Pretensão de Kassio de soltar Bolsonaro é um acinte
Por Folha de S. Paulo
Ministro do STF cogita anular os efeitos da
justa condenação do ex-presidente por tentativa de golpe
A via correta para reduzir penas exageradas é
o plenário da corte autorizar logo a vigência da lei da dosimetria, aprovada
pelo Congresso
Causa espécie a notícia de que o ministro Kassio Nunes
Marques, do Supremo Tribunal Federal, cogita anular os
efeitos da condenação do ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL)
e permitir a sua soltura, mediante decisão monocrática. Parece que juízes da
corte constitucional não compreenderam a intolerância da sociedade com esse
padrão de intromissão político-partidária.
A causa é acintosa. Não há dúvidas da participação do então candidato derrotado à reeleição numa trama para subverter o resultado das urnas. Testemunhos e provas asseguram que o Brasil só não viveu a recidiva autoritária pela resistência da cúpula das Forças Armadas, liderada pelo general Freire Gomes, do Exército.
Os acusados percorreram a via canônica do
devido processo legal. Denunciados pela Procuradoria-Geral da República,
exerceram o contraditório e foram julgados em sessões públicas e regulares.
Quatro ministros —Alexandre de
Moraes, Cármen Lúcia,
Flávio Dino
e Cristiano Zanin—
venceram o único dissidente, Luiz Fux,
para sentenciar Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão.
Pode-se criticar os julgadores pela opção
maximalista no momento de definir os crimes e as penas —exagero que se repetiu
com diversos réus, não só com o ex-presidente. Isso, porém, não tisna a legitimidade
do processo.
A reação do Congresso
Nacional foi sensata. Em vez de embrenhar-se pela via irresponsável
da anistia, como queria a franja radical bolsonarista, os parlamentares optaram por
aprovar um projeto de lei, o que está em sua alçada exclusiva, que
na prática reduz as penas para todos os condenados pela intentona golpista.
Promulgada a lei, entrou em cena o poder de
obstrução individual que a lassidão em vigor concede a juízes do Supremo. Desde
maio, Alexandre de Moraes está sentado sobre ações que questionam a
constitucionalidade da lei, tendo suspendido os seus efeitos. Enquanto isso,
condenados que já poderiam estar soltos ou ter obtido encurtamento da pena não
podem ser contemplados.
A maneira ortodoxa de desfazer o impasse
seria o plenário do STF
julgar logo os questionamentos à lei e permitir que ela vigore. Tudo de que o
Brasil não precisa agora é a sobreposição de uma nova heterodoxia nesse caso
politicamente sensível. Se, com o benefício casuísta a Jair Bolsonaro, Nunes
Marques pretende prestar um serviço às forças responsáveis por sua nomeação à
corte, deve saber que prestará um enorme desserviço à causa da Justiça.
O antiexemplo de que a punição pelos crimes
cometidos contra a Carta de 1988 possa ser anulada vai estimular a repetição
dessas ignomínias. A audácia de conceder o perdão pela canetada solitária de um
ministro alimentará o moto-perpétuo que investe cada juiz do STF da pretensão
de que pode mandar em tudo.
Rasgar a toga para beneficiar um grupo
partidário manterá a cúpula da Justiça na penumbra da desmoralização, o que só
interessa aos abutres do autoritarismo.
Geopolítica e clima tornam a comida cara
Por Folha de S. Paulo
Guerras impactam índice global de preços da
agência da ONU, que atinge maior patamar desde o fim de 2022
No Brasil, poder de compra melhora e safra
tem projeção de alta, mas fenômeno El Niño intenso pode prejudicar a
produtividade agrícola
A guerra na Ucrânia, o bloqueio
parcial do estreito de Hormuz no Oriente Médio
e um intenso fenômeno El Niño
geram novos riscos para a oferta mundial de alimentos.
O índice de
preços de alimentos da FAO, agência da ONU para
segurança alimentar, atingiu 136 pontos em setembro, alta de 1,5% em relação a
agosto e de 5,8% na comparação anual —maior patamar desde o final de 2022,
embora cerca de 15% abaixo do recorde de março daquele ano.
Os cereais subiram 5,1% no mês e 17,2% em 12
meses, puxados por trigo e milho; o açúcar teve alta de 6,1% e 14,7%,
respectivamente; óleos vegetais, 0,9% e 18,3%. Carnes e lácteos recuaram ou
permaneceram estáveis.
Ataques ucranianos a refinarias russas
reduzem a oferta de diesel,
inclusive para o Brasil. No Golfo, o corte nos embarques de óleo diesel e de
ureia afeta preços —o Oriente Médio responde por cerca de um terço do comércio
desse fertilizante nitrogenado.
