segunda-feira, 12 de outubro de 2026

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Novo Congresso traz risco de desmonte de leis ambientais

Por O Globo

Retrocesso na agenda de conservação é um dos riscos mais evidentes da composição do Parlamento eleito

Entre os retrocessos trazidos pela ampliação da bancada conservadora no Congresso, um dos principais destaques será o espaço aberto à aprovação de projetos que enfraqueçam a proteção ao meio ambiente. Em torno de sete em cada dez deputados e senadores têm um perfil refratário à agenda ambiental, ante 64% no atual Parlamento, de acordo com levantamento do Observatório do Clima noticiado pelo GLOBO.

O perfil é definido a partir da atuação do parlamentar em cargos públicos, reunindo votos dados na avaliação de projetos da área, propostas de mudanças nas regras de licenciamento ambiental, créditos de carbono, terras indígenas, transição energética, proteção aos biomas e em vetos presidenciais referentes à questão. Com base em tudo isso, o Observatório do Clima criou o conceito de “convergência ambiental”, avaliada de “muito baixa” a “muito boa”. No novo Senado, 64 dos 81 senadores estão nas faixas de “baixa” ou “muito baixa” adesão a causas ambientais, ante 58 na legislatura atual. Na Câmara, 345 dos 513 deputados estão nessas mesmas faixas, ante 323 na atual composição.

Pelos números, se percebe que o governo já convive com uma bancada contrária à agenda ambiental. Por isso foi forçado a negociar projetos e a exercer seu direito de veto, muitas vezes derrubado, com prejuízo ao meio ambiente — ao analisar 66 votações nominais no Congresso de 2023 a julho de 2026, o Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS) constatou que em 46 a proteção ambiental sucumbiu. Mas a situação deverá piorar com a ampliação da bancada resistente a medidas de proteção ao meio ambiente, que pode começar a trabalhar logo na abertura da nova legislatura na aprovação de projetos já em tramitação.

É o caso da proposta que impede o uso de satélites para o combate ao desmatamento, que aumenta em 14 vezes a eficiência da fiscalização. Ou de mudanças nas regras de proteção de áreas florestais não consolidadas, eliminando a proteção de campos nativos e outras formações não florestais. A nova Lei de Licenciamento Ambiental sofreu 63 vetos, 56 dos quais foram derrubados. A flexibilização resultou em diversas ações no Supremo, que deverá ser chamado a arbitrar as questões mais controversas, como fez ao refutar a data de promulgação da Constituição como marco temporal para demarcação de novas terras indígenas. Uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) revendo o entendimento da Corte está na Câmara, onde poderia ser aprovada com facilidade. Outra possibilidade é um “liberou geral” na legislação que regula a ocupação de regiões estratégicas para preservar mananciais que abastecem cidades, o campo e condicionam o clima.

A maioria conquistada no Congresso por partidos distantes da questão ambiental não elimina a necessidade de conversas e negociações. Passada a euforia da vitória eleitoral, parlamentares dessa bancada devem considerar que retrocessos graves na defesa do meio ambiente por certo justificarão medidas protecionistas contra o agronegócio brasileiro e precisam ser evitados. Não se deve transformar tudo em conflito ideológico. Por fim, os riscos ao planeta Terra devem ensejar mais preocupação com a questão ecológica, e não menos. Se se creem mesmo conservadores, os parlamentares deveriam zelar por conservá-lo.

Insatisfação de professores contribui para deterioração do ensino no Brasil

Por O Globo

Salários baixos, desvalorização do trabalho e tumultos na aula fazem do magistério um ofício pouco atraente

O último Panorama da Educação, publicado há pouco pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), verificou alto grau de entusiasmo dos estudantes brasileiros na comparação internacional. No que diz respeito aos professores, porém, a situação é outra. O Brasil aparece em 36º lugar numa relação de 38 países, com apenas 44% dos professores se dizendo satisfeitos. As causas do descontentamento são múltiplas. Além da queixa previsível com a remuneração — apenas 22% estão satisfeitos com seus salários —, 89% relatam precisar lidar com alunos indisciplinados com frequência e 21% afirmam sofrer “muito estresse”.

