sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Reforma tributária deve entrar em vigor como promulgada

Por O Globo

Em vez de mudar avanços resultantes de décadas de debate, candidatos têm de se preocupar em implementá-los

Em 20 de dezembro de 2023, numa sessão histórica com a presença de autoridades dos três Poderes, o Congresso promulgou a reforma tributária, proposta discutida havia mais de 30 anos. Foi um momento raro de consenso político em favor dos brasileiros, reféns de um sistema tributário caótico e injusto. Esse avanço não pode ser desperdiçado. Por isso mesmo, os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputarão o segundo turno em 25 de outubro, precisam se comprometer a preservar o que foi decidido e dar andamento à implementação da reforma.

Lamenta-se que o governo Lula, sob pretexto das eleições, tenha adiado a definição de alíquotas de novos impostos. O Planalto deixou para depois do pleito o envio do projeto para instituir o Imposto Seletivo, cujas alíquotas, estabelecidas por lei, incidirão sobre produtos prejudiciais à saúde e ao meio ambiente, como cigarros ou bebidas alcoólicas. O adiamento, para o qual não existe justificativa plausível, já que a proposta foi aprovada em 2023, deverá atrasar a implementação, prevista para janeiro de 2027.

Também são motivo de incerteza os sinais emitidos por Flávio e sua campanha sobre o tema. Embora afirme ser favorável à simplificação e à desburocratização tributárias, ele tem defendido rever a alíquota dos novos impostos sobre o valor agregado, que depende ainda de decisão do Senado, mas é estimada em 28%. É verdade que se trata de percentual alto na comparação com a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (19%). A questão, no entanto, já foi exaustivamente debatida no Legislativo, com contribuição de parlamentares do próprio PL. Retomar tal discussão abrirá brecha para atrasar ainda mais a implementação da reforma, em prejuízo de todos os brasileiros.

Outra controvérsia foi levantada por Daniella Marques, assessora econômica de Flávio, ao afirmar que, se ele for eleito, pretende acabar com o mecanismo conhecido como split payment, que desconta automaticamente o valor dos tributos em pagamentos eletrônicos para reduzir sonegação. Argumenta que pode prejudicar o capital de giro das empresas, especialmente das pequenas. Ora, esse é mais um tema já debatido, os argumentos foram sopesados, e a decisão foi tomada. Ainda que no novo Congresso possa haver maioria para desfigurar a reforma, seria um erro grave desmontar o consenso amadurecido ao longo de décadas. A chance de qualquer revisão resultar em legislação melhor é remota.

Ao estabelecer a unificação dos impostos sobre consumo, a reforma representa um passo decisivo para acabar com o pandemônio tributário que complica a vida de empresas, consumidores e afugenta investidores. A profusão de tributos e regulamentos municipais, estaduais e federais faz do Brasil uma aberração no que diz respeito ao pagamento de impostos. No atual cenário, as empresas se mostram mais preocupadas com incentivos fiscais que com acesso a mão de obra ou mercados consumidores. De forma sensata, previu-se um período de transição de dez anos para que todos possam se adaptar. O resultado pode não ser perfeito, devido a todas as pressões e listas de exceções, mas é infinitamente melhor que a situação atual. Seja quem for o vencedor da eleição, deverá se preocupar em implementar a reforma como foi promulgada. Seria uma lástima reverter os avanços conquistados.

Caso Garotinho demonstra que a Justiça Eleitoral precisa ser mais célere

Por O Globo

Se soubessem que a foto na urna era de um candidato inválido, 274 mil eleitores não teriam desperdiçado voto

A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de anular os votos dados ao ex-governador do Rio Anthony Garotinho (Republicanos) em 4 de outubro demonstra de modo irrefutável por que a Justiça Eleitoral precisa ser mais ágil. O julgamento aconteceu depois do primeiro turno, quando Garotinho havia obtido 274.411 votos, ou 3,2%% do total — ele foi superado pelo presidente da Assembleia Legislativa Douglas Ruas (PL), com 49,3%, e pelo ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), com 42,8%. A anulação abriu caminho para que Ruas seja eleito governador em primeiro turno.

A demora para chegar a uma decisão definitiva criou uma situação inusitada. Garotinho participou da campanha para o Palácio Guanabara, compareceu a debates, deu entrevistas, e seu nome apareceu nas urnas da mesma forma que os demais candidatos. Para os eleitores, estava tudo valendo. Os quase 275 mil que votaram nele esperavam poder escolher outro candidato no segundo turno que se desenhava entre Ruas e Paes. Quatro dias depois, descobriram que seus votos em Garotinho não valeram nada.