O repasse aos preços finais ainda é parcial,
mas a FAO alerta que a persistência dessas pressões tende a alcançar o
consumidor, sobretudo em países importadores de alimentos e energia.
O El Niño severo amplifica o risco. A agência
já registra expectativas de safras mais apertadas de açúcar em 2026-27, com
chuvas abaixo do normal na Índia e em excesso no Centro-Sul do Brasil.
Incertezas quanto à produtividade nos Estados
Unidos e menor disponibilidade para exportação no Brasil sustentam
cotações. A produção global de cereais em 2026 é estimada em 2,98 bilhões de
toneladas, 2,1% abaixo do recorde do ano anterior. Ainda é a segunda maior da
história, mas com o comércio projetado em queda por restrições logísticas.
No Brasil, o quadro é menos agudo, mas longe
de confortável. O poder de
compra de alimentos melhorou em relação a 2022, sem recuperar o
patamar pré-pandemia. Em agosto, o salário mínimo
de R$ 1.621 comprava 1,8 cesta básica em São Paulo
(R$ 900,59), 11,3% a mais que 1,62 cesta em agosto de 2022, porém 13% abaixo da
média de 2010-19.
De 2019 a 2022, a alimentação no domicílio
acumulou alta de 54,2%, bem acima do IPCA
geral. Nos anos seguintes a pressão diminuiu, com alta de 12,9% do início de
2023 até agosto deste ano, mas os meses recentes mostram reaceleração em itens
sensíveis.
Por ora, a Conab projeta uma safra recorde de grãos para 2026-27, 366,6 milhões de toneladas, alta de 1,4% ante o ano passado. Diante dos riscos climáticos, porém, a produtividade pode frustrar as estimativas iniciais e impactar o custo da alimentação.
Congresso mais conservador terá de zelar por
equilíbrio
Por O Globo
Parlamento representa sociedade e deve ser
espaço de debates, não rolo compressor que ignora as minorias
Os resultados das urnas em 4 de outubro dão
enorme poder no Congresso ao PL — legenda do candidato Flávio Bolsonaro. Na
Câmara, o partido elegeu 121 deputados (atualmente são 99), a maior bancada
desde 1986, quando o PMDB conquistara 260. No Senado, o desempenho foi ainda
mais expressivo: levou 28 cadeiras e quase dobrou o número atual (15), um
recorde desde a redemocratização. Com outros partidos de direita e do centro, o
PL não terá dificuldade de montar uma coalizão conservadora com poder inédito
para aprovar emendas constitucionais e influir nos rumos do país.
Se o eleito em 25 de outubro for o senador
Flávio Bolsonaro, ele não deverá encontrar obstáculos a seus projetos no
Congresso. O melhor cenário seria ele usar a força, a energia e a confiança
dada pelo eleitor para pôr em marcha as reformas há muito adiadas, sobretudo a
fiscal e a administrativa. O pior cenário seria priorizar propostas
revanchistas ou de cunho apenas ideológico para agradar à militância. Se, ao
contrário, o escolhido for o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hipótese que
não pode ser descartada dada a campanha extremamente acirrada, ele terá o
desafio de negociar com um Legislativo ainda mais resistente do que na atual
legislatura, quando obteve vitórias importantes, como a reforma tributária, mas
também colheu derrotas acachapantes, como a recusa do Senado ao nome do
advogado-geral da União Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) ou
a derrubada do veto ao projeto que reduz penas dos acusados pelo 8 de Janeiro.
Eventuais falhas na articulação política poderão causar paralisia e trazer
riscos sérios à governabilidade.
Independentemente de quem seja o próximo
presidente, com a avalanche bolsonarista no primeiro turno, o PL e a direita se
credenciam a avançar por determinados caminhos até aqui limitados pelo relativo
equilíbrio entre as diversas forças do Parlamento. Poderão obter maioria para
alterar a Constituição com relativa facilidade. É verdade que a federação
formada por PT, PV e PCdoB também cresceu de 82 para 88 deputados, mas não terá
o mesmo poder para bloquear propostas.
No Senado, estima-se que haja número próximo
dos 54 senadores necessários para aprovar o impeachment de ministros do
Supremo, pauta cara ao bolsonarismo e à direita (há vários pedidos engavetados
na Casa). Na atual legislatura, não foram poucos os atritos entre os Poderes,
mas eles foram contornados. Com a nova formação, o Senado terá condição de
confrontar o STF. E aumentará seu cacife para aprovar indicações a tribunais
superiores, embaixadas e agências reguladoras, posições sempre estratégicas.