Salário baixo, a percepção de que a sociedade não valoriza o trabalho docente e tumultos em sala de aula fazem do magistério um ofício pouco atraente, num país que necessita com rapidez melhorar os índices de aprendizado no ensino básico. Diante de problemas dentro e fora da sala de aula, 10% dos educadores deixaram a profissão em 2022. Em 2024-2025, a média da OCDE foi de 6,4%. E 12% dos professores brasileiros declaram ter a intenção de abandonar as salas de aula nos próximos cinco anos.

É verdade que o Brasil tem um dispêndio com educação comparável ao de países ricos: 4,4% do PIB, acima da média de 3,9% da OCDE. É um patamar igual ao da França e pouco superior ao do Chile. Esse índice isolado, porém, pode ser enganoso. O gasto por aluno do ensino básico, ajustado pelo poder de compra, está em US$ 4.294 no Brasil, cerca de um terço da média da OCDE (US$ 13.231). O Brasil destina menos dinheiro a cada estudante que o Chile e, na amostra da OCDE, só fica acima de Colômbia e Peru. A maior parte dos recursos ainda vai para o ensino superior, também com eficácia questionável.

Além das condições precárias de trabalho que oferece, a profissão de professor tende a ser menos procurada com o envelhecimento da população. Países da OCDE já encontram dificuldades para contratar professores qualificados. Um em cada quatro tem 55 anos ou mais. A alternativa é atrair profissionais que aceitem uma segunda atividade. Na Austrália e na Holanda, 15% dos novos professores são profissionais que começaram nova carreira.

Também será fundamental usar novas tecnologias, como inteligência artificial, para permitir que os professores tenham mais tempo para lecionar, aumentando sua produtividade. Ferramentas digitais ajudam na preparação de aulas, podem redesenhar o funcionamento das escolas e reduzir o peso das rotinas administrativas sobre os professores. É verdade que a mesma demografia que ajuda a diminuir a oferta de professores também encolhe a população de crianças e jovens nas escolas. Mas, segundo a OCDE, os dois movimentos não são sincronizados. A precaução aconselha preparar-se para a redução na oferta de bons professores e para um nível ainda maior de insatisfação.

Às vésperas do 2º turno, mais subsídio para os combustíveis

Por Folha de S. Paulo

Com zeragem de tributos sobre a gasolina e outras benesses, custos somam mais de R$ 10 bilhões por mês

Caminho é focar em quem mais precisa, definir prazos e critérios e incorporar prorrogação ao Orçamento, com respectiva fonte de financiamento

A 16 dias do segundo turno, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) zerou os tributos federais sobre a gasolina, manteve a desoneração do etanol e criou um subsídio adicional para o óleo diesel importado. Somadas às medidas já em vigor, as ações de contenção dos preços custam mais de R$ 10 bilhões por mês. Até setembro, a conta já alcançava R$ 37,5 bilhões.

Com o petróleo consistentemente em torno de US$ 100 ou acima disso, repassar todo o choque da guerra no Oriente Médio pressionaria a inflação, o frete e o preço dos alimentos. O Executivo argumenta que a alta do produto eleva royalties e outras receitas, garantindo a neutralidade fiscal.

O problema é que o choque não desaparece. Ele sai do bolso de quem abastece e vai para o do contribuinte. O país troca a volatilidade do preço pela volatilidade das contas públicas.

O calendário agrava o problema. O Planalto nega relação com a corrida presidencial, mas o anúncio às vésperas do segundo turno reforça a percepção de que a política de preços passou a responder ao ciclo eleitoral. E medidas populares adotadas neste momento são as mais difíceis de reverter para quem vencer.

O risco maior está em 2027. A proposta orçamentária foi elaborada sem prever subsídios aos combustíveis, e o governo diz que as medidas valem só para este ano. Mas a experiência mostra que benefícios temporários são difíceis de retirar, sobretudo com o petróleo ainda caro.

Mantido o ritmo atual, o custo anual superaria R$ 130 bilhões, sete vezes o superávit de R$ 18,6 bilhões projetado para 2027.

O Orçamento já está pressionado. As receitas foram estimadas com crescimento de 2,46%, bem acima do 1,5% esperado pelo mercado. O reajuste do Bolsa Família acrescentou R$ 22,7 bilhões às despesas. A Instituição Fiscal Independente (IFI, ligada ao Senado) já projetava déficit de R$ 86,1 bilhões antes desse reajuste. Não há espaço para mais uma despesa desse porte sem comprometer a meta ou a dívida.

