Novo Congresso traz risco de desmonte de leis ambientais
Por O Globo
Retrocesso na agenda de conservação é um dos
riscos mais evidentes da composição do Parlamento eleito
Entre os retrocessos trazidos pela ampliação da bancada conservadora no Congresso, um dos principais destaques será o espaço aberto à aprovação de projetos que enfraqueçam a proteção ao meio ambiente. Em torno de sete em cada dez deputados e senadores têm um perfil refratário à agenda ambiental, ante 64% no atual Parlamento, de acordo com levantamento do Observatório do Clima noticiado pelo GLOBO.
O perfil é definido a partir da atuação do
parlamentar em cargos públicos, reunindo votos dados na avaliação de projetos
da área, propostas de mudanças nas regras de licenciamento ambiental, créditos
de carbono, terras indígenas, transição energética, proteção aos biomas e em
vetos presidenciais referentes à questão. Com base em tudo isso, o Observatório
do Clima criou o conceito de “convergência ambiental”, avaliada de “muito
baixa” a “muito boa”. No novo Senado, 64 dos 81 senadores estão nas faixas de
“baixa” ou “muito baixa” adesão a causas ambientais, ante 58 na legislatura
atual. Na Câmara, 345 dos 513 deputados estão nessas mesmas faixas, ante 323 na
atual composição.
Pelos números, se percebe que o governo já
convive com uma bancada contrária à agenda ambiental. Por isso foi forçado a
negociar projetos e a exercer seu direito de veto, muitas vezes derrubado, com
prejuízo ao meio ambiente — ao analisar 66 votações nominais no Congresso de
2023 a julho de 2026, o Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS) constatou
que em 46 a proteção ambiental sucumbiu. Mas a situação deverá piorar com a
ampliação da bancada resistente a medidas de proteção ao meio ambiente, que
pode começar a trabalhar logo na abertura da nova legislatura na aprovação de
projetos já em tramitação.
É o caso da proposta que impede o uso de
satélites para o combate ao desmatamento, que aumenta em 14 vezes a eficiência
da fiscalização. Ou de mudanças nas regras de proteção de áreas florestais não
consolidadas, eliminando a proteção de campos nativos e outras formações não
florestais. A nova Lei de Licenciamento Ambiental sofreu 63 vetos, 56 dos quais
foram derrubados. A flexibilização resultou em diversas ações no Supremo, que
deverá ser chamado a arbitrar as questões mais controversas, como fez ao
refutar a data de promulgação da Constituição como marco temporal para
demarcação de novas terras indígenas. Uma Proposta de Emenda à Constituição
(PEC) revendo o entendimento da Corte está na Câmara, onde poderia ser aprovada
com facilidade. Outra possibilidade é um “liberou geral” na legislação que
regula a ocupação de regiões estratégicas para preservar mananciais que
abastecem cidades, o campo e condicionam o clima.
A maioria conquistada no Congresso por
partidos distantes da questão ambiental não elimina a necessidade de conversas
e negociações. Passada a euforia da vitória eleitoral, parlamentares dessa
bancada devem considerar que retrocessos graves na defesa do meio ambiente por
certo justificarão medidas protecionistas contra o agronegócio brasileiro e
precisam ser evitados. Não se deve transformar tudo em conflito ideológico. Por
fim, os riscos ao planeta Terra devem ensejar mais preocupação com a questão
ecológica, e não menos. Se se creem mesmo conservadores, os parlamentares deveriam
zelar por conservá-lo.
Insatisfação de professores contribui para
deterioração do ensino no Brasil
Por O Globo
Salários baixos, desvalorização do trabalho e
tumultos na aula fazem do magistério um ofício pouco atraente
O último Panorama da Educação,
publicado há pouco pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE),
verificou alto grau de entusiasmo dos estudantes brasileiros na comparação
internacional. No que diz respeito aos professores, porém, a situação é outra.