Diante de seu conturbado histórico eleitoral, eram previsíveis os obstáculos no caminho de Garotinho. Sua candidatura já havia sido indeferida pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), e o TSE manteve ontem o indeferimento, por entender que ele não preenchia as condições necessárias para disputar o pleito, já que havia sido condenado por improbidade administrativa, e não havia transcorrido o prazo determinado pela Lei da Ficha Limpa para que recuperasse os direitos políticos.

Garotinho não foi o único a obter registro regular de sua candidatura, apesar de decisões judiciais que implicavam a inelegibilidade. Evidentemente, o registro por si só não garante que estejam aptos a concorrer. Daí a necessidade de manifestação rápida da Justiça Eleitoral. “O eleitor não pode ficar na dúvida sobre a validade do próprio voto”, afirmou editorial do GLOBO publicado em 20 de agosto exigindo análise célere dos casos pendentes.

Muitos casos envolvem diferentes instâncias e tribunais, dependem de outros processos, e os candidatos ainda podem recorrer a Brasília, postergando as decisões. Mas é preciso um esforço das autoridades para evitar o que acaba de acontecer: o eleitor escolher um nome na urna, depois seu voto ser jogado fora. Está certo o ministro Floriano de Azevedo Marques, do TSE, ao dizer que a Justiça Eleitoral não pode deixar casos assim indefinidos. Para ele, se a decisão eleitoral “tardar, ela falha”.

O nome de um candidato que não tem condições de concorrer por pendências com a Justiça não deveria constar da urna. O eleitor não tem obrigação de saber quem está apto. Por mais que a anulação dos votos esteja respaldada por argumentos jurídicos sólidos e mire candidatos que realmente não merecem disputar eleições por terem ficha suja, é uma frustração para quem votou. Se soubesse que a foto na urna era de um candidato inválido, o eleitor provavelmente teria escolhido outro — e não teria desperdiçado o voto.

Militares devem estar sob poder civil e longe da política

Por Folha de S. Paulo

É essencial que a chefia da pasta da Defesa não seja entregue a um militar em caso de vitória de Flávio

Sob Jair Bolsonaro, politização das Forças fomentou tentativa de golpe; nomeados para postos civis nos três Poderes devem renunciar à carreira

O Ministério da Defesa foi criado 14 anos depois do fim da ditadura e 11 anos depois da Constituição, desde logo sob a chefia de um civil. Sob Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1999, as pastas da Marinha, do Exército e da Aeronáutica tornaram-se Comandos.

Tudo se passou como se fosse necessário um longo período de distensão, apaziguamento e estabilização democrática para que o papel das Forças Armadas e dos militares fosse circunscrito, sem crises, ao de um serviço e de uma carreira de Estado.

A partir de 2018, no entanto, militares chegaram à chefia da Defesa. Em 2022, estavam outra vez envolvidos em tentativa de golpe. A possibilidade de que Flávio Bolsonaro (PL) venha a ser eleito presidente reaviva a questão militar, que se tornou crítica sob seu pai, Jair Bolsonaro.

Foi Michel Temer (MDB) quem nomeou o primeiro general para a Defesa. Presidente de popularidade ínfima, com mandato ameaçado, lidava com crises na segurança pública e com a greve dos caminhoneiros. Recorreu às Forças Armadas para operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), na tentativa de conter tumultos e violências. Fardados voltaram à vida pública.

Jair Bolsonaro, um capitão insidioso e na prática posto para fora do Exército, fez carreira política saudando a ditadura militar. Presidente, não apenas nomeou generais para a Defesa e outros ministérios como lotou cargos de confiança civis de seu governo com 6.157 integrantes da caserna. Expurgou os Comandos de seus desafetos e continuou a campanha de politização da tropa.

Arquitetou um golpe com o último general ocupante da Defesa de seu governo, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, e com o antecessor dele, Walter Braga Netto, condenados pela trama golpista com outros 17 militares. O crime só não foi levado adiante por causa da oposição dos Comandos do Exército e da Aeronáutica.

É inaceitável o mero risco de repolitização das Forças. A fim de que se contenha a ameaça de contágio da tropa e o incentivo à indisciplina, à quebra da hierarquia, à confraternização com paisanos criminosos, à subversão e, enfim, a intentonas, militares não podem chefiar a Defesa.

Além do mais, aqueles que venham a ser nomeados para postos civis nos três Poderes devem renunciar à carreira, assim como os fardados que queiram se candidatar em eleições —isso deveria estar fixado na legislação.