A compensação também é frágil, pois as receitas extras dependem do preço do barril. Se as cotações do petróleo caírem, a receita extra some e a pressão para manter o desconto na bomba diminui, embora retirar subsídios seja sempre tarefa difícil.

Se o preço seguir alto, a receita existe, mas o subsídio tende a se perpetuar. Em nenhum dos casos, o Orçamento ganha a previsibilidade fundamental.

A saída não é ignorar o impacto do choque de oferta sobre as famílias. Desonerar a gasolina beneficia mais quem roda mais de carro, não os mais pobres. O caminho é focalizar o apoio em quem mais precisa, definir prazos e critérios claros de saída e incorporar qualquer prorrogação ao Orçamento, com a respectiva fonte de financiamento.

O preço do combustível pode ser amortecido. O custo, não. Ele apenas espera a hora de aparecer na dívida pública e onerar esta e as próximas gerações.

Nobel premia ciência microscópica

Por Folha de S. Paulo

Láureas de 2026 são concedidas a pesquisas que investigam as miudezas no recôndito da matéria

Os seis contemplados são homens, pela 101ª vez em 125 anos, refletindo barreiras históricas ao acesso das mulheres à universidade

Embora não haja conexão direta entre as escolhas das três modalidades do prêmio Nobel para ciências naturais, podem-se buscar pistas do que une e separa os laureados. Neste ano, foram contempladas pesquisas no campo micro em medicina, física e química.

A definição do prêmio em medicina ou fisiologia cabe ao Instituto Karolinska, de Estocolmo. Já os de física e o de química competem à Academia Real Sueca de Ciências, também localizada na capital do país de Alfred Nobel, que instituiu o galardão conferido pela primeira vez em 1901.

A láurea em medicina tende a contemplar processos mais complexos a afetar a fisiologia humana, como a regulação imunológica no câncer (2018) ou o peso de genomas ancestrais na evolução do Homo sapiens (2022). Desta feita, entretanto, escolheu-se a descoberta de íons fotossensíveis que galvanizaram a neurociência.

Essas diminutas estruturas celulares, estudadas na origem em algas unicelulares Chlamydomonas, possibilitaram desenvolver técnicas de optogenética, como interruptores moleculares para ligar e desligar neurônios de modo a estudar o papel individual de células nervosas no processamento realizado pelo cérebro.

Em física e química, é mais natural que se agraciem investigações sobre objetos diminutos, como partículas, átomos e moléculas. Neste ano, foram premiados respectivamente a detecção de neutrinos e o controle sobre a produção de moléculas quirais (espelhadas) em síntese química.

Neutrinos são partículas elusivas, pois não têm carga e pouco interagem com outras. A fim de registrar sua passagem através do planeta, montou-se um aparato detector na Antártida que lança mão da espessura descomunal da calota de gelo para retraçar as trajetórias. Pesquisa básica, para iluminar o âmago da matéria.

A premiação em química difere da de física pela aplicação: controlar variantes quirais de moléculas e separar as mais eficientes no encaixe em receptores celulares humanos pode contribuir para o desenvolvimento de remédios com maior funcionalidade. Pesquisa aplicada, para instrumentalizar o âmago da matéria.

Os seis vencedores de 2026 são homens, pela 101ª vez em 125 anos. Ao longo da história, só 4% das láureas nessas áreas foram concedidas a mulheres —disparidade que reflete barreiras históricas ao acesso feminino à universidade e às carreiras científicas.

O dado reforça a importância de estimular desde cedo o interesse de meninas pelas ciências e de garantir oportunidades iguais para desenvolver seus talentos.

A reforma de que não precisamos

Por O Estado de S. Paulo

É um desrespeito com o Congresso, as empresas e o País que as campanhas do presidente Lula e do senador Flávio Bolsonaro cogitem a possibilidade de adiar a vigência da reforma tributária

A sociedade brasileira enfrentou uma saga para aprovar a reforma tributária sobre o consumo, que unificou impostos e contribuições sobre bens e serviços na esfera federal, estadual e municipal. Foram décadas de debates até que fosse possível chegar a um texto capaz de ser aprovado pelo Congresso, e ainda que a reforma tenha ficado longe da perfeição, é consenso entre especialistas que o desenho final ficou muito melhor que o manicômio tributário com o qual convivemos há tantos anos.