O Brasil aparece em 36º lugar numa relação de 38 países, com apenas 44% dos
professores se dizendo satisfeitos. As causas do descontentamento são
múltiplas. Além da queixa previsível com a remuneração — apenas 22% estão
satisfeitos com seus salários —, 89% relatam precisar lidar com alunos
indisciplinados com frequência e 21% afirmam sofrer “muito estresse”.
Salário baixo, a percepção de que a sociedade
não valoriza o trabalho docente e tumultos em sala de aula fazem do magistério
um ofício pouco atraente, num país que necessita com rapidez melhorar os
índices de aprendizado no ensino básico. Diante de problemas dentro e fora da
sala de aula, 10% dos educadores deixaram a profissão em 2022. Em 2024-2025, a
média da OCDE foi de 6,4%. E 12% dos professores brasileiros declaram ter a
intenção de abandonar as salas de aula nos próximos cinco anos.
É verdade que o Brasil tem um dispêndio com
educação comparável ao de países ricos: 4,4% do PIB, acima da média de 3,9% da
OCDE. É um patamar igual ao da França e pouco superior ao do Chile. Esse índice
isolado, porém, pode ser enganoso. O gasto por aluno do ensino básico, ajustado
pelo poder de compra, está em US$ 4.294 no Brasil, cerca de um terço da média
da OCDE (US$ 13.231). O Brasil destina menos dinheiro a cada estudante que o
Chile e, na amostra da OCDE, só fica acima de Colômbia e Peru. A maior parte
dos recursos ainda vai para o ensino superior, também com eficácia
questionável.
Além das condições precárias de trabalho que
oferece, a profissão de professor tende a ser menos procurada com o
envelhecimento da população. Países da OCDE já encontram dificuldades para
contratar professores qualificados. Um em cada quatro tem 55 anos ou mais. A
alternativa é atrair profissionais que aceitem uma segunda atividade. Na
Austrália e na Holanda, 15% dos novos professores são profissionais que
começaram nova carreira.
Também será fundamental usar novas tecnologias, como inteligência artificial, para permitir que os professores tenham mais tempo para lecionar, aumentando sua produtividade. Ferramentas digitais ajudam na preparação de aulas, podem redesenhar o funcionamento das escolas e reduzir o peso das rotinas administrativas sobre os professores. É verdade que a mesma demografia que ajuda a diminuir a oferta de professores também encolhe a população de crianças e jovens nas escolas. Mas, segundo a OCDE, os dois movimentos não são sincronizados. A precaução aconselha preparar-se para a redução na oferta de bons professores e para um nível ainda maior de insatisfação.
Às vésperas do 2º turno, mais subsídio para
os combustíveis
Por Folha de S. Paulo
Com zeragem de tributos sobre a gasolina e
outras benesses, custos somam mais de R$ 10 bilhões por mês
Caminho é focar em quem mais precisa, definir
prazos e critérios e incorporar prorrogação ao Orçamento, com respectiva fonte
de financiamento
A 16 dias do segundo turno, o governo Luiz
Inácio Lula
da Silva (PT) zerou os
tributos federais sobre a gasolina, manteve a desoneração do etanol
e criou um subsídio adicional para o óleo diesel
importado. Somadas às medidas já em vigor, as ações de contenção dos preços
custam mais de R$ 10 bilhões por mês. Até setembro, a conta já alcançava R$
37,5 bilhões.
Com o petróleo
consistentemente
em torno de US$ 100 ou acima disso, repassar todo o choque da guerra
no Oriente Médio
pressionaria a inflação,
o frete e o preço dos alimentos. O Executivo argumenta que a alta do produto
eleva royalties e outras receitas, garantindo a neutralidade fiscal.
O problema é que o choque não desaparece. Ele
sai do bolso de quem abastece e vai para o do contribuinte. O país troca a
volatilidade do preço pela volatilidade das contas públicas.