Jair Bolsonaro reativou em setores das tropas o vírus do intervencionismo e fez propaganda do autoritarismo armado. Seu mandato foi prova do efeito funesto imediato da militarização do governo e da partidarização das Forças Armadas.

O país democrático está de prontidão diante de ameaças de virar do avesso a Constituição. Será essencial que Flávio, como se noticia, tenha esse entendimento e, em um eventual mandato no Planalto, mantenha os fardados fiéis à sua missão constitucional.

Protestos abalam a França em crise fiscal

Por Folha de S. Paulo

Onda de manifestações, que já deixou centenas de feridos, representa mais desgaste para Macron

País enfrenta consequências da dívida pública que chegou a 119% do PIB; protestos podem impulsionar forças políticas autoritárias

A França é famosa por seus vinhos, queijos e protestos. O país se vê mais uma vez tomado por uma onda de manifestações, iniciada há cerca de 20 dias por estudantes secundaristas que reclamavam de falta de recursos e de professores, mas que rapidamente conquistou a adesão de outros setores.

Estima-se que mais de 250 mil pessoas tenham comparecido às últimas marchas, enquanto os protestos chegaram a mobilizar quase um quarto dos liceus.

Embora a maior parte dos manifestantes proteste pacificamente, registram-se episódios recorrentes de violência, com depredações, incêndios, saques, agressões e confrontos com a polícia. O ministro do Interior informou, na segunda (7), que 761 policiais, 215 estudantes e 89 funcionários de escolas foram feridos; ocorreram mais de 6.000 detenções, muitas delas de menores.

Protestos na França têm pedigree. Vão da Revolução Francesa (1789), passam pela Comuna de Paris (1871) e pelo chamado Maio de 1968. Mesmo quando não atingem a dimensão de eventos históricos, afetam as percepções da sociedade e têm o poder de influenciar as políticas dos governos.

Neste século, houve protestos contra a violência policial, em 2005, os preços dos combustíveis, em 2018 e 2019, e a reforma da Previdência, em 2023. Em janeiro, agricultores fecharam ruas de Paris contra o acordo entre a União Europeia e o Mercosul.

Governos de diferentes matizes ideológicos, ainda que reprimam alguns eventos, não deixam de ouvir os cidadãos e, muitas vezes, atender às reivindicações.

Na França, é muito difícil cortar ou redesenhar benefícios sociais. Mas, se os protestos sensibilizam autoridades, não alteram realidades demográficas e econômicas. Desde 1974, a França não executou nenhum Orçamento equilibrado. A dívida pública está em € 3,6 trilhões, o equivalente a 119% do PIB. Num contexto global de alta de juros, a deterioração fiscal torna-se alarmante.

Politicamente, as manifestações representam mais desgaste para o presidente Emmanuel Macron e, pior, tendem a impulsionar forças autoritárias. Macron não poderá concorrer à reeleição em abril e não parece ter herdeiro competitivo.

Marine Le Pen, da ultradireita, aparece nas pesquisas como grande favorita, e Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, está entre os mais bem cotados para chegar a um segundo turno.

A se confirmar esse cenário, será interessante ver como um governante ilibhttps://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/10/franca-mergulha-em-crise-fiscal-sob-fogo-cruzado-dos-mercados-e-das-ruas.shtmleral lida com protestos, que, dada a tradição francesa, não desaparecerão.

O Judiciário bagunçou a eleição no Rio

Por O Estado de S. Paulo

O resultado da disputa pelo governo do Rio não reflete a escolha final dos eleitores, conclusão natural da série de manobras e casuísmos judiciais que desmoralizaram a eleição naquele Estado

O futuro governador do Rio foi escolhido em Brasília, quatro dias após o pleito. Por 5 votos a 2, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anulou os 274.411 votos dados a Anthony Garotinho (Republicanos) no primeiro turno. Assim, Douglas Ruas (PL), que recebeu inicialmente 49,27% dos votos válidos, passou a ter 50,88%, o que dispensa a realização do segundo turno contra Eduardo Paes (PSD). Não é o caso, aqui, de discutir as preferências dos eleitores fluminenses. Digna de nota é a responsabilidade exclusiva do Judiciário pela bagunça em que se converteu a eleição para o governo daquele Estado.

O primeiro responsável é o Supremo Tribunal Federal (STF). Quando Cláudio Castro (PL) renunciou ao governo, em 23 de março deste ano, na véspera de ser julgado pelo TSE, o Rio não tinha vice-governador, pois Thiago Pampolha havia trocado o cargo por uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado, e o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União), estava afastado – ele seria preso poucos dias depois por suspeita de ligação com o Comando Vermelho. Em caráter de emergência, o governo interino coube ao presidente do Tribunal de Justiça, o desembargador Ricardo Couto.