Isso posto, é inadmissível que a coordenação das campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) estejam discutindo a possibilidade de adiar a reforma. Eis um exemplo concreto da falta de produtividade que marca a economia brasileira: reabrir, por pura conveniência eleitoral, o debate de um tema sobre o qual não cabe mais discussão e que já chegou a um ponto de não retorno.

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da reforma tributária foi apresentada em 2019 e aprovada em 2023; os projetos de lei que regulamentaram o texto foram analisados em 2024 e 2025; os novos impostos e contribuições federais começam a valer no ano que vem. Goste-se ou não, tudo foi feito com ampla participação dos partidos e setores envolvidos, que tiveram toda a oportunidade de discuti-la e de se opor a seus termos.

Satisfeitas ou conformadas, a maioria das empresas se preparou para a reforma. Segundo a Receita Federal, 38% delas já emitem suas notas fiscais nos termos da reforma e 27% têm cumprido parcialmente as obrigações. A esta altura, qualquer mudança nesse cronograma imporá custos e riscos às empresas sem trazer qualquer benefício ao País.

Lula e Flávio Bolsonaro alimentam essa insegurança jurídica por puro oportunismo. De um lado, o governo já deveria ter enviado as propostas que vão definir as alíquotas do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) e do Imposto Seletivo, mas tem segurado os textos por temer perder votos, ainda que isso comprometa a arrecadação e impeça a cobrança dos tributos a partir de 1.° de janeiro.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, teve de recuar da proposta de suspender a reforma tributária após receber uma saraivada de críticas da indústria, a principal beneficiária das mudanças e a maior prejudicada pelas distorções do sistema atual. Passou, então, a defender a redução da alíquota média do IVA de maneira genérica, sem detalhar como pretende cumprir o objetivo.

Toda a sociedade desejava um imposto mais baixo, a começar por este jornal. Para isso, no entanto, era obrigatório reduzir ao máximo o número de setores beneficiados por regimes especiais, tendo em vista que cada exceção acatada aumentava a alíquota do tributo para todos os demais. Foi o oposto do que os parlamentares fizeram, inclusive o senador, que não se furtou a apresentar emendas para atender a lobbies.

Mais recentemente, a equipe de Flávio passou a defender o fim do split payment – mecanismo que vai garantir que União, Estados e municípios recebam o que lhes é devido de maneira automática e em tempo real. Seria interessante, no entanto, consultar os governadores e os senadores que acabam de ser eleitos, especialmente os integrantes do PL, antes de prometer o que não depende de uma simples canetada. É improvável que eles aceitem abrir mão desse dinheiro apenas para sustentar um discurso eleitoral capenga.

O País perdeu um tempo precioso com as propostas de reforma tributária apresentadas pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, que não chegaram a lugar algum. Iniciativas anteriores, discutidas no primeiro e segundo mandatos de Lula, visavam a dar fim à guerra fiscal entre os Estados e mudar a cobrança do ICMS da origem para o destino, mas não avançaram por boicote dos governadores.

Lembrar esse histórico é importante para que se compreenda a dimensão do que o Congresso foi capaz de fazer há três anos. Abrir mão dessa conquista é um desrespeito não apenas com os parlamentares, mas com o País. O presidente eleito pode e deve propor reformas sobre impostos que incidem sobre a renda, o patrimônio e a folha de pagamentos. O capítulo sobre consumo, felizmente, é página virada.

A esquerda perdeu a juventude

Por O Estado de S. Paulo

Votação recorde de Eduarda Campopiano, de 23 anos, quase 17 deles sob governos do PT, expressa o desencanto da geração à qual a esquerda teve tempo para oferecer um futuro, mas não o

Eduarda Campopiano (PL), vereadora de Praia Grande, elegeu-se deputada estadual por São Paulo com 1,9 milhão de votos, a maior votação para o cargo no País em 2026 e a segunda maior da história do Estado. Nascida em 22 de julho de 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mal completara seis meses de seu primeiro mandato na Presidência da República, a jovem viveu quase 17 de seus 23 anos sob governos do PT. Portanto, quando diz, como declarou ao Estadão, que os governos de esquerda “tiveram sua chance” com a sua geração e “falharam”, Eduarda fala com a experiência de quem cresceu em um Brasil que, em grande medida, foi moldado pelo lulopetismo.