O calendário agrava o problema. O Planalto
nega relação com a corrida presidencial, mas o anúncio às vésperas do segundo
turno reforça a percepção de que a política de preços passou a responder ao
ciclo eleitoral. E medidas populares adotadas neste momento são as mais
difíceis de reverter para quem vencer.
O risco maior está em 2027. A proposta
orçamentária foi elaborada sem prever subsídios aos combustíveis, e o governo
diz que as medidas valem só para este ano. Mas a experiência mostra que
benefícios temporários são difíceis de retirar, sobretudo com o petróleo ainda
caro.
Mantido o ritmo atual, o custo anual
superaria R$ 130 bilhões, sete vezes o superávit de R$ 18,6 bilhões projetado
para 2027.
O Orçamento já está pressionado. As receitas
foram estimadas com crescimento de 2,46%, bem acima do 1,5% esperado pelo
mercado. O reajuste do Bolsa Família
acrescentou R$ 22,7 bilhões às despesas. A Instituição Fiscal Independente
(IFI, ligada ao Senado)
já projetava déficit de R$ 86,1 bilhões antes desse reajuste. Não há espaço
para mais uma despesa desse porte sem comprometer a meta ou a dívida.
A compensação também é frágil, pois as
receitas extras dependem do preço do barril. Se as cotações do petróleo caírem,
a receita extra some e a pressão para manter o desconto na bomba diminui,
embora retirar subsídios seja sempre tarefa difícil.
Se o preço seguir alto, a receita existe, mas
o subsídio tende a se perpetuar. Em nenhum dos casos, o Orçamento ganha a
previsibilidade fundamental.
A saída não é ignorar o impacto do choque de
oferta sobre as famílias. Desonerar a gasolina beneficia mais quem roda mais de
carro, não os mais pobres. O caminho é focalizar o apoio em quem mais precisa,
definir prazos e critérios claros de saída e incorporar qualquer prorrogação ao
Orçamento, com a respectiva fonte de financiamento.
O preço do combustível pode ser amortecido. O
custo, não. Ele apenas espera a hora de aparecer na dívida pública e onerar
esta e as próximas gerações.
Nobel premia ciência microscópica
Por Folha de S. Paulo
Láureas de 2026 são concedidas a pesquisas
que investigam as miudezas no recôndito da matéria
Os seis contemplados são homens, pela 101ª
vez em 125 anos, refletindo barreiras históricas ao acesso das mulheres à
universidade
Embora não haja conexão direta entre as
escolhas das três modalidades do prêmio Nobel
para ciências naturais, podem-se buscar pistas do que une e separa os
laureados. Neste ano, foram contempladas pesquisas no campo micro em medicina,
física
e química.
A definição do prêmio em medicina ou
fisiologia cabe ao Instituto Karolinska, de Estocolmo.
Já os de física e o de química competem à Academia Real Sueca de Ciências,
também localizada na capital do país de Alfred Nobel, que instituiu o galardão
conferido pela primeira vez em 1901.
A láurea em medicina tende a contemplar
processos mais complexos a afetar a fisiologia humana, como a regulação
imunológica no câncer (2018) ou o peso de genomas ancestrais na evolução do
Homo sapiens (2022). Desta feita, entretanto, escolheu-se a descoberta de íons
fotossensíveis que galvanizaram a neurociência.
Essas diminutas estruturas celulares,
estudadas na origem em algas unicelulares Chlamydomonas, possibilitaram
desenvolver técnicas de optogenética, como interruptores moleculares para ligar
e desligar neurônios de modo a estudar o papel individual de células nervosas
no processamento realizado pelo cérebro.
Em física e química, é mais natural que se
agraciem investigações sobre objetos diminutos, como partículas, átomos e
moléculas. Neste ano, foram premiados respectivamente a detecção
de neutrinos e o controle sobre a produção de moléculas quirais
(espelhadas) em síntese química.