Em 17 de abril, os deputados estaduais elegeram Douglas Ruas como presidente da Alerj, integrando-o à linha sucessória do governo do Estado, como determina a Constituição fluminense. Cessava ali a situação emergencial que alçou o sr. Couto ao Palácio Guanabara. Contudo, por puro juízo de conveniência, o STF recusou-se a rever a decisão de manter o desembargador à frente do governo estadual “até nova deliberação”, jogada para as calendas.

Na sessão em que a Corte manteve o desembargador no cargo, o decano Gilmar Mendes chegou a dizer que ouviu do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, o relato de que “32 ou 34 parlamentares da assembleia recebem mesada do jogo do bicho”. Ou seja, a seu modo, o ministro deu a entender que um governador saído daquela instituição só poderia ser um governador escolhido pelo crime organizado. Logo, seria prudente não deixá-lo assumir. Não se pode condenar quem entenda dessa forma a rejeição de todos os pedidos de reconsideração apresentados ao STF desde então pela Alerj para que fosse restabelecida a linha sucessória. E aí está o Rio, há quase sete meses sob o comando de um “governador biônico”, inexistente no ordenamento constitucional pátrio.

A esse erro jurídico crasso soma-se o erro estratégico. Ora, se o objetivo do STF era impedir Ruas de assumir o governo, a Corte, na prática, pavimentou o caminho para que o candidato chegasse ao Palácio Guanabara. Ruas, que foi secretário de Cláudio Castro, fez uma campanha livre do ônus de governar um Estado cronicamente em crise e, ademais, de ter de responder pelos erros de gestão cometidos pelo grupo político do qual faz parte. O STF, portanto, deu-lhe de bandeja a confortável posição de ser um candidato que pode prometer tudo sem ser cobrado por nada.

O segundo responsável é o TSE. O registro da candidatura de Garotinho foi barrado pelo Tribunal Regional Eleitoral no dia 11 de setembro, em razão de uma condenação por improbidade administrativa. A Justiça Eleitoral, portanto, teve quase um mês para dar a palavra final sobre a situação do candidato antes da votação. Mas, em vez disso, produziu um vaivém de decisões monocráticas.

Em 30 de setembro, devolveu a Garotinho o direito de fazer campanha e usar dinheiro do Fundo Eleitoral. No dia 2 de outubro a liminar caiu. No dia da eleição, o presidente do TSE, ministro Nunes Marques, mandou computar os votos dados ao candidato até que o plenário se manifestasse sobre sua situação jurídica. Garotinho participou de debates, esteve na urna, recebeu mais de 274 mil votos e só então, depois de conhecido o resultado e de ele mesmo desistir de um recurso, o TSE se dignou a decidir que ele era inelegível e os votos dados a ele não valeram.

A Justiça Eleitoral é um ramo especializado do Judiciário e tem jurisdição concentrada no tempo. Sua missão precípua é garantir a paridade de armas entre os candidatos e dar aos eleitores a tranquilidade de saber em quem podem votar. Se é para decidir de forma extemporânea, ou pautada por interesses alheios à legislação vigente, a Justiça Eleitoral perde sua razão de existir.

Reforma administrativa é urgente

Por O Estado de S. Paulo

A desmoralização representada pelos penduricalhos é apenas a consequência lógica da disfuncionalidade do Estado brasileiro, que precisa ser enfrentada sem mais delongas

Ao validar recentemente o desrespeito ao teto remuneratório estabelecido na Constituição, o Supremo Tribunal Federal (STF) escancarou de vez a necessidade de uma ampla reforma administrativa. A desmoralização representada pelos penduricalhos – adicionais salariais isentos de Imposto de Renda, pagos a título de “indenização” a servidores públicos já muito bem remunerados, como juízes e promotores públicos – é apenas a consequência lógica da disfuncionalidade do Estado brasileiro, que precisa ser urgentemente enfrentada.

Não é tarefa fácil, porque significa contrariar poderosas corporações que fazem valer os interesses privados em detrimento da coisa pública. Mas não é possível falar em ajuste fiscal sem atacar uma das causas fundamentais do desequilíbrio das contas, que é o financiamento de uma máquina estatal ineficiente e balofa. Logo, o futuro presidente, seja ele quem for, precisa redimensionar o Estado para fazê-lo caber no Orçamento, e também precisa restabelecer o prêmio ao mérito no serviço público, eliminando promoções automáticas e aumentos salariais disfarçados de indenização.