Sob Flávio ou sob Lula, o desafio do novo
Congresso será resgatar o equilíbrio e a harmonia entre os Poderes da
República, condição fundamental numa democracia. Ao mesmo tempo, será essencial
manter o diálogo com todas as correntes políticas, entendendo que o Congresso é
um espaço de debate e não deve se transformar num rolo compressor que ignora
demandas das minorias. Não seria saudável para o Brasil um Parlamento que
mantivesse o país e suas instituições em permanente sobressalto, tampouco que
impusesse o desejo da maioria sem dar espaço ao contraditório, como convém a um
Legislativo que representa o conjunto de todos os brasileiros.
Votos dados a Garotinho têm de ser
considerados válidos pelo TSE
Por O Globo
Anular a votação significaria violar a
vontade popular pelo segundo turno expressa na urna
A eleição para governador do estado do Rio de
Janeiro depende de decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No primeiro
turno, o deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa do Rio
(Alerj), Douglas Ruas (PL), obteve 49,27% dos votos, ante 42,76% do ex-prefeito
do Rio Eduardo Paes (PSD) e 3,17% do ex-governador Anthony
Garotinho (Republicanos). Depois do pleito, Garotinho desistiu do
recurso apresentado à Justiça contra o indeferimento de sua candidatura. Foi
uma manobra para favorecer Ruas, já que, se os votos de Garotinho forem
invalidados, o presidente da Alerj alcançará 50,88% do total e estará eleito no
primeiro turno. A Justiça Eleitoral não pode chancelar tal casuísmo. Não seria
correto anular a vontade dos 274.411 eleitores que expressaram sua preferência
por Garotinho. Afinal, o nome dele estava na urna.
O TSE tem vários precedentes para não
avalizar a desistência. Nas eleições de 2012, o PT do município de Retirolândia
(BA ) decidiu integrar uma coligação com o PCdoB. O diretório estadual, no
entanto, queria que o partido se coligasse com o PMDB. O Tribunal Regional
Eleitoral (TRE) da Bahia considerou a intervenção estadual legítima, e o caso
foi parar no TSE. Depois do pleito, a coligação desistiu do recurso, mas o TSE
negou, por entender que a decisão alteraria o quociente eleitoral e, portanto,
a distribuição das cadeiras e a representação partidária. Em seu voto, a
ministra Luciana Lóssio citou o caso de um candidato cuja candidatura fora
indeferida pelo TRE da Paraíba em 2010 depois de impugnada. O candidato
recorreu ao TSE, mas desistiu. O relator Arnaldo Versiani argumentou que, após
o pleito, o candidato deixa de ter domínio sobre seus votos.
Outro episódio, em 2004, envolveu uma
acusação de compra de votos para um candidato a vereador que teria implicação
na composição da Câmara de Itumbiara (GO). Em 2005, o ministro Caputo Bastos
argumentou que o resultado da eleição não interessa apenas às partes
envolvidas. Trata-se, segundo ele, “de apuração da vontade popular, da
legitimidade das eleições e, em última análise, do esteio maior do regime
democrático”. Do contrário, o concorrente poderia usar a desistência como moeda
de troca ou até extorsão.
Garotinho fez de tudo para participar da
eleição. O registro de sua candidatura havia sido indeferido pelo TRE devido a
uma condenação por improbidade administrativa. A defesa recorreu ao TSE. Às
vésperas do pleito, o ministro Floriano Marques decidiu que os votos em
Garotinho não deveriam ser considerados, mas o presidente do TSE, ministro
Kassio Nunes Marques, determinou que fossem contados até que houvesse decisão
colegiada. Por que a desistência depois da eleição?
O que a Justiça Eleitoral precisa fazer é cumprir a vontade do eleitor. Com o nome de Garotinho na urna, ele decidiu que Ruas e Paes deverão disputar o segundo turno no dia 25 de outubro. Anular os votos de Garotinho a esta altura significaria violar a vontade popular dando aval a uma desistência que, claramente, objetiva favorecer um dos candidatos.
O eleitor julgou o Supremo
Por O Estado de S. Paulo
Fastio com o petismo explica parte do
resultado das eleições, mas o empurrão final à direita, sobretudo no Senado,
veio do STF. A urna repudiou um Poder que se vê acima do bem e do mal
O resultado das eleições gerais admite muitas
leituras. Uma, em particular, é incontornável: o papel do Supremo Tribunal
Federal (STF) como um dos mais importantes vetores de voto em 2026. Flávio
Bolsonaro (PL) chegou à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro
turno, e os dois disputarão a Presidência da República no próximo dia 25. Parte
dessa história é explicada pelo fastio com o lulopetismo e com uma esquerda
agressiva que perdeu a capacidade de se conectar com os anseios da maioria dos
brasileiros. Mas o empurrão final à direita, sobretudo àquela que pretende
enquadrar o STF, foi dado, convenhamos, pela própria Corte.