Neutrinos são partículas elusivas, pois não
têm carga e pouco interagem com outras. A fim de registrar sua passagem através
do planeta, montou-se um aparato detector na Antártida que lança mão da
espessura descomunal da calota de gelo para retraçar as trajetórias. Pesquisa
básica, para iluminar o âmago da matéria.
A premiação em química difere da de física
pela aplicação: controlar variantes quirais de moléculas e separar as mais
eficientes no encaixe em receptores celulares humanos pode contribuir para o
desenvolvimento de remédios com maior funcionalidade. Pesquisa aplicada, para
instrumentalizar o âmago da matéria.
Os seis vencedores de 2026 são homens, pela 101ª
vez em 125 anos. Ao longo da história, só 4% das láureas nessas
áreas foram concedidas a mulheres —disparidade que reflete barreiras históricas
ao acesso feminino à universidade
e às carreiras científicas.
O dado reforça a importância de estimular desde cedo o interesse de meninas pelas ciências e de garantir oportunidades iguais para desenvolver seus talentos.
A reforma de que não precisamos
Por O Estado de S. Paulo
É um desrespeito com o Congresso, as empresas e o País que as campanhas do presidente Lula e do senador Flávio Bolsonaro cogitem a possibilidade de adiar a vigência da reforma tributária
A sociedade brasileira enfrentou uma saga
para aprovar a reforma tributária sobre o consumo, que unificou impostos e
contribuições sobre bens e serviços na esfera federal, estadual e municipal.
Foram décadas de debates até que fosse possível chegar a um texto capaz de ser
aprovado pelo Congresso, e ainda que a reforma tenha ficado longe da perfeição,
é consenso entre especialistas que o desenho final ficou muito melhor que o
manicômio tributário com o qual convivemos há tantos anos.
Isso posto, é inadmissível que a coordenação
das campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) estejam discutindo a possibilidade de adiar a reforma. Eis um
exemplo concreto da falta de produtividade que marca a economia brasileira: reabrir,
por pura conveniência eleitoral, o debate de um tema sobre o qual não cabe mais
discussão e que já chegou a um ponto de não retorno.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da
reforma tributária foi apresentada em 2019 e aprovada em 2023; os projetos de
lei que regulamentaram o texto foram analisados em 2024 e 2025; os novos
impostos e contribuições federais começam a valer no ano que vem. Goste-se ou
não, tudo foi feito com ampla participação dos partidos e setores envolvidos,
que tiveram toda a oportunidade de discuti-la e de se opor a seus termos.
Satisfeitas ou conformadas, a maioria das
empresas se preparou para a reforma. Segundo a Receita Federal, 38% delas já
emitem suas notas fiscais nos termos da reforma e 27% têm cumprido parcialmente
as obrigações. A esta altura, qualquer mudança nesse cronograma imporá custos e
riscos às empresas sem trazer qualquer benefício ao País.
Lula e Flávio Bolsonaro alimentam essa
insegurança jurídica por puro oportunismo. De um lado, o governo já deveria ter
enviado as propostas que vão definir as alíquotas do Imposto sobre Valor
Agregado (IVA) e do Imposto Seletivo, mas tem segurado os textos por temer
perder votos, ainda que isso comprometa a arrecadação e impeça a cobrança dos
tributos a partir de 1.° de janeiro.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, teve de recuar
da proposta de suspender a reforma tributária após receber uma saraivada de
críticas da indústria, a principal beneficiária das mudanças e a maior
prejudicada pelas distorções do sistema atual. Passou, então, a defender a
redução da alíquota média do IVA de maneira genérica, sem detalhar como
pretende cumprir o objetivo.
Toda a sociedade desejava um imposto mais
baixo, a começar por este jornal. Para isso, no entanto, era obrigatório
reduzir ao máximo o número de setores beneficiados por regimes especiais, tendo
em vista que cada exceção acatada aumentava a alíquota do tributo para todos os
demais. Foi o oposto do que os parlamentares fizeram, inclusive o senador, que
não se furtou a apresentar emendas para atender a lobbies.