Um bom caminho, um tanto óbvio, é acabar com a estabilidade generalizada para o funcionalismo público. Só deveriam ser estáveis os servidores em carreiras típicas de Estado, especialmente policiais federais, juízes e promotores, diplomatas e auditores, além de fiscais e defensores públicos. Os demais devem estar sujeitos à demissão caso não trabalhem de maneira satisfatória, como acontece no setor privado. Além disso, a política salarial deve ser modificada para estabelecer rendimentos iniciais mais próximos da realidade do mercado de trabalho e uma progressão de carreira mais longa.

A julgar pelo que vimos das propostas dos dois finalistas do segundo turno da eleição presidencial, contudo, a questão não será tratada como prioridade. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por exemplo, enxerga os servidores públicos como um ativo eleitoral, tanto que a reforma administrativa nem sequer é mencionada nas 84 páginas do programa de governo que registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL), dedicou à reforma administrativa uma página e meia de seu programa de governo de 76 páginas, mas pelo menos pregou eficiência e racionalidade na máquina pública e a modernização do Estado e da carreira do servidor. Já é alguma coisa.

O histórico das reformas administrativas, ademais, não é auspicioso. O governo Jair Bolsonaro até chegou a enviar ao Congresso uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para tratar da reforma, mas o ex-presidente nunca trabalhou por sua aprovação. A Câmara desfigurou completamente a proposta e estendeu privilégios para outras categorias próximas do ex-presidente, como policiais e guardas municipais. Felizmente, a contrarreforma não avançou.

No governo Lula, o deputado Pedro Paulo (PSD-RJ) elaborou uma proposta, mas o Executivo nunca deu apoio formal ao texto, e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), não o pautou em plenário. Mas talvez nada seja mais simbólico que o projeto que visava a limitar penduricalhos e que acabou por dar aval a nada menos que 32 tipos de pagamento indenizatórios, direitos adquiridos ou ressarcimentos. Elaborado pela comissão especial extrateto em 2016, ele está atualmente na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Esse breve retrospecto evidencia um ponto que é fundamental nessa discussão: uma reforma administrativa só será aprovada pelo Congresso se o presidente eleito se envolver diretamente com a questão. Não basta tratar o Legislativo como um balcão de protocolo de projetos de lei, muito menos deixar que deputados e senadores decidam sozinhos o que deve e o que não deve entrar no texto.

Parlamentares dependem do voto da população para se eleger. Logo, não pagarão o ônus político de aprovar uma medida que pode ser vista de maneira negativa, ainda que necessária para o reequilíbrio do Estado, se não puderem dividi-lo com o governo.

Choque de realidade na França

Por O Estado de S. Paulo

Os tumultos revelam uma política travada entre promessas sociais e fadiga econômica

As barricadas erguidas por estudantes franceses evocam mais uma vez a velha paixão nacional por protestos. A semelhança com o passado engana. As queixas sobre falta de professores, turmas cheias e escolas deterioradas são reais. O que torna a crise reveladora é que elas recaem sobre um Estado que já arrecada e gasta como poucos – e ainda assim encontra cada vez menos espaço para responder.

A França acumulou compromissos sociais maiores do que sua economia consegue bancar. Durante anos, impostos elevados, déficits e dívida permitiram adiar escolhas. Juros excepcionalmente baixos tornaram essa procrastinação barata. Esse tempo acabou. O déficit continua acima de 5% do PIB, a dívida ronda 120% e o serviço dos juros cresce justamente quando o governo precisa economizar dezenas de bilhões de euros.

Daí o curto-circuito político. Aumentar impostos tornou-se difícil, endividar-se custa mais e o crescimento é insuficiente. Restaria decidir quem perde renda, benefício ou proteção. Cada decisão, porém, mobiliza um grupo organizado. A tentativa de elevar a idade de aposentadoria de 62 para 64 anos incendiou o país. Mesmo ajustes tímidos exaurem ou derrubam governos. Vão-se os primeiros-ministros, fica a conta que os triturou.

À esquerda e, sobretudo, à direita os populistas prosperam prometendo que o custo pode ser deslocado para outro grupo, outra geração ou alguma solução extraordinária. Seu avanço exprime uma recusa difusa em reconhecer a restrição. Ao bloquear reformas, porém, só encarecem o ajuste futuro e alimentam o mal-estar de que vivem.

