerberg cobrando explicações sobre o
tratamento dispensado às candidaturas. Levantamento do NetLab, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, identificou 1.613 anúncios políticos considerados
irregulares, veiculados entre julho e setembro, com aproximadamente R$ 2
milhões em recursos e 171 milhões de impressões. Parte dos pagamentos teria
origem no exterior. O problema envolve também a possibilidade de financiamento
estrangeiro de propaganda política.
Não se trata de atribuir aos algoritmos o poder absoluto de decidir eleições. Os eleitores têm discernimento, convicções e interesses próprios. Mas a liberdade de escolha pressupõe igualdade de oportunidades para as candidaturas e acesso a informações sem manipulação indevida. A democracia não pode depender exclusivamente da palavra de uma empresa sobre o funcionamento de sistemas que somente ela conhece integralmente.
Democracia, um bem que exige cuidados
Por O Povo (CE)
Independentemente do candidato a ser eleito,
ele deve jurar um compromisso inabalável com o Estado Democrático de Direito
Milhões de brasileiros sairão de casa neste
domingo para renovar o seu compromisso com a democracia, simbolizado pelo
direito ao voto. Após uma campanha tensa, opondo dois candidatos com diferentes
visões de mundo, quando não opostas, chegou a hora de o povo brasileiro,
livremente, dar o seu veredito. Os eleitores vão decidir entre a continuidade
de um governante de esquerda, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT),
candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), alinhado à direita,
disputando o cargo pela primeira vez.
A campanha dividiu a sociedade brasileira ao
meio, como indicam as pesquisas de intenção de voto. Nessas circunstâncias, é
impossível prever o resultado das urnas, o que acirra ainda mais os ânimos.
Nesse aspecto, a situação repete o que ocorreu na eleição presidencial de 2022,
quando Lula concorreu com o pai de Flávio, Jair Bolsonaro. Assim, parece que o
Brasil caminha em círculos, sem conseguir sair da armadilha da polarização
política.
O aspecto positivo é que, apesar das
dificuldades, a democracia no País continua fortalecida, com instituições
reconhecidas mundialmente, inclusive por evitarem uma tentativa de ruptura
institucional.
Assim, o Brasil conquistou uma gigante
respeitabilidade internacional, a ponto de a eleição presidencial ganhar
destaque nos principais meios de comunicação do exterior. Jornais e revistas de
todo o mundo acompanham atentamente o desenrolar dos fatos, destacando o vigor
da democracia brasileira, frente ao número cada vez maior de líderes de feição
autocrática que assumem o poder na América Latina.
Também faz parte da democracia garantir
condições equivalentes para ambos os concorrentes, o que os juristas costumam
chamar de "paridade de armas". Porém, há muitos questionamentos sobre
a atuação da Meta, plataforma sediada nos Estados Unidos, que controla o
Facebook, Instagram e WhatsApp.
A big tech é acusada de agir em contrariedade
a esses princípios, interferindo diretamente nas eleições, o que é inaceitável.
A empresa digital nega que tenha agido propositalmente, alegando problemas
"técnicos", quando é confrontada com provas irrefutáveis.
Por fim, é preciso garantir que as conquistas no campo democrático sejam preservadas. Independentemente do candidato a ser eleito, ele deve jurar um compromisso inabalável com o Estado Democrático de Direito. Mesmo porque a democracia precisa ser cuidada sem descanso, pois é um bem frágil, que pode ser corroída por dentro, mesmo por governantes que chegam ao poder por meio do voto.

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