É dessa posição que o diagnóstico de Eduarda, feito a este jornal, deve ser lido com atenção. “A minha geração, a geração Z, não tem o sonho da casa própria, não tem o sonho do carro próprio. (Essa conquista) tornou-se uma realidade muito distante. As pessoas não têm o sonho de ter filhos porque é inviável. Isso é triste.” Note-se que não se trata de desejos extravagantes. Ter uma casa, um carro e filhos, até uma geração passada, era o horizonte elementar de uma vida de classe média, uma aspiração natural, ainda que à custa de muito trabalho. Decerto vários fatores explicam um fenômeno eleitoral como Eduarda, mas um é incontornável: trata-se da expressão, nas urnas, de uma juventude que desistiu até de sonhar porque foi abandonada por um projeto de poder que não se conectou com seus anseios.

A esquerda e, em particular, o lulopetismo tiveram tempo de sobra para oferecer um futuro mais auspicioso a esses jovens. Foram mais de 13 anos de poder, entre janeiro de 2003 e maio de 2016, e mais o atual mandato de Lula. Nesse período, os governos lulopetistas preferiram estimular o consumo por meio da oferta de crédito fácil e expandir a gastança irresponsável do Estado a promover o aumento da produtividade, a melhora da qualidade da educação pública e o equilíbrio fiscal. Em suma, negligenciaram a construção das condições estruturais que permitissem a ascensão socioeconômica de milhões de jovens brasileiros.

Lula e seus acólitos vivem de alardear que foi sob os governos do PT que muito mais jovens conquistaram o diploma universitário, o que, em tese, significa aumento de renda. Em parte, isso é verdade. Mas, em primeiro lugar, tal avanço se deve a políticas de incentivo ao ingresso no ensino superior que formaram uma legião de jovens universitários endividados, cronicamente dependentes de programas de renegociação do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), que tem até um “Desenrola” para chamar de seu. Ademais, de que vale um diploma sem empregos à altura e subsídios sem crescimento sustentado que leve os cidadãos, naturalmente, a prosperarem por conta própria?

A essa falha estrutural soma-se a incompreensão. A esquerda parece convencida de que a juventude é sua por direito consuetudinário – e por isso se deu ao luxo de não a escutar. Em vez de responder a anseios bastante concretos, como trabalho, renda, segurança, perspectiva de formar uma família, entregou-se a um identitarismo radical e excludente, que divide a sociedade em tribos e trata como pária quem não reza por sua cartilha. Não por acaso, Eduarda Campopiano se autodeclara “a maior inimiga das feministas”. O jovem que não comunga da agenda identitária não é visto pela esquerda como um sujeito de direitos a ser conquistado pela força dos argumentos, mas como um inimigo a ser calado, por vezes pela força bruta. Nas universidades, nos movimentos estudantis e nas mídias sociais, a discordância é tratada por amplos setores da esquerda como desvio moral. Nesse sentido, não surpreende que tantos jovens tenham ido buscar guarida para sua liberdade de expressão em outras paragens do espectro político-ideológico.

Não é preciso concordar com as ideias e os valores de Eduarda Campopiano, e de tantos outros jovens eleitos como ela, para reconhecer que suas plataformas, malgrado terem algo de provocação, servem como um diagnóstico muito claro de que a juventude de carne e osso é bem diferente daquela imaginada pela esquerda.

Sinais de alerta da advocacia

Por O Estado de S. Paulo

Pesquisa mostra que está difícil advogar em tribunal superior, e quem mais perde é o cidadão

Uma pesquisa da Associação dos Advogados (AASP) captou em números um sentimento de insatisfação que já vinha sendo manifestado por juristas renomados havia algum tempo: está cada vez mais difícil advogar nos tribunais superiores do Brasil. E isso é grave: barreiras impostas ao trabalho dos advogados não apenas atravancam o exercício das prerrogativas da classe, mas limitam o acesso à Justiça pelos seus clientes, prejudicando os jurisdicionados a quem a Justiça deveria servir.

De acordo com o levantamento da AASP, que ouviu 754 advogados, 36,2% dos entrevistados disseram considerar baixa ou muito baixa a previsibilidade das decisões das cortes de Brasília; 48,1% afirmaram que o excesso de decisões monocráticas afeta a segurança jurídica; e 82% disseram que as mudanças de entendimento dos tribunais – ou seja, uma jurisprudência flutuante – já impactaram a orientação dada aos clientes e as estratégias processuais adotadas.