Falando da Alemanha, o chanceler (premiê) Friedrich Merz, que enfrenta imbróglios similares, resumiu a situação de um continente que estava satisfeito com uma combinação de exportação de produtos caros, proteção dos EUA e importação barata de produtos da China e de petróleo da Rússia. Essa divisão de tarefas acabou. As fricções globais aumentam e a Europa envelheceu, precisa gastar mais com defesa e energia e se afasta cada vez mais dos EUA em produtividade e inovação. Enfrentar essa nova realidade com a mentalidade antiga é uma política de alienação autodestrutiva.

A mera tesoura orçamentária seria insuficiente. A França precisa reformar despesas cuja trajetória já não combina com sua demografia, sobretudo a previdência, e recuperar capacidade de produzir. Isso exige eliminar regulações que obstruem o trabalho e o investimento e usar com mais critério o gasto público, enquanto a Europa reduz as barreiras que limitam capital e inovação. Sem produtividade, faltará base fiscal para sustentar proteção social, defesa e investimento.

Os países nórdicos mostram que um Estado social generoso pode conviver com prosperidade. Suas regras, porém, precisam ser adaptáveis, e a economia deve ser suficientemente dinâmica para pagá-las. As válvulas que permitiram à França adiar suas escolhas estão se fechando. O ajuste é inevitável. Quanto antes os franceses decidirem sua forma, maior será sua liberdade para distribuir os custos; quanto mais procrastinarem, maior será a parcela determinada pelos juros, pela dívida e pela urgência.

IA amplia comércio global e compensa choque do petróleo

Por Valor Econômico

A OMC estima um robusto crescimento do comércio global de 3,9% este ano, mais que o dobro do 1,9% da previsão do início do ano

Os investimentos em inteligência artificial (IA) são tão altos que eles foram mais que suficientes para compensar os efeitos negativos da guerra contra o Irã e garantirão um robusto crescimento do comércio global, de 3,9% em 2026 — mais que o dobro do 1,9% da previsão do início do ano —, segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC). Neste ano, pela segunda vez, a expansão das trocas mundiais de mercadorias ultrapassará o crescimento do PIB global, embora não repita o padrão de 1,5 a 2 vezes o avanço da economia global, como foi o padrão até o início dos anos 2000, rompido pela grande crise financeira de 2008. De qualquer forma, o bom desempenho surpreende por ocorrer em um período especialmente turbulento para o comércio, com a muralha tarifária imposta pelo presidente americano, Donald Trump, e a guerra que os EUA iniciaram contra o Irã, com o fechamento do Estreito de Ormuz, uma das artérias vitais de petróleo, por muito tempo.

As economias foram afetadas desigualmente pelo forte aumento dos preços de petróleo, gás natural e fertilizantes. Mas, de maneira geral, a reação à escassez provocada pelo fechamento de Ormuz e a escalada das cotações foram bastante contidas pelo aumento da oferta dos países fora da região do conflito, como Brasil, Noruega e EUA, por exemplo. A OMC calcula que as exportações de petróleo bruto do Oriente Médio declinaram 24%, e as gás natural liquefeito (GNL), 47%, no primeiro semestre. A ampliação da oferta de outros fornecedores, no entanto, reduziu a queda nas exportações do produto a 6%.

Da mesma forma, o aumento do suprimento de fertilizantes, que explodiram de preços quando a guerra começou, em 28 de fevereiro, reduziu significativamente os problemas de oferta. Segundo a OMC, as importações de fertilizantes nitrogenados situavam-se na metade do ano apenas 2,8% abaixo das médias anuais recentes, enquanto as de fertilizantes fosfatados até aumentaram (2,2%). Os preços continuam mais altos que antes do início dos conflitos no Oriente Médio, porém bem menores do que no pior cenário previsto. A pressão de custos dos insumos para o início do plantio da safra brasileira, assim, foi atenuada.

Os riscos para a evolução do comércio global são a inteligência artificial e a guerra no Golfo, forças que estão agindo em direções contrárias. O aumento das cotações de petróleo interrompeu o processo de redução da inflação nos países ricos e em vários emergentes, e jogou os preços para cima. Permanece um enorme prêmio entre as cotações do óleo bruto, na casa dos US$ 100 o barril tipo Brent, e refinados como o diesel, com o barril cotado ao redor de US$ 200, encarecendo fortemente custo de transportes e fretes. A alta do petróleo atuou também como coadjuvante importante na elevação dos juros cobrados nos títulos soberanos de longo prazo dos Estados Unidos e da União Europeia, ao afastar um pouco mais a inflação das metas fixadas pelos bancos centrais.