Mais recentemente, a equipe de Flávio passou
a defender o fim do split
payment – mecanismo que vai garantir que União, Estados e
municípios recebam o que lhes é devido de maneira automática e em tempo real.
Seria interessante, no entanto, consultar os governadores e os senadores que
acabam de ser eleitos, especialmente os integrantes do PL, antes de prometer o
que não depende de uma simples canetada. É improvável que eles aceitem abrir
mão desse dinheiro apenas para sustentar um discurso eleitoral capenga.
O País perdeu um tempo precioso com as
propostas de reforma tributária apresentadas pelo governo do ex-presidente Jair
Bolsonaro, que não chegaram a lugar algum. Iniciativas anteriores, discutidas
no primeiro e segundo mandatos de Lula, visavam a dar fim à guerra fiscal entre
os Estados e mudar a cobrança do ICMS da origem para o destino, mas não
avançaram por boicote dos governadores.
Lembrar esse histórico é importante para que
se compreenda a dimensão do que o Congresso foi capaz de fazer há três anos.
Abrir mão dessa conquista é um desrespeito não apenas com os parlamentares, mas
com o País. O presidente eleito pode e deve propor reformas sobre impostos que
incidem sobre a renda, o patrimônio e a folha de pagamentos. O capítulo sobre
consumo, felizmente, é página virada.
A esquerda perdeu a juventude
Por O Estado de S. Paulo
Votação recorde de Eduarda Campopiano, de 23
anos, quase 17 deles sob governos do PT, expressa o desencanto da geração à
qual a esquerda teve tempo para oferecer um futuro, mas não o
Eduarda Campopiano (PL), vereadora de Praia
Grande, elegeu-se deputada estadual por São Paulo com 1,9 milhão de votos, a
maior votação para o cargo no País em 2026 e a segunda maior da história do
Estado. Nascida em 22 de julho de 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
mal completara seis meses de seu primeiro mandato na Presidência da República,
a jovem viveu quase 17 de seus 23 anos sob governos do PT. Portanto, quando
diz, como declarou ao Estadão,
que os governos de esquerda “tiveram sua chance” com a sua geração e
“falharam”, Eduarda fala com a experiência de quem cresceu em um Brasil que, em
grande medida, foi moldado pelo lulopetismo.
É dessa posição que o diagnóstico de Eduarda,
feito a este jornal, deve ser lido com atenção. “A minha geração, a geração Z,
não tem o sonho da casa própria, não tem o sonho do carro próprio. (Essa conquista) tornou-se uma
realidade muito distante. As pessoas não têm o sonho de ter filhos porque é
inviável. Isso é triste.” Note-se que não se trata de desejos extravagantes.
Ter uma casa, um carro e filhos, até uma geração passada, era o horizonte
elementar de uma vida de classe média, uma aspiração natural, ainda que à custa
de muito trabalho. Decerto vários fatores explicam um fenômeno eleitoral como
Eduarda, mas um é incontornável: trata-se da expressão, nas urnas, de uma
juventude que desistiu até de sonhar porque foi abandonada por um projeto de
poder que não se conectou com seus anseios.
A esquerda e, em particular, o lulopetismo
tiveram tempo de sobra para oferecer um futuro mais auspicioso a esses jovens.
Foram mais de 13 anos de poder, entre janeiro de 2003 e maio de 2016, e mais o
atual mandato de Lula. Nesse período, os governos lulopetistas preferiram estimular
o consumo por meio da oferta de crédito fácil e expandir a gastança
irresponsável do Estado a promover o aumento da produtividade, a melhora da
qualidade da educação pública e o equilíbrio fiscal. Em suma, negligenciaram a
construção das condições estruturais que permitissem a ascensão socioeconômica
de milhões de jovens brasileiros.