Ocorre que, no exercício de sua atividade, o advogado precisa saber em que terreno está pisando, não podendo ser surpreendido, no percurso da defesa que traçou, por minas que venham a implodir sua estratégia. A jurisprudência precisa ser respeitada sem que mudanças de humor – ou, pior, conveniências – alterem as regras do jogo e os rumos de um julgamento. Não há direito sem estabilidade; não há direito sem segurança jurídica.

E, além de cobrar segurança jurídica, os advogados também querem ser ouvidos. Mas a pesquisa da AASP revelou um enorme distanciamento entre magistrados e advogados. Segundo o levantamento, 71% dos entrevistados disseram que não está plenamente garantida a participação da defesa nos julgamentos virtuais, em que os advogados enviam suas sustentações gravadas e os magistrados registram seus votos num ambiente online. E 72,3% dos entrevistados afirmaram que os procedimentos para solicitação de audiências, apresentação de memoriais e interlocução com os gabinetes de ministros “não oferecem condições plenamente isonômicas de acesso à advocacia”.

O que os advogados parecem dizer é que os julgamentos virtuais ferem princípios constitucionais do processo, como o contraditório e a ampla defesa, e tornam a análise dos casos mais opaca, numa afronta ao princípio da transparência. E, pior, os advogados estão questionando também o tratamento diferenciado que recebem nos tribunais superiores, o que poderia, no limite, desequilibrar a paridade de armas entre as partes de um processo.

Como bem afirmou ao Estadão a presidente da AASP, Paula Lima Hyppolito Oliveira, “não estamos diante de uma insatisfação pontual da advocacia, mas de um alerta institucional que precisa ser ouvido”. E a alta cúpula do Poder Judiciário deveria estar realmente atenta aos sinais emitidos pela pesquisa, pois não se trata de queixa corporativista, mas de uma pauta de interesse da sociedade. São todas críticas de boa-fé, que podem ajudar no resgate da confiança dos jurisdicionados e, sobretudo, na retomada da credibilidade perdida junto aos cidadãos brasileiros.

Amazônia em alerta

Por Correio Braziliense

Em setembro, o Amazonas registrou 3.726 focos de calor

Quando uma cidade de dois milhões de habitantes no meio da maior floresta tropical do mundo acorda coberta de fumaça, e a Defesa Civil precisa disparar alertas nos celulares pedindo que ninguém saia sem máscara, algo saiu fundamentalmente errado. Foi o que aconteceu em Manaus na última sexta-feira, e não pela primeira vez.

Em setembro, o Amazonas registrou 3.726 focos de calor. No mesmo mês do ano passado, foram 942. Agosto fechou sem um único dia de chuva, quando a média histórica do mês é de 56 milímetros. De julho a setembro, Manaus acumulou 44 milímetros de chuva, menos de um quarto dos 202 esperados para o período. A floresta que deveria ser úmida por natureza estava seca como graveto.

A origem dos incêndios segue um padrão conhecido: queimadas para renovar pastagens e limpar áreas já abertas para agropecuária. É uma prática que pode ter amparo legal em condições normais, com limites de área e autorização ambiental. Mas não há nada de normal no contexto deste ano. Com a vegetação ressecada pelo El Niño e pela ausência de chuva, o fogo controlado virou incêndio e catástrofe.

O poder público chegou tarde. A proibição do uso do fogo em todo o estado do Amazonas só foi decretada em 9 de setembro, depois de agosto inteiro sem chuva e com 2.231 focos registrados. O Ministério Público de Contas do Amazonas já pediu investigação para apurar se as ações do governo estadual foram suficientes e efetivas. A resposta, a julgar pelo céu de Manaus, é que não foram. O Ibama atua no combate a dezenas de incêndios ativos e enviará reforços, mas a fiscalização de uma floresta com 5,5 milhões de quilômetros quadrados com o contingente disponível é uma equação que nunca fecha. A Amazônia é maior do que qualquer estrutura de monitoramento que o Brasil se dispôs a montar.