Os números do Senado não deixam dúvida. Das
54 cadeiras em disputa, o PL de Flávio Bolsonaro conquistou 19 e terá, a partir
de 2027, a maior bancada da Casa, com 28 senadores. O PT elegeu apenas 6. Um
levantamento do Estadão
mostra que ao menos 31 dos senadores eleitos concordam, total ou parcialmente,
com o impeachment de ministros do STF. Número igual apoia a fixação de mandato
para os integrantes da Corte. Não se chega a isso por acaso. Uma pauta que até
outro dia se restringia à franja mais radical do bolsonarismo se tornou uma
plataforma política vitoriosa de Norte a Sul.
O STF teve todas as oportunidades para se
emendar por conta própria. Este jornal fez vários alertas. O tribunal poderia
ter sido mais contido. Poderia ter se desvencilhado dos conflitos de
interesses. Poderia ter resistido à tentação de ditar os rumos do País – prerrogativa
da sociedade, por meio de seus representantes eleitos. Poderia, sobretudo, ter
acolhido o anseio legítimo de muitos brasileiros pela investigação de ministros
implicados no caso Master. Contudo, o STF preferiu a autoproteção.
O instinto de sobrevivência de alguns
ministros se sobrepôs ao espírito público da instituição. Primeiro, de forma
clandestina, na reunião que selou a blindagem de Dias Toffoli. Depois, à luz do
dia, no vergonhoso espetáculo da sessão do dia 15 de setembro, que, por um pas de deux procrastinatório
protagonizado por Gilmar Mendes e Flávio Dino, livrou Alexandre de Moraes de
ser investigado por sua suposta prestação de serviços ao banqueiro Daniel
Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Em ambos os casos, o STF virou as costas para
o Brasil que só pedia que aos ministros fosse dado o mesmo tratamento
dispensado a qualquer cidadão: que fossem investigados à luz da suspeita de
crimes.
Como se não bastasse, em guerra intestina por
poder, o STF se comportou desabridamente como parte interessada no resultado do
pleito. O eleitor viu ministros da Corte atropelarem o Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) quando seus interesses políticos estiveram sob risco. Viu
também, às vésperas da abertura das urnas, ministros do STF e do TSE frustrarem
sua expectativa de ver o último debate entre candidatos à Presidência da
República antes do primeiro turno.
Diante de tudo isso, o resultado de domingo
passado é, além de um aval ao bolsonarismo, uma moção de censura ao Supremo. E
censura não é sinônimo de revanche. O impeachment é remédio extremo, mas está
previsto na Constituição. E se antes esse era um assunto marginal no País, hoje
é tema corrente graças ao próprio Supremo. Ao negar à sociedade a possibilidade
de investigação de seus pares, os ministros entregaram a uma massa de eleitores
a bandeira da moralidade pública e, principalmente, a da defesa da igualdade de
todos perante a lei, ensejando um voto contra tudo que represente um arranjo
entre poderosos em desfavor do melhor interesse público.
Embora escasso, ainda há tempo para que a
Corte, finalmente, entenda o que se passou. Um código de ética digno do nome, o
fim de decisões monocráticas que se perpetuam sem deliberação colegiada e a
disposição de submeter os ministros ao mesmo escrutínio legal válido para todos
os cidadãos fariam mais pela defesa do STF do que qualquer medida externa. Mas,
se insistir na soberba e no alheamento à realidade que o cerca, o STF será
reformado de fora para dentro, por um Senado eleito claramente com esse
propósito. Ao fim e ao cabo, o eleitor disse na urna que não admite um Poder
que se vê acima do bem e do mal na República.
Infraestrutura sem gargalos
Por O Estado de S. Paulo
Próximo governo tem o dever de fortalecer agências regulatórias, aperfeiçoar as concessões e, junto com o setor privado, investir para que projetos de infraestrutura enfim decolem
O governo que comandará o Brasil entre 2027 e
2030 herdará uma carteira de dezenas de bilhões de reais em projetos de
concessão de infraestrutura que seguem sem sair do papel, prejudicando a
competitividade do País e pressionando o chamado “custo Brasil” – o conjunto de
dificuldades estruturais, burocráticas e econômicas que torna mais caro fazer
negócios por aqui do que em outros países.