Já o ritmo de crescimento do comércio impulsionado pela IA tem sido em progressão geométrica. Em 2024, avançou 16%, em 2025, 31%, e apenas no primeiro semestre de 2026, nada menos que 67%. A parcela dos bens utilizados para desenvolver a IA — acompanhada pelo aumento da capacidade das tecnologias da informação, como nuvem, cibersegurança, computação quântica — cresceu de 8% do comércio de mercadorias em 2016 para 14,8% hoje. Apesar disso, produtos para a IA garantiram de 40% a 50% do crescimento total das trocas globais.

Os investimentos em IA seguem um ritmo frenético. Segundo cálculos do Goldman Sachs, big techs, gigantes de chips e outros participantes do mercado vão dispender de US$ 725 bilhões a US$ 765 bilhões em 2026 em seus projetos, um valor 77% maior do que gastaram no ano passado. A intensidade de capital requerida faz da IA um jogo concentrado em poucos países. Os dez maiores participantes dele são responsáveis por 85% das exportações e 80% das importações. Mais da metade das exportações é feita por apenas quatro economias, as de Taiwan, Hong Kong, China e Coreia do Sul, com crescimento acelerado do México e Vietnã. Já Estados Unidos, China e Hong Kong abocanham metade das importações. Das economias europeias, apenas a Holanda está entre os dez maiores participantes do mercado de IA.

Gastos para a construção da infraestrutura global da IA devem crescer de 10% a 20% em 2027, de acordo com a OMC, e continuarão sendo o principal motor da expansão do comércio de mercadorias, prevista em 4,1%. O comércio conjunto de bens e serviços deverá aumentar 3,7% este ano e 4,7% em 2027. O risco de uma diminuição ou mesmo reversão dos investimentos em IA, dado seu papel preponderante nas trocas globais, teria um impacto significativos. Deprimiria o comércio, reduziria o efeito riqueza que ajuda a promover no mercado acionário americano, desaceleraria o crescimento dos EUA e outras economias e poderia trazer ondas de instabilidade nos mercados financeiros globais, já às voltas com a ascensão dos juros de longo prazo.

Queimamos mais uma Alexandria

Por Correio Braziliense

O Brasil tem uma relação antiga e dolorosa com a destruição do próprio patrimônio intelectual. Queimamos bibliotecas por descaso, por falta de verba, por ausência de política de preservação

A Biblioteca de Alexandria foi, durante séculos, o maior repositório de conhecimento do mundo antigo. Quando ardeu — em circunstâncias ainda disputadas pelos historiadores —, levou consigo obras que nunca foram recuperadas, pesquisas que nunca foram refeitas, saberes que simplesmente deixaram de existir. A humanidade ficou mais pobre de uma forma que jamais conseguiu mensurar com precisão. O incêndio que destruiu laboratórios da Universidade Federal de Pernambuco na noite de quarta-feira não tem a mesma escala. Mas tem a mesma lógica. O prejuízo estimado é de R$ 100 milhões em equipamentos e infraestrutura. São 80 dissertações e teses de doutorado perdidas, dados de 20 anos de pesquisa em fármacos, genética e informática que não existem mais. Esse tipo de perda não tem conserto, não tem seguro e não tem valor calculável.

Não é a primeira vez. Em 2018, o incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro destruiu 20 milhões de itens do maior acervo de história natural da América Latina. A causa daquele desastre foi a combinação de abandono crônico, infraestrutura degradada e anos de investimento insuficiente. O prédio tinha problemas elétricos conhecidos, fiação antiga e sem manutenção adequada. Ninguém foi preso. Ninguém foi responsabilizado de forma efetiva. E o museu segue em reconstrução parcial oito anos depois. A UFPE não é o Museu Nacional, mas o padrão é familiar: instituições públicas de conhecimento operando no limite do que a negligência permite antes do colapso.

O que torna o caso da UFPE ainda mais grave é a sequência. Esse foi o terceiro incêndio no campus de Recife em menos de duas semanas. No dia 30 de setembro, chamas atingiram o Laboratório de Óptica Não Linear. No domingo seguinte, foi o Laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal. Três incêndios em oito dias numa mesma universidade, em um conjunto de fatos que exige investigação rigorosa, séria e sem conclusões antecipadas.

A Polícia Federal instaurou inquérito para apurar as circunstâncias e causas prováveis. Há relatos de que uma ameaça foi feita contra a universidade após um ato político realizado no campus, e esse elemento faz parte do que precisa ser investigado, com a mesma seriedade e isenção aplicada a qualquer outra linha de investigação. Antes da perícia, porém, qualquer conclusão sobre a causa é especulação. 