O El Niño agrava tudo isso de forma exponencial. O fenômeno reduz as chuvas no Norte do país, seca a vegetação e coloca em greve os dois maiores aliados no combate à fumaça: a chuva e o vento. Sem eles, a fumaça se concentra, o fogo se alastra e a floresta vira combustível. Em 2024, a fumaça das queimadas amazônicas cobriu o céu de São Paulo. Este ano, especialistas acreditam que o alcance será menor, mas o padrão é claro: cada ciclo de seca intensa deixa a floresta mais vulnerável ao próximo. E os ciclos estão ficando mais frequentes, mais longos e mais severos.

As mudanças climáticas não são um cenário futuro para a Amazônia. Já são o presente e a realidade da floresta. O verde que regula o clima de boa parte do continente sul-americano está sendo consumido por uma combinação de ação humana direta, inércia do poder público e aceleração climática. Se o padrão atual se mantiver, o que hoje é crise sazonal se tornará colapso permanente, em um processo que, se não for revertido, consumirá a floresta inteira diante dos nossos olhos e da nossa incapacidade crônica de tratá-la como o que ela é: patrimônio insubstituível, não recurso descartável.

Quem pode decidir a eleição

Por O Povo (CE)

A abstenção representa 78,92% dos aptos a votar em todo o País, o que significa que mais de 33 milhões de pessoas se ausentaram do processo

No domingo, 4 de outubro, 125 milhões de brasileiros foram às urnas decidir quem seria o próximo presidente, além de governadores, senadores e deputados. O número representa 78,92% dos aptos a votar em todo o País, o que significa que mais de 33 milhões de pessoas se ausentaram do processo.

A taxa de abstenção ficou em 21,08% e é a maior em eleições gerais desde 1998, quando Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se reelegeu em primeiro turno. À época, 21,49% do eleitorado se absteve. Já o menor percentual foi de 16,75% em 2006.

Desde 2010, quando a abstenção era de apenas 18,12%, a taxa cresceu a cada eleição. Foi a 19,39% em 2014, a 20,33% em 2018 e a 20,93% no pleito de 2022. As razões para esse cenário são várias, perpassando realidades individuais, fatores sociológicos, desilusão ou mesmo a indecisão.

Mato Grosso do Sul (23,87%) lidera em abstenção, seguido pelo Rio de Janeiro (23,32%) e por Minas Gerais (22,77%). Em números absolutos, o estado onde mais eleitores não votaram foi São Paulo, unidade federativa mais populosa do Brasil, na qual 7,6 milhões de pessoas estiveram ausentes (22,56%).

O Ceará, onde 84,47% dos aptos a votar compareceram às urnas, aparece na contramão desse dado. Ao todo, 1.085.522 cearenses se abstiveram, o que perfaz taxa de 15,53%, a menor do Brasil. Em Fortaleza, o índice foi ainda menor, com 13,02% de abstenção. Apesar de ter números bem mais baixos no Estado do que a média nacional, a abstenção tem potencial de decidir qualquer pleito. O governador Elmano de Freitas (PT) se reelegeu em primeiro turno com uma vantagem de 376 mil votos sobre Ciro Gomes (PSDB), segundo colocado.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda não disponibilizou dados sobre qual é o perfil do eleitor mais ausente nas eleições de 2026. Os dados da eleição de 2022, porém, mostram recortes claros. O grau de instrução é uma linha de corte bem evidente. À época, a abstenção de pessoas analfabetas atingiu 52%, ante 12% daquelas com ensino superior completo. No grupo de voto facultativo, a taxa de abstenção entre jovens (16 e 17 anos) vem em trajetória de crescimento, enquanto na faixa dos idosos (mais de 70 anos) tem caído.

Dentro de menos de duas semanas, o brasileiro terá novamente a oportunidade de ir às urnas. São mais de 158 milhões de eleitores, e aqueles que se abstiveram no 1º turno seguem aptos a comparecer no 2º.

O Brasil teve o primeiro turno mais apertado de sua história democrática. A diferença entre o líder, Flávio Bolsonaro (PL), e o vice-líder, o presidente Lula (PT), é de apenas 1,87 ponto percentual — ou seja, 2,22 milhões de pessoas. A escolha é de quem vota. Abster-se de definir o futuro do país é também uma escolha, ainda quem sempre consciente. Por isso, é importante que todos os eleitores sintam-se estimulados a comparecer às urnas, e votar livremente. 

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