De estradas em más condições ou sem
duplicação a portos operando no limite da capacidade, passando por aeroportos
sobrecarregados, o Brasil acumula problemas logísticos e de infraestrutura que,
em menor ou maior grau, prejudicam a população e o País como um todo.
Mas o setor não vive apenas de más notícias
ou de diagnósticos do que não funciona. Ainda que sejam insuficientes para
acabar de vez com o gargalo de infraestrutura no Brasil, os investimentos na
área têm sido os maiores em muitos anos. No ano passado, segundo a Associação
Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), somaram R$ 280
bilhões, a maior parte dos quais (84%) capitaneada pelo setor privado.
É salutar que o setor privado esteja
liderando os investimentos em infraestrutura no País, tendência que, segundo o
próprio setor, veio para ficar. Isso, porém, não exime o poder público de fazer
a sua parte e aportar recursos e ofertar modelos atraentes de concessão para
que rodovias, portos, aeroportos e ferrovias estejam à altura do Brasil, uma
das principais economias do mundo.
Durante um fórum sobre infraestrutura
promovido pela Câmara Oficial Espanhola de Comércio no Brasil, o
presidente-executivo da Abdib, Venilton Tadini, questionou: “Como é que o
orçamento da União tem R$ 23 bilhões para infraestrutura e R$ 60 bilhões para
emendas parlamentares, sendo 90% sem vinculação a programa nenhum?”. A
provocação é boa: destinam-se mais recursos para obras paroquiais do que para
investimentos que efetivamente impulsionam o desenvolvimento.
De fato, o volume desproporcional de emendas
– que, para piorar, são distribuídas sem qualquer critério e sem rastreamento –
sequestra recursos do Orçamento e compromete seriamente a capacidade do País de
financiar políticas públicas efetivas. No entanto, apenas moralizar as emendas
parlamentares não basta para que os gargalos de infraestrutura finalmente sejam
eliminados. É preciso trabalhar, por exemplo, para que o patamar de juros
praticado no País seja civilizado. Taxas acima de dois dígitos, como as que o
Brasil pratica há tanto tempo, diminuem a capacidade de investimento e impedem
que projetos de longo prazo vejam a luz do dia.
Não menos importante é a questão das agências
reguladoras. Criadas há cerca de 30 anos para regulamentar, fiscalizar e
garantir a qualidade dos serviços públicos prestados à população brasileira –
em outras palavras, proteger o interesse do cidadão –, as agências sofrem com a
falta de pessoal, o aparelhamento político e o constante contingenciamento de
recursos.
Somente a Agência Nacional de Transportes
Terrestres (ANTT), responsável pela regulação e a supervisão dos serviços de
transporte terrestre e da infraestrutura de rodovias e ferrovias federais no
Brasil, enfrenta um déficit de pessoal de pelo menos 44%. Entidades como a
Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) enfrentam problemas similares.
O sucateamento das agências cobra um preço
extremamente elevado do País. Sem recursos financeiros e operacionais, os
órgãos reguladores não têm condições de realizar estudos de concessões bem
desenhados, o que atrasa o cronograma de leilões de concessão.
Não bastasse tudo isso, o Brasil marca passo
em setores que hoje mobilizam o protagonismo econômico de grandes potências
globais, como EUA e China, a exemplo do mercado de terras raras.
Sem infraestrutura adequada, não é possível
acelerar o crescimento do País. Se queremos um desenvolvimento sustentável, é
preciso melhorar as condições básicas para o setor produtivo. Da estrada
esburacada que atrasa e encarece o escoamento da produção ao porto que não tem
estrutura adequada para atender à demanda, tudo conspira para nos manter no
atraso. O próximo governo precisa mudar isso.
A precificação de Lula
Por O Estado de S. Paulo
Enquanto Flávio dispõe do benefício da
dúvida, de Lula o mercado já sabe o que esperar
A reação do mercado à possível vitória do
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa pela Presidência da República expôs
o preço do discurso de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra a responsabilidade
fiscal. Bastou a divulgação do resultado do primeiro turno da eleição para que
o Ibovespa, principal referência da Bolsa brasileira, subisse 7,7%, para 206,9
mil pontos, o dólar despencasse 4,12%, para R$ 5,0018, e a curva de juros
futuros indicasse uma queda mais acentuada da Selic, próxima de 12% ao fim de
2027.