Lula e seus acólitos vivem de alardear que
foi sob os governos do PT que muito mais jovens conquistaram o diploma
universitário, o que, em tese, significa aumento de renda. Em parte, isso é
verdade. Mas, em primeiro lugar, tal avanço se deve a políticas de incentivo ao
ingresso no ensino superior que formaram uma legião de jovens universitários
endividados, cronicamente dependentes de programas de renegociação do Fundo de Financiamento
Estudantil (Fies), que tem até um “Desenrola” para chamar de seu. Ademais, de
que vale um diploma sem empregos à altura e subsídios sem crescimento
sustentado que leve os cidadãos, naturalmente, a prosperarem por conta própria?
A essa falha estrutural soma-se a
incompreensão. A esquerda parece convencida de que a juventude é sua por
direito consuetudinário – e por isso se deu ao luxo de não a escutar. Em vez de
responder a anseios bastante concretos, como trabalho, renda, segurança,
perspectiva de formar uma família, entregou-se a um identitarismo radical e
excludente, que divide a sociedade em tribos e trata como pária quem não reza
por sua cartilha. Não por acaso, Eduarda Campopiano se autodeclara “a maior
inimiga das feministas”. O jovem que não comunga da agenda identitária não é
visto pela esquerda como um sujeito de direitos a ser conquistado pela força
dos argumentos, mas como um inimigo a ser calado, por vezes pela força bruta.
Nas universidades, nos movimentos estudantis e nas mídias sociais, a
discordância é tratada por amplos setores da esquerda como desvio moral. Nesse
sentido, não surpreende que tantos jovens tenham ido buscar guarida para sua
liberdade de expressão em outras paragens do espectro político-ideológico.
Não é preciso concordar com as ideias e os
valores de Eduarda Campopiano, e de tantos outros jovens eleitos como ela, para
reconhecer que suas plataformas, malgrado terem algo de provocação, servem como
um diagnóstico muito claro de que a juventude de carne e osso é bem diferente
daquela imaginada pela esquerda.
Sinais de alerta da advocacia
Por O Estado de S. Paulo
Pesquisa mostra que está difícil advogar em
tribunal superior, e quem mais perde é o cidadão
Uma pesquisa da Associação dos Advogados
(AASP) captou em números um sentimento de insatisfação que já vinha sendo
manifestado por juristas renomados havia algum tempo: está cada vez mais
difícil advogar nos tribunais superiores do Brasil. E isso é grave: barreiras
impostas ao trabalho dos advogados não apenas atravancam o exercício das
prerrogativas da classe, mas limitam o acesso à Justiça pelos seus clientes,
prejudicando os jurisdicionados a quem a Justiça deveria servir.
De acordo com o levantamento da AASP, que
ouviu 754 advogados, 36,2% dos entrevistados disseram considerar baixa ou muito
baixa a previsibilidade das decisões das cortes de Brasília; 48,1% afirmaram
que o excesso de decisões monocráticas afeta a segurança jurídica; e 82%
disseram que as mudanças de entendimento dos tribunais – ou seja, uma
jurisprudência flutuante – já impactaram a orientação dada aos clientes e as
estratégias processuais adotadas.
Ocorre que, no exercício de sua atividade, o
advogado precisa saber em que terreno está pisando, não podendo ser
surpreendido, no percurso da defesa que traçou, por minas que venham a implodir
sua estratégia. A jurisprudência precisa ser respeitada sem que mudanças de
humor – ou, pior, conveniências – alterem as regras do jogo e os rumos de um julgamento.
Não há direito sem estabilidade; não há direito sem segurança jurídica.
E, além de cobrar segurança jurídica, os
advogados também querem ser ouvidos. Mas a pesquisa da AASP revelou um enorme
distanciamento entre magistrados e advogados. Segundo o levantamento, 71% dos
entrevistados disseram que não está plenamente garantida a participação da
defesa nos julgamentos virtuais, em que os advogados enviam suas sustentações
gravadas e os magistrados registram seus votos num ambiente online. E 72,3% dos
entrevistados afirmaram que os procedimentos para solicitação de audiências,
apresentação de memoriais e interlocução com os gabinetes de ministros “não
oferecem condições plenamente isonômicas de acesso à advocacia”.