O Brasil tem uma relação antiga e dolorosa com a destruição do próprio patrimônio intelectual. Queimamos bibliotecas por descaso, por falta de verba, por ausência de política de preservação. Às vezes por outras razões, o que a investigação dirá. O que permanece constante, independentemente da causa imediata de cada desastre, é o ambiente que os torna possíveis: universidades com restrições orçamentárias, laboratórios com infraestrutura precária, pesquisa tratada como despesa supérflua em vez de investimento estratégico. Enquanto a educação e a ciência não forem tratadas como prioridade real, com orçamento, com política de longo prazo, com a seriedade que o tema exige, continuaremos assistindo a novas Alexandrias queimando. E lamentando, depois, o que não pode ser recuperado.

Pesquisa expõe preconceito contra o Nordeste

Por O Povo (CE)

O nordestino nada tem de melhor do que seus concidadãos de outros estados ou regiões, mas também nada tem de pior. Somos iguais, porém diferentes

Infelizmente é um dado da realidade, que não tem como ser escondido: o preconceito contra o Nordeste e os nordestinos existe e pode ser mensurado. Segundo pesquisa divulgada pelo jornalista Carlos Madeiro (Uol), o Nordeste recebeu 27 milhões de postagens ofensivas nas primeiras 72 horas após a votação do primeiro turno das eleições presidenciais deste ano. Lembrando que o Nordeste é uma região na qual o Partido dos Trabalhadores apresenta melhor desempenho nas disputas eleitorais.

"O Nordeste no Banco dos Réus" é o título do estudo elaborado pela Ativaweb DataLab, que analisou 32,8 milhões de menções, links e compartilhamentos sobre o Nordeste ou os nordestinos no cenário eleitoral. Do total monitorado, 82,2% (27 milhões) apresentaram tom crítico aos votos da região. Somente 17,8% (5,8 milhões) das citações foram classificadas como "neutras" ou defenderam a região e seu povo. Os ataques partiram de usuários espalhados por todo o país, com forte presença no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. De acordo com estudo, o impacto dessas postagens é comparável aos maiores eventos que mobilizam a rede.

"Quando o Brasil passa a apontar o dedo para uma de suas regiões, a disputa eleitoral já ultrapassou a política e chegou à dignidade", disse ao Uol Alek Maracajá, CEO da Ativaweb DataLab e responsável pela pesquisa, em declaração ao Uol. Para ele, a dimensão do ataque demonstra um ambiente orquestrado: "27 milhões de críticas em três dias não são opiniões espontâneas, são um clima, e clima se fabrica".

Para Alek Maracajá, o preconceito regional encontrou nas redes o seu megafone mais eficiente, que fala para todo o País, "ao mesmo tempo, contra o mesmo alvo". Um dos achados mais significativos, e lamentáveis, do estudo é a adesão de parte dos próprios nordestinos ao discurso pejorativo. Publicações com frases como "tenho vergonha de ser nordestina" e "peço desculpas por ter sangue nordestino" acumularam dezenas de milhares de interações.

De fato, o "clima" pode ser intensificado com ação de "influenciadores" mal intencionados e o trabalho de algoritmos especializados em criar bolhas para martelar uma ideia, mantendo o usuário preso à rede ou mesmo para influenciar o seu comportamento. Assim, cria-se um ambiente de hostilidade, que se retroalimenta, levando até mesmo um segmento de nordestinos a um sentimento de autodesprezo, chegando ao ponto de pedir desculpas aos seus ofensores pela sua origem.

O nordestino nada tem de melhor do que seus concidadãos de outros estados ou regiões, mas também nada tem de pior. Somos iguais, porém diferentes. Um povo miscigenado professando diferentes religiões, com distintas visões de mundo. Em um país assim, preconceito de qualquer espécie deveriam ser incabíveis. Porém, a realidade que se apresenta é preocupante, assim é preciso agir para modificá-la. 

2 comentários:

  1. Logo esse tal comprou do golpe será desmascarado com uma grande armação que penalizou inocentes patriotas e principalmente o Flávio Bolsonaro e alguns generais inocentes e importantes
    Como foi revelado que esse candidato a ditador do Brasil é no fundo um juiz corrupto vaidoso e autoritário Alexandre de Moraes está desmoralizado e vai parar na cadeia onde é o seu lugar
    Bandido psicopata
    Quantas famílias destruídas mais de 400 pessoas tiveram que se jogar pra fora do Brasil e estão passando necessidade por caso desse juiz de merda como diz o Presidente Milei
    Fora Lula , fora Morais!

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  2. Jair Bolsonaro

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