A euforia da segunda-feira abriu espaço para
a realização de lucros ontem, com a Bolsa caindo, mas ainda acima da marca de
200 mil pontos. Câmbio e juros futuros, no entanto, sustentaram os efeitos do
rali eleitoral ao menos por mais uma sessão. É, em suma, o reflexo da
expectativa de que o senador, uma vez eleito, fará um ajuste fiscal da ordem de
1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), o equivalente a R$ 204 bilhões, segundo
têm indicado seus assessores.
A meta é desafiadora, de modo que
materializá-la exige mais que retórica. Até agora, sempre que confrontado sobre
temas como o reajuste do salário mínimo, a reforma da Previdência e a
desvinculação dos pisos constitucionais de Saúde e Educação, tanto o senador
quanto a porta-voz econômica de sua campanha, Daniella Marques, escaparam pela
tangente por receio de perder votos.
Mas se o senador ainda pode contar com o
benefício da dúvida, de Lula o investidor já sabe exatamente o que deve e o que
não deve esperar. O esforço de sua equipe econômica para convencer o mercado de
que um eventual quarto mandato não será uma tragédia fiscal foi jogado pela
janela quando o presidente disse não estar preocupado com a dívida pública e
afirmou que o governo precisa “parar com a babaquice” de fazer superávit.
A recusa de Lula em dar qualquer aceno aos
investidores revela uma incompreensão sobre o funcionamento do mercado
financeiro que um presidente em busca do quarto mandato já não pode mais se dar
ao luxo de ter. Neste momento, tudo que os investidores querem é um sinal de
fumaça na direção de contas públicas em ordem, dívida mais comportada e alguma
segurança jurídica.
Flávio sabe disso e surfa nessa onda sabendo
que a trégua tem prazo de validade. Bolsa em alta, juros civilizados e dólar
mais baixo requerem propostas concretas e corajosas. Logo, não se pode condenar
quem desconfie da disposição de Flávio em fazer o ajuste fiscal da ordem que o
País precisa, como disseram ao Estadão
o ex-diretor do Banco Central (BC) Alexandre Schwartsman e o ex-ministro da
Fazenda e ex-presidente do BC Henrique Meirelles.
A submissão de medidas impopulares ao
Congresso é um teste político para qualquer presidente. Ainda que disponha da
força das urnas e de maioria confortável na Câmara e no Senado, a aprovação
dessas propostas no Congresso depende de negociações e, sobretudo, de sua
liderança e convicção pessoais sobre a importância do avanço de uma agenda
econômica para o futuro do País.
Há fundadas dúvidas de que Flávio esteja à altura desse desafio, mas, com um adversário que diz o que Lula diz, o senador pode se permitir jogar parado.
Senado não pode deixar de votar projetos
vitais em pauta
Por Valor Econômico
Há questões urgentes, pendentes de respostas, que não podem esperar
A futura configuração do Senado terá de tomar
decisões sobre projetos que estão para ser votados e que são importantes para o
futuro do país. O de maior consequência a curto prazo é o da redução da semana
de trabalho de 44 para 40 horas, ou a jornada 6x1, suavização da proposta feita
pela deputada Erika Hilton (Psol-SP) que foi encampada na campanha eleitoral
pelo governo Lula - o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), quer
começar a votar o tema, que afeta sobretudo pequenas e médias empresas, este
ano, mas o calendário ainda está incerto.
De maior alcance, a reforma tributária, fruto
de um amplo consenso após décadas de discórdias, não pode entrar no limbo após
as críticas feitas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que venceu o primeiro
turno das eleições presidenciais e incluiu sua revisão em plataforma de
campanha.
A alíquota do Imposto Seletivo (IS), parte
derradeira do extenso processo da reforma tributária, que finalmente atingiu um
consenso mínimo entre União, Estados e municípios, deve ir agora para
apreciação dos senadores após o fim do segundo turno das eleições. O Executivo
adiou para depois do encerramento das votações o envio das alíquotas do IS, que
recairá sobre bens que foram classificados como prejudiciais ao ambiente ou à
saúde dos cidadãos, que determinará a carga tributária final a ser cobrada
pelos bens e serviços consumidos no país.
A responsabilidade dos senadores é grande. O
atraso no envio da proposta de alíquota já significou a diminuição de receitas
esperadas da União para o próximo ano, seja quem for o próximo presidente. Na
proposta orçamentária, o IS, que substituirá o IPI (exceto na Zona Franca de
Manaus), tem arrecadação esperada de R$ 41,9 bilhões. O atraso, já ocorrido,
reduzirá a arrecadação em R$ 3,7 bilhões, e postergações adicionais provocarão
danos maiores.