O que os advogados parecem dizer é que os
julgamentos virtuais ferem princípios constitucionais do processo, como o
contraditório e a ampla defesa, e tornam a análise dos casos mais opaca, numa
afronta ao princípio da transparência. E, pior, os advogados estão questionando
também o tratamento diferenciado que recebem nos tribunais superiores, o que
poderia, no limite, desequilibrar a paridade de armas entre as partes de um
processo.
Como bem afirmou ao Estadão a presidente da AASP, Paula Lima Hyppolito Oliveira, “não estamos diante de uma insatisfação pontual da advocacia, mas de um alerta institucional que precisa ser ouvido”. E a alta cúpula do Poder Judiciário deveria estar realmente atenta aos sinais emitidos pela pesquisa, pois não se trata de queixa corporativista, mas de uma pauta de interesse da sociedade. São todas críticas de boa-fé, que podem ajudar no resgate da confiança dos jurisdicionados e, sobretudo, na retomada da credibilidade perdida junto aos cidadãos brasileiros.
Amazônia em alerta
Por Correio Braziliense
Em setembro, o Amazonas registrou 3.726 focos de calor
Quando uma cidade de dois milhões de
habitantes no meio da maior floresta tropical do mundo acorda coberta de fumaça,
e a Defesa Civil precisa disparar alertas nos celulares pedindo que ninguém
saia sem máscara, algo saiu fundamentalmente errado. Foi o que aconteceu em
Manaus na última sexta-feira, e não pela primeira vez.
Em setembro, o Amazonas registrou 3.726 focos
de calor. No mesmo mês do ano passado, foram 942. Agosto fechou sem um único
dia de chuva, quando a média histórica do mês é de 56 milímetros. De julho a
setembro, Manaus acumulou 44 milímetros de chuva, menos de um quarto dos 202
esperados para o período. A floresta que deveria ser úmida por natureza estava
seca como graveto.
A origem dos incêndios segue um padrão
conhecido: queimadas para renovar pastagens e limpar áreas já abertas para
agropecuária. É uma prática que pode ter amparo legal em condições normais, com
limites de área e autorização ambiental. Mas não há nada de normal no contexto
deste ano. Com a vegetação ressecada pelo El Niño e pela ausência de chuva, o
fogo controlado virou incêndio e catástrofe.
O poder público chegou tarde. A proibição do
uso do fogo em todo o estado do Amazonas só foi decretada em 9 de setembro,
depois de agosto inteiro sem chuva e com 2.231 focos registrados. O Ministério
Público de Contas do Amazonas já pediu investigação para apurar se as ações do
governo estadual foram suficientes e efetivas. A resposta, a julgar pelo céu de
Manaus, é que não foram. O Ibama atua no combate a dezenas de incêndios ativos
e enviará reforços, mas a fiscalização de uma floresta com 5,5 milhões de quilômetros
quadrados com o contingente disponível é uma equação que nunca fecha. A
Amazônia é maior do que qualquer estrutura de monitoramento que o Brasil se
dispôs a montar.
O El Niño agrava tudo isso de forma
exponencial. O fenômeno reduz as chuvas no Norte do país, seca a vegetação e
coloca em greve os dois maiores aliados no combate à fumaça: a chuva e o vento.
Sem eles, a fumaça se concentra, o fogo se alastra e a floresta vira
combustível. Em 2024, a fumaça das queimadas amazônicas cobriu o céu de São
Paulo. Este ano, especialistas acreditam que o alcance será menor, mas o padrão
é claro: cada ciclo de seca intensa deixa a floresta mais vulnerável ao
próximo. E os ciclos estão ficando mais frequentes, mais longos e mais severos.