A redução da semana de trabalho sem redução
de salários precisa de definição. A grande maioria dos empresários é contra a
proposta da forma como foi concebida. Há fortes argumentos contra a mudança,
que elevará custos em um país em que a produtividade se arrasta em níveis muito
baixos ao longo de décadas. Uma parcela das empresas admite a redução, desde
que o período de transição para a nova duração do trabalho se estenda por
alguns anos, e não pelos 14 meses estipulados.
O governo Lula considera a aprovação da
jornada 6x1 vital para a reeleição do presidente, prova de que um projeto dessa
natureza não deveria ser discutido em período eleitoral. Suas chances de
aprovação passaram por um acordo feito entre Lula e Alcolumbre, que foi
intermediado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. O acordo garantiria a
continuidade de Alcolumbre no comando da Casa. Essa barganha foi fulminada pela
avalanche de votos do PL, cujo presidente, Valdemar da Costa Neto, empoderado,
reivindica a Presidência para um dos seus, o coordenador de campanha de Flávio
Bolsonaro, senador Rogério Marinho (RN).
Está mais que madura para aprovação a PEC da
Segurança Pública. Depois de uma batalha intensa, em que os Estados tentaram
rejeitar ou limitar a participação da União no financiamento e na definição de
diretrizes conjuntas para a questão, chegou-se a um consenso mínimo em que,
respeitadas as atribuições legais estaduais, será possível realizar ações conjuntas,
de logística, inteligência, apoio material e humano, contra o crime organizado,
que afeta cidadãos e empresas. Isso já deveria ter ocorrido há muito tempo, e
não há mais espaço para procrastinações na aprovação.
Há questões urgentes, pendentes de respostas,
que não podem esperar. A pressão da bancada ruralista para estender a
renegociação de dívidas a créditos não bancários e não relacionados à produção
é um deles. Ela acrescentará maior gasto às contas públicas, em uma conta que
pode chegar a R$ 140 bilhões em 10 anos. O setor desfruta de amplo crédito
subsidiado e tem sido um dos mais lucrativos ao longo dos últimos anos.
Da mesma forma, tende a ser lesiva aos cofres
públicos a ampliação em dois anos dos limites de faturamento do MEI (Micro
Empreendedor Individual) de R$ 81 mil para R$ 140 mil, com permissão para
contratação de dois funcionários, e não um, como hoje. A contribuição
individual previdenciária do MEI é irrisória, de 5% (R$ 81), e o número de
aderentes ao programa atingiu 12,7 milhões, quase a metade do número de
empresas do país. O déficit atuarial que o programa traz à Previdência, já
enorme, não deveria ser expandido.
Requerem votação ainda as regras para regulação das Big Techs e da Inteligência Artificial. O primeiro tema tem forte componente político e depende do resultado das eleições. O presidente dos EUA, Donald Trump, impõe sanções a quem restringe a atuação de empresas americanas. Os dois projetos podem aguardar mais debates produtivos na sociedade civil para ganharem um perfil definitivo, mais voltados para o futuro que para o imediatismo eleitoral, mas precisam ser encarados já.
O voto e o algoritmo
Por Correio Braziliense
Não basta declarar compromisso com a
democracia. É preciso demonstrá-lo com dados verificáveis, em tempo real, por
qualquer pesquisador ou órgão regulador que queira checar
O Brasil terminou o primeiro turno no domingo
e já se prepara para o segundo. Mas, antes de virar a página, é preciso olhar
para algo que aconteceu durante a votação — não nas filas, não nas seções
eleitorais, mas nas telas. O ambiente digital não é mais um reflexo do debate
político. É parte dele. Redes sociais são hoje onde a maioria dos eleitores
forma opinião, recebe informação e decide em quem votar. Essa fusão entre o
espaço virtual e o espaço real tem consequências diretas para a integridade do
processo democrático, e o que o Observatório das Big Techs, do NetLab da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), documentou no dia 4 de outubro é
um alerta que não pode ser ignorado antes do segundo turno.
O levantamento documentou centenas de
anúncios políticos irregulares veiculados nas principais plataformas no próprio
dia da eleição, período em que a propaganda eleitoral paga é expressamente
proibida pelo TSE. Outros anúncios haviam circulado durante o período de
silêncio eleitoral, nos dias anteriores à votação. Sistemas de recomendação de
vídeo continuaram sugerindo conteúdos de candidatos quando deveriam estar
desativados para esse fim. O caso mais grave foi o de anúncios que simulavam
comunicações oficiais da Justiça Eleitoral, induzindo eleitores a acreditar que
poderiam votar remotamente pelo celular, e solicitando CPF para isso, em clara
desinformação ativa no dia do voto.
As respostas das empresas seguiram o script
habitual: compromisso declarado com a integridade eleitoral, equipes dedicadas
ao monitoramento, volume expressivo de conteúdos removidos ao longo do período.
Nenhuma delas reconheceu a falha. Todas descreveram o problema como resíduo
inevitável de sistemas que, no geral, funcionam. Mas o que o estudo documenta é
exatamente o contrário: plataformas que falharam em cumprir obrigações legais
no momento mais sensível do calendário democrático.
Parte do problema é estrutural. O estudo da
UFRJ aponta divergências entre os dados exibidos nas interfaces públicas das
plataformas e os dados acessados por programação, com anúncios classificados
como inativos que apareciam simultaneamente em listas de ativos. Essa falta de
transparência dificulta a fiscalização externa e, consequentemente, a
responsabilização. Quando nem o pesquisador consegue saber com certeza o que
está circulando, o regulador tampouco consegue.
O segundo turno será em menos de quatro
semanas. O TSE tem instrumentos legais para exigir cumprimento das regras, e
deve usá-los com mais vigor do que usou no primeiro turno. Mas a fiscalização
pública, por mais eficiente que seja, não substitui a necessidade de que as
próprias empresas adotem políticas internas mais rígidas, mais transparentes e
publicamente auditáveis. Não basta remover conteúdo após denúncia. É preciso
impedir que circule. Não basta declarar compromisso com a democracia. É preciso
demonstrá-lo com dados verificáveis, em tempo real, por qualquer pesquisador ou
órgão regulador que queira checar.
Democracia não sobrevive apenas de urnas e mesários. Sobrevive também do ambiente em que o debate acontece. Quando esse ambiente é controlado por algoritmos opacos e por empresas que tratam irregularidades eleitorais como problema de relações públicas, o risco não é apenas de uma eleição contaminada. É de uma democracia progressivamente esvaziada por dentro.
Os professores e a educação no mundo
Por O Povo (CE)
Segundo a Unesco, até 2030 o mundo precisará
de mais de 50 milhões de professores. No entanto, os salários oferecidos
tornam-se uma barreira para alcançar a meta
No Dia Mundial dos Professores, comemorado
nesta segunda-feira (5/10), a Organização das Nações Unidas para a Educação e
Cultura (Unesco) divulgou um relatório alertando para os baixos salários dos
professores. Segundo a Unesco, em dois, a cada cinco países do mundo, os
professores ganham menos do que outros profissionais com qualificação
equivalente.
A celebração deste ano em homenagem aos
educadores tem como tema "Apoiando os professores: 60 anos protegendo a
profissão, avançando seu status e moldando nossos futuros". O objetivo dos
organizadores é sensibilizar os legisladores para valorizarem os educadores,
propiciando-lhes melhores condições de trabalho e de vida.
No Brasil, o Índice do Direito à Educação
(RTEI, 2021) mostra que os professores ganham o equivalente, em média, a 81% do
salário dos trabalhadores com formação superior.
Segundo a Unesco, até 2030 o mundo precisará
de mais de 50 milhões de professores. No entanto, os salários oferecidos
tornam-se uma barreira para alcançar a meta. A agência ainda vê a necessidade
de fortalecer o setor educacional e apoiar cerca de 107 milhões de homens e
mulheres que fazem do ensino a sua profissão. Outra urgência, segundo o
relatório, é aumentar o número de professoras em posições de liderança na
educação.
Na mesma semana em que a Unesco emitiu seu documento,
a agência da ONU para Refugiados (Acnur) também publicou um relatório com
preocupantes informações sobre a educação.
Segundo a Acnur, 5,8 milhões de alunos estão
fora da escola após escaparem de conflitos, violência, perseguição e guerras. A
agência alerta que a situação põe em risco uma geração de jovens. O efeito é
resultado de cortes de financiamento, que podem reverter anos de progresso na
educação de crianças e adolescentes forçados a fugir de seus países, afirmou o
alto comissário da ONU para Refugiados, Barham Salih,
O Acnur fez um apelo à comunidade
internacional para que os países mantenham o financiamento da educação para os
refugiados. Além disso, que continuem a investir em estruturas nos países que
acolhem as populações forçadas a deixarem seus lares.
Depois que assumiu a presidência dos Estados Unidos, Donald Trump cortou milhões de dólares em ajuda às agências da ONU, inclusive recursos para o combate à fome em todo o mundo. Ele também desmantelou a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), responsável por programas sociais do governo dos EUA. No início de seu segundo governo, Trump nomeou Elon Musk para promover os cortes. Na ocasião, o bilionário disse que iria "triturar" os programas sociais do governo americano.

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