As mudanças climáticas não são um cenário futuro para a Amazônia. Já são o presente e a realidade da floresta. O verde que regula o clima de boa parte do continente sul-americano está sendo consumido por uma combinação de ação humana direta, inércia do poder público e aceleração climática. Se o padrão atual se mantiver, o que hoje é crise sazonal se tornará colapso permanente, em um processo que, se não for revertido, consumirá a floresta inteira diante dos nossos olhos e da nossa incapacidade crônica de tratá-la como o que ela é: patrimônio insubstituível, não recurso descartável.
Quem pode decidir a eleição
Por O Povo (CE)
A abstenção representa 78,92% dos aptos a
votar em todo o País, o que significa que mais de 33 milhões de pessoas se
ausentaram do processo
No domingo, 4 de outubro, 125 milhões de
brasileiros foram às urnas decidir quem seria o próximo presidente, além de
governadores, senadores e deputados. O número representa 78,92% dos aptos a
votar em todo o País, o que significa que mais de 33 milhões de pessoas se
ausentaram do processo.
A taxa de abstenção ficou em 21,08% e é a
maior em eleições gerais desde 1998, quando Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se
reelegeu em primeiro turno. À época, 21,49% do eleitorado se absteve. Já o
menor percentual foi de 16,75% em 2006.
Desde 2010, quando a abstenção era de apenas
18,12%, a taxa cresceu a cada eleição. Foi a 19,39% em 2014, a 20,33% em 2018 e
a 20,93% no pleito de 2022. As razões para esse cenário são várias, perpassando
realidades individuais, fatores sociológicos, desilusão ou mesmo a indecisão.
Mato Grosso do Sul (23,87%) lidera em
abstenção, seguido pelo Rio de Janeiro (23,32%) e por Minas Gerais (22,77%). Em
números absolutos, o estado onde mais eleitores não votaram foi São Paulo,
unidade federativa mais populosa do Brasil, na qual 7,6 milhões de pessoas
estiveram ausentes (22,56%).
O Ceará, onde 84,47% dos aptos a votar
compareceram às urnas, aparece na contramão desse dado. Ao todo, 1.085.522
cearenses se abstiveram, o que perfaz taxa de 15,53%, a menor do Brasil. Em
Fortaleza, o índice foi ainda menor, com 13,02% de abstenção. Apesar de ter
números bem mais baixos no Estado do que a média nacional, a abstenção tem
potencial de decidir qualquer pleito. O governador Elmano de Freitas (PT) se
reelegeu em primeiro turno com uma vantagem de 376 mil votos sobre Ciro Gomes
(PSDB), segundo colocado.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda não
disponibilizou dados sobre qual é o perfil do eleitor mais ausente nas eleições
de 2026. Os dados da eleição de 2022, porém, mostram recortes claros. O grau de
instrução é uma linha de corte bem evidente. À época, a abstenção de pessoas
analfabetas atingiu 52%, ante 12% daquelas com ensino superior completo. No
grupo de voto facultativo, a taxa de abstenção entre jovens (16 e 17 anos) vem
em trajetória de crescimento, enquanto na faixa dos idosos (mais de 70 anos)
tem caído.
Dentro de menos de duas semanas, o brasileiro
terá novamente a oportunidade de ir às urnas. São mais de 158 milhões de
eleitores, e aqueles que se abstiveram no 1º turno seguem aptos a comparecer no
2º.
O Brasil teve o primeiro turno mais apertado de sua história democrática. A diferença entre o líder, Flávio Bolsonaro (PL), e o vice-líder, o presidente Lula (PT), é de apenas 1,87 ponto percentual — ou seja, 2,22 milhões de pessoas. A escolha é de quem vota. Abster-se de definir o futuro do país é também uma escolha, ainda quem sempre consciente. Por isso, é importante que todos os eleitores sintam-se estimulados a comparecer às urnas, e votar livremente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário